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CINEMACríticasCrítica: Jackie
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Crítica: Jackie

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Direção: Pablo Larraín

Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, Richard E. Grant, Beth Grant, John Carroll Lynch e John Hurt

Mesmo não sendo uma obra que não soe como definitiva e completa, biograficamente falando, este Jackie é suficientemente capaz de trazer uma introspecção sobre uma personagem histórica que raramente temos uma ideia única de suas intenções e maneira de agir. Ademais, é elogiável que a direção de Pablo Larraín foque exclusivamente nos dramas e conflitos da protagonista sem jamais torná-la uma personagem desequilibrada ou fútil como facilmente poderia ocorrer por se tratar de uma personalidade de grande influência na sociedade e que jamais saiu dos holofotes (principalmente depois de seu casamento com o magnata Aristóteles Onassis).

O longa tem início quando Jackie Kennedy (Portman) concede uma entrevista ao repórter interpretado por Billy Crudup sobre os detalhes da tragédia que vitimou o então presidente americano em 1963. O diretor Pablo Larraín intercala de maneira simples as cenas da entrevista com a câmera quase sempre parada e alternando plano e contra plano e close, para quando voltarmos aos dias anteriores ao assassinato em si, Jackie surja de perfil – indicando que não ainda não conhecemos a história e aquela pessoa retratada. Claro, devido à tragédia, ninguém pode exigir uma postura altiva e lúcida, assim os momentos de aparente descontrole são mais que identificáveis e bem explorados. Para isso é fundamental a trilha de Mica Levi (do ótimo Sob a Pele) enfatizando o estado de perturbação e desespero de Jackie em vários momentos e sendo um dos grandes responsáveis para dimensionar o drama da personagem, como podemos comprovar no momento em que, após o assassinato de Kennedy, ao mesmo tempo em que Lyndon Johnson assume a presidência ainda dentro do avião, Jackie balbucia conversas aleatórias sobre procedimentos do funeral do marido tendo a trilha ao fundo.

Assim vamos conhecendo um pouco dos detalhes sórdidos banhados de sangue de Jackie Kennedy (algo que o filme é felizmente econômico em brincar com nossos desejos mórbidos ao mostrar o atentado em si), mas principalmente a desconstrução e construção de uma mulher que foi tida com uma das mais influentes primeiras damas americanas, mas como também a mãe e esposa e que tem sua vida transformada em segundos. Podemos notar também como ela lida com o fato de ter de enfrentar o público – algo que ela abomina, e até mesmo enfrentar um sentimentos de expulsão quando a  nova primeira dama muda a decoração planejada anteriormente pela própria Jacqueline Kennedy. Assim, o roteiro de Noah Oppenheim nos mostra de maneira correta a insegurança de Jackie até o momento que deve assumir as rédeas do funeral do marido em meio à burocracia e política internacional com certa dose de lirismo por criar uma alegoria de que os Kennedy viviam numa espécie de reino de Camelot.

A direção também tenta personificar a dor de Jackie em vários momentos sempre apostando em certa curiosidade do público. Qual a reação dela ao chegar em casa depois do assassinato? Como não ficarmos indiferentes a esta personagem que se tornou um ícone, cujo marido foi morto em frentes às câmeras? Isso não levando em conta o fato dele ser um dos mais populares presidentes americanos de todos os tempos, mesmo com apenas dois anos no cargo. Não estamos falando de uma esposa retirando uma maquiagem depois de retornar de uma festa com o marido, mas sim o fato de ter de limpar o sangue da maneira mais dolorida e solitária possível. Assim a narrativa usa constantes zoons e planos mais abertos para representar tal estado e principalmente para passar a sensação de isolamento e urgência dentro dos corredores e grandes salões da Casa Branca.jackie_meio Crítica: Jackie

O design de produção é correto e usa cores fortes dos figurinos da protagonista, onde a direção aposta em imagens de época originais intercaladas com a reconstituição dos fatos de maneira fluida, o que acaba gerando algumas interessantes cenas que ajudam ainda mais na construção da protagonista, como no momento em que Jackie encosta o rosto no vidro do carro ao mesmo tempo em que surge o reflexo de milhares de pessoas, criando a metáfora para o fato de que a partir daquele momento a imagem dela jamais conseguiria passar imune ao grande público (algo que naquele momento ela deixa claro não se sentir confortável, abrindo a discussão dela jamais demonstrar realmente vontade de fugir deste estereótipo).

Para conhecer esta mulher é fundamental que Natalie Portman siga cada introspecção de Jackie com uma voz delicada, comedida e na maioria das vezes passando pela falta de jeito em frentes às câmeras, como na cena em que apresenta a Casa Branca para a imprensa. A atriz é competente ao levar sua interpretação ao limite entre a necessidade de homenagear a persona sem cair numa caricatura frágil. Mesmo soando quase como um monólogo, o elenco de apoio é suficientemente capaz de dar a base necessária para os conflitos de Jackie. Peter Sarsgaard é um ator sempre confiável que não compromete ao transformar seu Bob Kennedy num homem capaz de servir como escudo e protetor da cunhada e sobrinhos. Um homem, que assim como Jackie, vê no assassinato do irmão não somente a perda em si, mas o legado da família se corroendo com as imagens de Dallas, chegando quase a certo poder de negação dos acontecimentos mesmo que indiretamente, como o fato de emitir uma pequena ordem ao então já empossado Lyndon Johnson. Assim como a presença de John Hurt num de seus últimos papéis, com o padre representando o conflito religioso de Jackie e a necessidade de convencê-la dos “planos de Deus” na tragédia.

Se mantendo determinada a fechar seu ciclo familiar, Jackie aprendeu o quão importante a força de sua imagem era capaz de trazer. Portanto, e ratificando, mesmo que não possamos criar uma imagem definitiva, jamais a teremos como desinteressante.

Cotação 3/5

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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo crescido com as produções dos anos 80. Descobriu ainda jovem certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini , Antonioni , Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada de hoje.
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