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CINEMACríticasCrítica: Silêncio
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Crítica: Silêncio

Silencio_cartaz Crítica: SilêncioSilêncio (Silence)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Yôsuke Kubozuka, Yoshi Oida, Shinya Tsukamoto e Nana Komatsu

O uso do silêncio sempre esteve presente nas obras de Scorsese e tem um papel fundamental na filmografia do diretor para criar, de maneiras variadas, o conflito de um personagem, como por exemplo, a luta entre Jake La Motta e Sugar Ray em O Touro Indomável ou até mesmo a crucificação em A Última Tentação de Cristo. Entretanto, estas variações neste novo trabalho são vistas obviamente como uma ausência de uma “resposta divina” para um homem que jamais abandonou sua fé – tornando este Silêncio o capítulo final da trindade ecumênica que começou com o próprio A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997).

Abordando os anos 1633 a 1682, Silêncio é baseado na novela homônima de Shusako Endu em que os padres Jesuítas Rodrigues (Garfield) e Francisco (Driver) – apesar de serem portugueses em nenhum momento há diálogos na nossa língua – partem para o Japão em busca do paradeiro do Padre Ferreira (Neeson) numa época em que o cristianismo não é aceito no país nipônico e seus seguidores são perseguidos e obrigados pelo inquisidor Inoue a renegarem suas doutrinas (num ótimo trabalho de Issey Ogata que soa por momento quase caricato, mas sem que duvidemos da sua capacidade de gestão).

O protagonista e seus conflitos comovem pelas suas provações e metáforas que sempre permeiam sua existência e sincretismo religioso culminando até numa provação de sanidade por ele mesmo se comparar a cristo (mais uma referência A Ultima tentação de Cristo). Tanto Garfield quanto Driver se comprometem e se entregam de maneira completa aos seus papéis – principalmente na questão física cuja magreza do segundo chegas a assustar. E se em Francisco temos um padre por vezes contestador a algumas das decisões arriscadas em nome da fé feita por Rodrigues, neste segundo temos um homem construído pelo egoísmo milenar do cristianismo ao sempre querer “moldar o mundo a visão deles”, cujo arco dramático está ligado ao destino de Ferreira e vê sua fé se transformando e sofrimento dos outros, ao mesmo tempo em que julga suas crenças diante de uma terra desconhecida. Uma terra vista como “pântano” pelos próprios japoneses por ali não criar raízes e que vive sempre em conflitos com os conquistadores estrangeiros e suas imposições comerciais, sociais e principalmente religiosas (até porque o conceito de “Deus” para os orientais é completamente diferente por não assumir um termo absolutista)

Mesmo partindo da visão da dupla de padres e transformando os japoneses em “vilões”, Scorsese é suficientemente capaz de tornar sua obra uma reflexão introspectiva sem necessariamente tornar tudo um ponto de vista religioso apenas. Claro, pontuando dois terços do longa com o arco dramático da saga jesuíta, esta sensação é mais que justificada, contudo, conhecendo a filmografia do diretor e a eterna presença (por vezes  violenta) da culpa católica, entendemos o tom minimalista da obra – mas reafirmo que tal conceito será diferenciado em cada indivíduo. E neste poder de demonstração da fé pura de seus envolvidos ainda sim é possível criar uma identificação (ratificando sempre que tal conceito passa longe da necessidade de se associar com os atos praticados pelo personagem em si , e sim reconhecer suas motivações).

Assim, mesmo não praticante de alguma religião (atenção ao conceito da identificação) é elogiável a narrativa representar a fé dos aldeões pela simplicidade (ou inocência), devoção e da surpresa causada nos europeus pelo contentamento dos convertidos com pequenos objetos e momentos que possam satisfazer a fé deles. Assim como é cuidadosamente interessante a abordagem da direção com relação a como os fiéis japoneses interpretam (às vezes de maneira literal) alguns conceitos não mundanos como o paraíso, como na cena em que um casal, após o batismo do filho, inda se já poderiam ir para o local descrito na bíblia. Ou como o fato de Rodrigues montar uma missa improvisada (com nos primórdios do cristianismo) e pelo tom crítico de satisfazerem seus fiéis com pequenos crucifixos de palha ou até mesmo distribuir as contas do seu terço – soando como o ato dos colonizadores no primeiro contato com os índios remetendo também ao longa A Missão (1986). silencio_meio Crítica: Silêncio

Narrativamente falando, todos os elementos merecem elogios, se a edição de som aproveita os tais “silêncios” para acrescentar a lógica temática desta junção com a cultura japonesa, inserindo batidas de tambores ao fundo, a fotografia de Rodrigo Prieto usa cores quase que lavadas e sem grandes texturas, ora indo quase do cinza para o azul e por vezes abusando de um ambiente esfumaçado – sempre representando o inferno local e o perigo que sempre rondava, personificado na presença dos inquisidores, assim como o uso de vários plongées, que neste contexto, são mais que úteis por apresentar um ponto de vista divino.

Os planos atingem seu auge na cena da crucificação repleta de influências e naturalismo. Sempre com enquadramentos que ressaltam os segundos planos dinâmicos, Scorsese os demonstra usando os elementos da natureza (e devido ao contexto da cena), de um simbolismo único. Pois na cena em questão temos a presença da água no momento da dor, finalizada na terra através do fogo e todos acrescidos pelo vento – narrativa esta que o diretor Akira Kurosawa dominou de maneira incomparável. Ademais é elogiável como o design de produção retrata numa determinada cena uma cela de madeira como se fosse uma série de cruzes aprisionando as vítimas que aguardam suas penitências.

A direção sempre permeia de maneira delicada as referências religiosas em serventia da narrativa, como no uso de constantes planos fechados nos gestos dos personagens oferecendo comida, um símbolo cristão, ou até mesmo metáforas bíblicas como o fato de Kichijiro (Kubozuka) ser visto com um homem de traição (Judas). E brinca também com o formalismo religioso, pois, ciente disso, os japoneses praticam cenas de torturas religiosas ao exigir que os fiéis pisem em símbolos cristãos ou até mesmo cuspam e ofendam as imagens sacras.

Todavia, estruturalmente falando, é visível que em seu segundo ato o filme sofra um pouco em seu ritmo por insistir em resoluções repetidas como o questionamento da fé pelos inquisidores e no terceiro ato, aparentando certa necessidade de apressar o filme (já extenso), insere uma desnecessária e deslocada narração de um personagem que não tem a mínima importância para a estória e uma espécie de confronto ideológico de maneira abrupta, mas somos suficientemente capazes de compreender naquele momento um diretor abrindo mão de qualquer apaziguamento ecumênico ao denunciar como erro, a tentativa constante da igreja de impor sua verdade como inquestionável – até porque a inquisição, perseguição e assassinatos foram ferramentas constantemente usadas durante séculos.

Mesmo ciente de que o Japão jamais poderia aceitar uma doutrina de algo forçado, e assim como de que o cristianismo é cego para reconhecer as qualidades de outras religiões, Rodrigues vive eternamente numa espécie de purgatório religioso. Claro que sua fé jamais deve ser questionada, assim como em todo o filme, e mesmo aceitando certa resignação durante o restante de sua vida, Rodrigues deixa claro, mesmo com toda violência e questionamentos, jamais abandonou sua fé verdadeira. Scorsese igualmente.

Cotação 3/5

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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo crescido com as produções dos anos 80. Descobriu ainda jovem certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini , Antonioni , Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada de hoje.
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