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Resenha do primeiro disco da minha vida: Mortal Kombat Soundtrack

Há aproximadamente 20 anos, estreava Mortal Kombat nos cinemas brasileiros, um filme que marcaria a infância de vários pequenos gafanhotos pelo país. Junto com a película veio a sua trilha sonora e escutá-la novamente hoje pode funcionar como uma viagem no tempo diretamente aos anos 90.

Por mais que, duas décadas depois, possa constatar que o filme não seja lá essas coisas…. o seu lançamento ocorreu em uma época de ouro dos games, despertando a fascinação e o medo de tantos pequenos por aqui. A própria indústria de Hollywood estava colhendo desta fascinação, engatando adaptações para o cinema em sequência, péssimas em sua grande maioria. Mas pra mim, com meus fantásticos 7 anos de idade, tudo era festa! Mais do que isso, a admiração pelo filme Mortal Kombat era tanta que me levaria a comprar o primeiro CD da minha vida: a sua trilha sonora oficial (e isso me mudaria para sempre).

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Sempre fui bastante envolvido com música durante toda a minha vida. Daqueles curiosos que passavam longas horas da madrugada na conexão discada do iG descobrindo bandas novas no Morpheus, Kazaa e mIRC. Anos depois, acabaria super impressionado por trilhas sonoras como de Matrix e seguiria por caminhos não muito usuais. E a culpa, certamente, é dessa maldita trilha sonora.

Por mais que eu estivesse super empolgado com o filme e com o universo de Mortal Kombat, que super bombava na época, realmente eu não consigo lembrar o que se passava na minha cabeça para juntar todas as suadas moedinhas e trocados barganhados para comprar esse disco. Certamente não deve ter sido barato e eu não tinha a menor ideia do que teria ali dentro. Eu já tinha um razoável contato com música, nesse período dos anos 90 era comum locadoras de CDs, da mesma forma que havia de filmes VHS e jogos de videogame. Ali você podia alugar aquele CD do Cavaleiros do Zodíaco no sábado, pegar uma fita K7 do Rick Astley dos seus pais e gravar por cima dela o “Pégasus, ajuda o teu cavaleiro”. Assim foi com várias atrações da Manchete, com o disco dos Power Rangers e dos Mamonas Assassinas.

O album começa com uma frase enigmática “and now A Taste of Things To Come e uma frenética e ritmada batida de taikos e outras percussões marciais orientais. Não posso lembrar ao certo o que senti nesse momento, não lembro, mas eu devo ter ficado arrepiado…. depois daqueles pouco mais de 40 segundos de introdução, já era certo que eu me tornaria o Scorpion. A primeira, bem como as duas últimas faixas do album são assinadas por George S. Clinton, o compositor da trilha da película.

Mas logo em seguida vem a track Goodbye da, até hoje pouca conhecida por aqui Gravity Kills, e a verdade vem a tona: o disco é super eletrônico! Eu nem sabia direito que tipo de música era aquela, na minha cabeça era tipo um Eurodance, mas cheio de guitarras. Deixando a percepção do pequeno Gael de lado, a trilha sonora oficial de Mortal Kombat parece bater forte na tecla do industrial rock, esse crossover bem aberto a interpretações entre o rock e a rigidez métrica do industrial, sempre aberto a remixes e versões – coisas até então praticamente exclusivas das bandas de post punk e do mundo EDM.

Tal percepção ganha força com a terceira música do album, um remix da famosa música Juke-Joint Jezebel do KMFDM. Uma música fantástica que certamente fez parte dos anos 90 de muitas pessoas pelo mundo. O mais engraçado disso tudo, é que mesmo sem saber direito o que estava acontecendo, a banda apareceria em outras importantes trilhas sonoras dessa década, se tornando uma das minhas favoritas poucos anos depois.

A quarta faixa vem para firmar a presença eletrônica no album, um remix de Unlearn de Psykosonik. De progressão lenta e progressiva, típica de músicas de pistas eletrônicas, pouco empolga aos que buscam a ambientação do filme ou seguir na proposta das duas músicas anteriores. Certamente, o ponto mais fraco do album, totalmente perdido no meio do todo.

mk02 Resenha do primeiro disco da minha vida: Mortal Kombat SoundtrackPor sua vez, a quinta faixa se destaca por ser a primeira a apresentar uma variação do tema do filme, ou algo parecido com isso. Assinada por Traci Lords e Juno Reactor, é uma música eletrônica que empolga, remetendo diretamente às lembranças do cinema. É interessante notar como a trilha sonora produzida por Lawrence Chan e Steve Lee tem interesse em fixar bem o fantástico tema de Mortal Kombat em nossas mentes, se repetindo em diferentes versões nas tracks 7 de Utah Saints e 15 de The Imortals. Justamente essa última, o tema clássico e absoluto do filme, aquele que você escuta e imediatamente se teletransporta para um dos duelos da película.

É depois da lenta, e contemplativa, faixa 8 de Orbital que o album se destaca. Com uma sequência de faixas que envolve: GZR (projeto mais pop de Burton C. Bell, vocalista do Fear Factory) e a música Zero Signal do aclamado album Demanufacture da própria banda de industrial metal Fear Factory. Passando pela boa e relaxante faixa 10, Burn de Sister Machine Gun, outras famosas bandas do metal ganham espaço na trilha sonora, em uma sequência que envolve um ótimo remix de Blood & Fire de Type O’Negative,  a intensa música da pouco conhecida banda de industrial metal Bile e, finalmente, o sacramento definitivo com Twist The Knife do Napalm Death!

Tenho que aproveitar esse momento para dividir com vocês que o pequeno Gaelzito não estava pronto para o Napalm Death naquela época. Escutava a faixa 13 de uma forma quase mística e temerosa, era como se eu estivesse escutando o próprio Goro cantando uma música de guerra para mim, abrindo as portas do inferno para algum demônio ancestral ser entoado. Rolava uma mistura de admiração, curiosidade e medo. E certamente isso me contaminaria da forma certa para que, anos depois, acabasse adorando ir em um show de grindcore!

A faixa 14, What U See/We All Bleed Red  da também pouco conhecida Mutha’s Day Out, merece um destaque especial: primeiramente, porque é uma típica amostra dos anos 90, com a explosão do funk metal que levaria bandas como Faith No More e Red Hot Chili Peppers ao sucesso absoluto; o segundo motivo é porque, caramba, como essa música me deixava empolgado quando criança! Adorava! Testem com seus filhos e sobrinhos, capaz de até saírem sacudindo o cabelo pela sala!

mortal-kombat-liu-kang-sub-zero Resenha do primeiro disco da minha vida: Mortal Kombat Soundtrack

Depois dessa breve passagem por todas as faixas desse album tão importante para mim, impossível não fazer algumas considerações. Chama a atenção o gosto dos produtores pela fusão entre rock, metal e eletronica, o que ganharia ainda mais força ao longo dos anos 90 e 2000 em trilhas sonoras como Matrix, Resident Evil, Lost Highway, Blade e, claro, Mortal Kombat – A Aniquilação. Esse eletrônico em fusão contínua com o rock e mesmo o industrial metal influenciaria um grande número de jovens dessa época, sendo requisitado pelos produtores por seus ares futuristas e sombrios que o final do milênio tanto carregava. Escutar um album como esse é uma viagem sensorial completa aos anos 90.

É interessante notar como determinadas obras conseguem influenciar direta e indiretamente o nosso futuro. Jamais imaginaria que aquele CD comprado em 1996 poderia acabar influenciando meu gosto musical décadas depois. Mesmo sem tomar nota disso, o contato que ali tinha com bandas como KMFDM, Fear Factory, Napalm Death, Type O’Negative e com um estilo em especial, o industrial metal, acabaria definindo todo o meu gosto musical predominante na década seguinte, retornando a praticamente todos esses nomes.

E assim, fica a moral da história: cuidado com o que escuta e assiste sem compromisso hoje, pode fazer sua cabeça amanhã!

 

Imperdível:

15. The Immortals – Mortal Kombat (Techno-Syndrome 7″ Mix)

Melhores faixas:

3. KMFDM – Juke-Joint Jezebel (Giorgio Moroder Metropolis Mix)
9. Fear Factory – Zero Signal
11. Type O Negative – Blood & Fire (Out Of The Ashes Mix)
13. Napalm Death – Twist The Knife (Slowly)

Tracklist completa:

1. George S.Clinton – A Taste Of Things To Come
2. Gravity Kills – Goodbye (Demo)
3. KMFDM – Juke-Joint Jezebel (Giorgio Moroder Metropolis Mix)
4. Psykosonik – Unlearn (Josh Wink’s Live Mix)
5. Traci Lords – Control (Juno Reactor Instrumental)
6. Orbital – Halcyon + On + On
7. Utah Saints – Utah Saints Take 0n The Theme From Mortal Kombat
8. GZR – The Invisible
9. Fear Factory – Zero Signal
10. Sister Machine Gun – Burn
11. Type O Negative – Blood & Fire (Out Of The Ashes Mix)
12. Bile – I Reject
13. Napalm Death – Twist The Knife (Slowly)
14. Mutha’s Day Out – What U See/We All Bleed Red
15. The Immortals – Mortal Kombat (Techno-Syndrome 7″ Mix)
16. George S. Clinton (ft. Buckethead) – Goro Vs. Art
17. George S. Clinton – Demon Warriors/Final Kombat

Avaliação
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AvatarGael-150x150 Resenha do primeiro disco da minha vida: Mortal Kombat Soundtrack
Vivendo entre o utópico e o distópico, o real e o imaginário, sempre encontra paralelos entre o sci-fi e o cotidiano. Cientista, redator e artista por acidente, acredita que o cyberpunk já chegou.

7 comments

  • Luciana:

    O meu CD tem algumas músicas diferentes.

  • Aaron Luercio:

    Obrigado por me fazer viajar de volta aos anos 90 com esse texto.

    • Gael Mota
      Gael Mota:

      \o/

  • Marcelo Guaia:

    me senti representado por esse post, nao que eu tenha comprado o CD tb ou tenha sentido as mesmas coisas, mas eu tb tinha a mesma idade e me lembro vivamente de ter ficado enlouquecido ao ouvir o CD na cada do meu primo Christian, agente ouvia umas 5 vezes repetidas ate a mae dele vir xingar a gente que tava ficando louca com aquilo hahahaha bons tempos, esse post me trouxe boas memorias de volta

    • Gael Mota
      Gael Mota:

      Estou tendo uma boa surpresa com o texto, muitas pessoas parecem ter compartilhado sentimentos semelhantes com essa trilha…. boas lembranças!

  • ycekyll:

    Essa Trilha, na minha opinião pessoal foi um lixo… mas não fique ofendido por favor.
    Acontece que foi uma tremenda decepção em uma época onde eu era muito mais jovem.

    O principal problema é que ela foi radicalmente diferente da própria trilha do jogo… as musicas de abertura, da escolha dos personagens, etc. tinham sempre um ar mistifico e épico”. totalmente coerente com o visual do jogo. Era algo coerente e imponente (e muitos outros “entes”).

    Então aparece o filme e a trila com toda essa “tecneira”, rs. Eu e meus amigos simplesmente não entendíamos de onde tiraram aquilo (do jogo que nào foi, pensávamos). Na época lembro que nos sentimos incompreendidos, ofendidos e ultrajados, rs.

    Mais tarde eu entendi, juntamente com tantos outros exemplos que vemos até hoje. são questões “mercadológicas” que basicamente significa querer agradar a maioria do povo, não exatamente o publico especifico que curte a obra que deu origem ao “novo produto”.

    Apesar dessa questão continuar presente, hoje ela não me incomoda tanto assim.
    Mesmo porque hoje com a conectividade mundial, vc pode encontrar direto na fonte as informações antes delas serem usadas de forma populista.

    Acho que hoje achamos graça da nossa inocência infantil.
    Bons tempos do videogame Arcade!

    • Gael Mota
      Gael Mota:

      Realmente, essa trilha com artistas soa bastante diferente do clima dos jogos. Acho que essas “tecneiras com riff de guitarra” como escolha para o album tem muito haver com o que era cool nesse tipo de filme nesse período, só que diferente de Blade, o clima não tem tanto haver com MK. Por outro lado, vira um registro datado, bem típico dos 90s e isso é legal como efeito histórico, neh?

      Eu era pequeno e simplesmente nem sabia direito o que estava escutando ahahhaha

      Por sua vez, as músicas compostas para o filme, do George S. Clinton, tem bem mais haver com a proposta Enter The Dragon sombrio que a película tenta passar… não acho tão discrepante dos jogos, mesmo que super orquestradas (até demais).

      Outra coisa que marca bem a época, é esses lançamentos de trilhas sonoras oficiais com músicas que nem chegam a tocar no filme, nem nos créditos, nem nos trailers. Uma jogada de mercado que rolava muito nos 90s e 2000s. Hoje com a queda das vendas de CDs, isso tem deixado de ser uma tendência.

      Foi um bom período, cheio de adaptações de games pro cinema, corridas sábado de manhã para alugar cartuchos e revistas com detonados. Por mais que, a maior parte das produções não seja boa, na época soava fantástico.

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