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Star Wars é ficção científica – Parte I – Definindo “o que é ficção científica”

Se o presente artigo se propõe a mostrar que Star Wars é uma saga sci-fi, nada mais lógico que primeiramente analisemos as definições de ficção científica, para evitar cair no lugar comum dos que afirmam que Star Wars não se enquadra na categoria porque a obra não bate com as definições ‘pessoais’ deles do gênero. Ou seja, para começarmos evitando o já clássico “Para mim, ficção científica é [definição própria], então Star Wars não pode ser considerada ficção científica“.

Por mais que cada um possa – e deva – ter seu entendimento pessoal sobre o gênero, é preciso aceitar (e respeitar) o fato de que existem definições para sci-fi que são aceitas como ‘convenções’, ainda que dotadas de certa subjetividade em alguns pontos.

Assim, considerando-se um apanhado das mais aceitas e respeitadas definições de ficção científica, é possível aceitar-se que as lacunas conceituais existentes nesses preceitos possam ser preenchidas pelas pessoas e seus entendimentos pessoais… só não é possível que esses conceitos próprios de cada amante do gênero infrinjam os pilares básicos das definições já ‘estabelecidas’.

a) O início:

frankenstein-mary-shelley-202x300 Star Wars é ficção científica - Parte I - Definindo "o que é ficção científica"Estudiosos da literatura costumam apontar o termo science fiction como originário da revista estadunidense Science Wonder Stories, registrado em nome do editor Hugo Gernsback em 1929, mas aquele foi apenas o ato de batizar um gênero surgido ainda no Século anterior com Júlior Verne e H.G. Wells (mas que muitos consideram ter se iniciado com Mary Shelley) e que começava a se popularizar.

Três anos antes, o mesmo Gernsback referiu-se ao gênero como scientification (“cientificação”) em um editorial da revista Amazing Stories. Dizia ele que o gênero era aquele na qual se enquadrava a escrita de Verne, Wells e Edgar Allan Poe.

Ciro Flamarion Cardozo, no livro Ficção Científica – Imaginário do Século XX (1998), diz que Gernsback afirmou na ocasião que:

“[…] o que hoje é definido como ficcional nesse tipo de literatura pode realizar-se amanhã. Em certo sentido, então, ter-se-ia, aí, um tipo de literatura destinado a ser como que um “arauto do progresso” […]”.

↑ Análise: Star Wars é ambientada em um cenário futurista, o que se enquadra nessa definição.

b) Definições clássicas de ficção científica:

JacquesGoimard-183x300 Star Wars é ficção científica - Parte I - Definindo "o que é ficção científica"A partir da conceituação de Gernsback, e, conforme a popularização do gênero aumentava, novos estudos sobre o tema surgiram e novas definições foram estabelecidas, sempre completando e incrementando o conceito por ele inaugurado. Vejamos algumas delas.

O primeiro estudo científico sobre a ficção científica (!) foi publicado por J. O. Bailey Pilgrims no livro Peregrinos através do Espaço e do Tempo (Through Space And Time – 1947), onde ele definiu o gênero como:

Narrativa de uma invenção imaginária ou uma descoberta imaginária no domínio das ciências naturais, bem como das aventuras e conseqüências fictícias de tal invenção ou descoberta“.

↑ Análise: Novamente se enquadra… Ciências naturais? Aventuras em consequência da revelação e/ou uso desses elementos (Força)? Sim. Está tudo lá.

Kingsley Amis, novelista britânico e um dos grandes críticos literários europeus do pós-Guerra definiu assim a ficção científica (tratando da literatura, mas, obviamente, o conceito pode se estender ao cinema):

Relato em prosa que trata de uma situação que não poderia apresentar-se no mundo que conhecemos, mas cuja existência se baseia na hipótese de uma inovação qualquer, de origem humana ou extraterrestre, no domínio da ciência ou da tecnologia; ou, poder-se-ia dizer, da pseudociência ou da pseudotecnologia.

↑ Análise: Tecnologia futurista que propicia naves espaciais e saltos no hiperespaço, robôs, armas de destruição planetária e uma distopia militar imposta por um Império Galáctico opressor… tudo dentro do ‘exigido’ na definição de Kingsley.

Darko Suvin, acadêmico iugoslavo, estudioso da cognição e professor universitário e um dos maiores influenciadores históricos sobre o conceito de sci-fi, considerava que:

“[…] o gênero une e faz interagir necessariamente a busca de uma explicação racional para determinado fato e um sentimento de desconforto diante da compreensão de que o fato é ao mesmo tempo aceitável e duvidoso, por não se enquadrar no modelo habitual […]”.

↑ Análise: Novamente, a tecnologia futurista do filme se enquadra na definição, assim como a ambientação espacial, as visitas aos planetas, o uso das naves para as viagens, etc. Até a Força e seus efeitos se enquadram no “fato ao mesmo tempo aceitável e duvidoso“…

Para Jacques Goimard, escritor francês de ficção científica, cujos estudos sobre o gênero se tornaram referência na área, afirma em Une Définition de la Définition, et Ainsi de Duite (1976):

“[…] a diferença básica da ficção científica em relação ao fantástico tem de ser buscada é na função da obra, isto é, na relação entre obra e público (já que os dois elementos – ciência e fantasia – se fundem). A ficção científica, porém, não é “mágica”, é “mítica”: ela se instala num aspecto da norma socialmente aceita – a ciência ou a aparência dela – e, a partir desse lugar, finge responder às questões que a ciência da época em que a obra é realizada não sabe resolver […] o gênero tem uma ciência virtual ou imaginária, mesmo se às vezes misturada com elementos científicos autênticos. Ou seja, a ficção científica é um gênero que comporta um deslocamento da verossimilhança e cumpre uma função mítica […]”.

↑ Análise: Ciência e fantasia se fundindo? Check! Elementos míticos? Check! Tecnologia demonstrada acima da que é vista no mundo atual? Check! Ciência virtual ou imaginária, misturada com elementos científicos autênticos? Check! Verossimilhança deslocada cumprindo função mítica? Check!

c) Definições contemporâneas de ficção científica:

Sci-Fi2-300x235 Star Wars é ficção científica - Parte I - Definindo "o que é ficção científica"O livro Ficção Científica: A Literatura das Idéias (Science Fiction: The Literature of Ideas – 2003), de Marg Gilks, Paula Fleming, e Moira Allen, define ficção científica assim:

“[…] um gênero que lida principalmente com o impacto da ciência, tanto verdadeira como imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos […] explora as potenciais consequências de inovações científicas […]”.

↑ Análise: A ciência tem impacto no filme? Sim: sem as naves, não se conseguiria visitar os planetas necessários… sem os saltos no hiperespaço, o tempo das viagens seria impraticável. Sem a Estrela da Morte, o mote principal do Episódio IV se perderia…

Para o website Conceito.De, sci-fi é:

“[…] um gênero cujos conteúdos se baseiam em supostos feitos científicos ou técnicos que poderiam acontecer no futuro […]”.

↑ Copiando de outra análise acima: Tecnologia futurista que propicia naves espaciais e saltos no hiperespaço, robôs, armas de destruição planetária e uma distopia militar…

Wikipedia define a ficção científica conforme uma análise histórica do que foi publicado ou exibido dentro do gênero, desde que ele surgiu, como se o conceito de sci-fi fosse o resultado das obras que se consideram parte dela, e não o contrário:

“[…] Ficção científica é um gênero literário desenvolvido no século XIX, que lida principalmente com o impacto da ciência, tanto verdadeira como imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos. A ação pode girar em torno de um grande leque de possibilidades como: viagem espacial, viagem no tempo, mais rápido que a luz, universos paralelos e vida extraterrestre […] pode consistir numa cuidadosa e bem informada extrapolação sobre fatos e princípios científicos, ou abranger áreas profundamente rebuscadas, que contrariam definitivamente esses fatos e princípios“.

↑ Análise: Conforme já abordamos, o impacto da ciência e da tecnologia dá o tom em Star Wars. E dois dos leques citados na definição são justamente os mais presentes na saga (viagens espaciais e vida extraterrestre). Também se enquadra no quesito “extrapolação de fatos e princípios científicos“.

d) Resumo da definição de ficção científica:

sci-fi-genre-map-300x205 Star Wars é ficção científica - Parte I - Definindo "o que é ficção científica"Podemos concluir que a definição deste gênero é a de que se trata de uma categoria na qual as histórias (sejam literárias ou cinematográficas), exploram cenários, situações, equipamentos ou simplesmente idéias que extrapolam a realidade científica atual, considerando possibilidades técnicas ou fantasiosas além da realidade na qual vivemos e normalmente mostrando inovações que entendemos só serem possíveis no futuro ou cujas explicações para sua aceitação são suficientes para nos fazerem acreditar nessas inovações, sendo elas possíveis ou não (pelo menos atualmente) de se concretizarem.

↑ Sem a amarra emocional do “desejo de classificar Star Wars como fantasia”, é possível ver que a saga se enquadra em quase tudo o que se define como ficção científica, ainda que não plenamente em todos os casos (e isso não é problema algum, considerando o tópico abaixo, que trata dos subgêneros e de como cada um tem alguns – mas não todos – dos elementos sci-fi das definições e dos conceitos mostrados).

e) Os subgêneros da ficção científica:

spec-fic-and-subgenres-300x225 Star Wars é ficção científica - Parte I - Definindo "o que é ficção científica"O sci-fi tem diversos subgêneros (clique na imagem ao lado e veja alguns deles), e sempre surgem novos, dada sua elasticidade e abrangência. O livro 1984 (Nineteen Eighty-Four – 1948), de George Orwell, por exemplo, é considerado uma ficção distópica.

Já o conto Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Electric Sheep? – 1968) de Phillip K. Dick – e a adaptação dele para o cinema na forma de Blade Runner – O Caçador de Andróides (Blade Runner – 1982) de Ridley Scott – são distopias cyberpunk, um subgênero da ficção distópica.

Inclusive, a própria ficção científica pode ser considerada um subgênero da ficção especulativa.

Ronize Aline, escritora, crítica e coach literária, listou em um artigo os principais subgêneros mais populares do sci-fi, de uma forma bastante didática. Dentre os vários, podemos citar o apocalíptico e o pós-apocalíptico, a distopia, a ficção robótica, a comédia, a viagem no tempo, a ficção hard e a soft, e – ora veja só – a ópera espacial.

E o que seria a tal ópera espacial? Segundo Caroline Faria, do website InfoEscola (leia aqui), trata-se de:

“[…] um gênero de ficção mais novelesco […] durante um tempo, a space opera foi chamada de “super ficção”. Nela as histórias, geralmente, envolvem grandes corporações que abrangem extensões do universo (como o “Império Galáctico” de Star Wars ou a “Fundação” de Isaac Asimov), vemos máquinas e seres ciclópicos, guerras estelares e planetas sendo destruídos por forças incríveis e grandes manipulações de tecnologia. […]”.

Para este artigo, essa definição de space opera é importante, pois George Lucas, criador de Star Wars, definiu sua obra como uma space opera, ou seja, enquadrou-a em um subgênero da ficção científica, desde seu surgimento.

Aqui nem precisamos da análise específica: Star Wars atende todos os requisitos de uma ópera espacial (evidentemente).

f) A definição pessoal de ficção científica:

scifi-word-cloud-300x127 Star Wars é ficção científica - Parte I - Definindo "o que é ficção científica"A despeito de haver uma gama de definições sobre o gênero sci-fi e seus subgêneros, conforme vimos, existe uma certa ‘liberdade conceitual’ que ronda a ficção científica e permite que cada um adicione às definições sacramentadas, suas próprias conceituações de ficção científica. Assim, para uns, sci-fi é “um gênero que trata de tecnologia mais avançada do que a atual” enquanto que para outros é “um gênero que ambienta suas narrativas em um cenário tecnicamente ou fantasticamente diferente do nosso“, e por aí vai.

Mas o importante disso tudo é mostrar como a definição subjetiva de cada um pode acrescentar ou tirar elementos conceituais do gênero até um certo ponto. Não há como alguém, por exemplo dizer que para ele um filme ou um livro “só é ficção científica se for assim“, se os conceitos históricos do gênero, e comumente aceitos, dizem o contrário.

NewSpaceOpera-197x300 Star Wars é ficção científica - Parte I - Definindo "o que é ficção científica"Por exemplo, é complicado aceitar que alguém não considere Primer (Primer – 2004 – EUA), de Shane Carruth, um filme de ficção científica, por afirmar que não é explicado, na obra, como funciona o equipamento utilizado, ou pelo fato de que as viagens no tempo são impossíveis cientificamente, segundo dizem os físicos, ou por não haver nenhuma exibição visual de nada tecnologicamente avançado ou futurista. Primer é um filme de ficção científica por conta de sua temática de viagem no tempo, ainda que não haja exibição visual de nada muito tecnológico na obra, e tudo gire em torno mais de conceitos, idéias e situações inerentes ao sci-fi, do que de cenários cientificamente avançados, épocas futuristas ou planetas distantes.

Se isso não for respeitado, alguns podem não aceitar que Frankenstein de Mary Shelley seja ficção científica, apenas porque não se explica o funcionamento da máquina que “deu vida” à criatura.

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Veja aqui todos os capítulos do artigo:

Parte I – Definindo o “que é ficção científica” (você está lendo esse capítulo)

Parte II – Analisando a saga de forma criteriosa

Parte III – Desmistificando argumentos contrários

Parte IV – Conclusão 

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Avaliação
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Ralph Luiz Solera

Escritor e quadrinhista, pai de uma linda padawan, aprecia tanto Marvel quanto DC, tanto Star Wars quanto Star Trek, tanto o Coyote quanto o Papaléguas. Tem fé na escrita, pois a considera a maior invenção do Homem... depois do hot roll e do Van Halen, claro.

8 comments

  • Pérola:

    o artigo como um todo é fantástico e não deixa dúvidas sobre a conclusão, mas essa parte em especial destrói aquelas teorias pessoais de que “ah, mas ficção científica é isso, isso e aquilo”… parabéns!

  • Adriana M:

    Só esse capitulo do artigo ja desmente toda teoria contrária. Parabens! Excelente trabalho!

  • Wagão:

    Ótimo contra-ponto… aos que ficam postando textão no Face ou até mesmo publicando artigos como o otário lá do Jovem Nerd que se acha (e é um b#sta), aqui não tem essa de “eu acho que…” ou “pra mim FC é…”… aqui tem citação com fonte e argumentação. Palmas pra esse site!

  • Inacio Brandao Souza:

    se SW é “ha muito tempo atras” então não é futuro… então a tecnologia nao eh futuristica e cai por terra esse argumento

    • João Batista Dutra Camargo:

      o mesmo que comentaram no Facebook… “Há muito tempo atrás…” a Star Wars Wikia explica, não é um paralelo com o tempo do nosso universo… é um futuro tb, ainda que passado preteritamente na narrativa do Lucas.

    • Lavinia Padilha:

      É ficção científica, o artigo prova… e todos os argumentos contrarios estão respondidos no artigo, ta tudo bem amarrado… mas 1º) Não vejo pq isso é importante, SW é bom independente de que genero… e 2º) Duna e Fundação são space opera tb e ninguem contesta que sejam Sci-Fi mesmo com a fantasia, as alegorias medievais e tudo o mais… é querer pegar no pé de SW mesmo… é o passado da realidade SW. Isso não é opinião minha ou sua: OFICIALMENTE (SW Wikia) é aceito que SW não se passa no universo da Terra, o “Há muito tempo atrás…” deles não é tempo atrás do nosso tempo.

    • Sandra Ferrari:

      É estabelecido tanto por GL qt pela Disney que o “Muito tempo atrás” não é em relação à nossa linha temporal… mas mesmo que fosse, gente… fala sério… é tecnologia futurista

    • Rodolfo:

      nadaver … se fosse o mesmo universo da Terra se trataria de uma localização do ponto de vista do narrador da SAGA e não da Terra… Ex: a Terra evoluiria muito e teria a tecnologia… ai depois de milhares de anos ocorreria o mostrado na saga… ai o narrador se refere aos eventos como no passado, entendeu? mas não é o mesmo universo da nossa Terra…

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