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Crítica: Roda Gigante

Roda Crítica: Roda GiganteRoda Gigante

Direção: Woody Allen

Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, James Belushi, Juno Temple e Jack Gore

Quando escrevi sobre Café Society, comecei o texto exatamente assim: “Analisar uma obra de Woody Allen é uma tarefa intrigante. Filmando praticamente ininterruptamente durante mais de 40 anos, é impossível que os filmes do diretor não sofram com certo desgaste de referências e abordagens“. E assim, a pergunta que fazemos ver este Roda Gigante permanece: seria o novo filme de Allen uma obra que não soasse prosaico? A resposta é sim e não. Ou seja, sim por apresentar os mesmo elementos característicos do diretor (as tragédias gregas, os triângulos amorosos, a aspiração de sonhadores com o sucesso…). E não, por ainda ser capaz de buscar belos aspectos narrativos para emoldurar suas obras, principalmente através da fotografia. Conclusão: escrever sobre um filme de Woody Allen (um diretor de 82 anos) é uma metáfora do mito de Sísifo, ou seja, por mais que o esforço seja feito, acabaremos sempre voltando ao início da montanha para empurrar a pedra morro acima, num ciclo sem fim.

Ginny (Winslet) é a esposa de um operador de carrossel, Humpty (Belushi), que trabalha em um parque na praia de Coney Island. Ao conhecer o jovem salva-vidas – e aspirante a escritor –  Mickey (Timberlake), Ginn usa tal relacionamento como uma fuga da frustração de seu casamento, os problemas com o filho e também sobre o risco que sua enteada Carolina (Temple) traz, por ter fugido do namorado mafioso. Pelo início do parágrafo, nada mais claro que estamos falando de um filme do diretor que durante os últimos 40 anos lança uma obra por ano que possui tais elementos tragicômicos. Entretanto, o humor aqui é pouco efetivo, sendo mais visto pela atmosfera de erros e situações que propriamente uma frase ou diálogo crítico (inclusive a acidez  dirigida à religião, sempre vítima de Allen, aqui parece resumido a um personagem dizendo “Jesus Cristo” num momento de desespero).

Contudo, Woody Allen é diretor que ainda sabe escolher bem as pessoas com que vai entregar seu roteiro e narrativa. Assim, ele repete a parceria com Vittorio Storaro cuja fotografia chama a atenção desde seus segundos iniciais devido aos coloridos das tonalidades definidas do parque localizado na Coney Island da década de 50, com seus balões, letreiros e atmosfera praiana, apoiado também na bela reconstituição de época. Ademais, ao contrário do impecável e belíssimo resultado de Storaro em Café Society (que manteve um padrão visual durante toda a obra com suas cores quentes e evocativas), aqui o diretor apresenta outro belo trabalho, mas, além de manter o calor das palhetas de cores como visto no filme citado, aqui ele transforma suas tonalidades quase num elemento vivo para representar de maneira instantânea os conflitos internos dos personagens.

Assim, quando vemos a luminosidade estampada no rosto de Ginn ao estar na presença de Mickey (inclusive deixando o segundo plano quase no breu) identificamos a paixão que emana daquele encontro e na mudança de comportamento, ao mesmo tempo em que, bastando mencionar o nome do marido, a tonalidade se torna fria e sem vida simbolizando o relacionamento infeliz e sufocante. Inclusive, Storaro junto com Allen transformam o ambiente do parque num reflexo, por momentos, como metáfora irônica do diretor àquele cenário, como o fato da roda gigante – simbolizando as voltas dos relacionamentos – estar localizada em frente à casa de Ginn (assim como o fato de Humpty ser um mecânico do carrossel que igualmente não leva a lugar nenhum), engrandecido ainda mais por lentes angulares ao focar o brinquedo. Ou como podemos ver na cena de um diálogo entre Caroline e Ginn ser predominantemente dominado pela cor vermelha emanando do ambiente externo para dentro do quarto da protagonista.

Roda_MEIO Crítica: Roda Gigante

Mas é através do elenco que Allen mostra toda sua qualidade na direção dos atores, tornando Roda Gigante um ciclo infinito de pessoas comuns diante de suas ambições, desastres e amores. E claro, para isso acontecer não poderia faltar o rapaz sonhador em busca da sua obra prima, como alter ego do diretor. Portanto, Justin Timberlake não é apenas o narrador da história, e por vezes usando o recurso da quebra da quarta parede, mas também o gatilho para as ações pessoais envolvendo a personagem de Winslet. O onipresente James Belushi se destaca por transitar de maneira fluída entre o amável protetor pai de família bonachão até o machista e paternalista violento bem característico de suas origens italianas.

Mas é Winslet, como não poderia deixar de ser, o destaque do longa. Assim como outras atrizes que, ao longo das obras do diretor, ganharam ainda mais reconhecimento, como Penélope Cruz em Vicky Cristina Barcelona e Cate Blanchett em Blue Jasmine que ganharam seus respectivos Oscar com um trabalho de Allen. Assim, Winslet dá corpo e pensamento de maneira quase cênica a uma personagem que sofre os dilemas de chegar aos 40 anos e casada com um homem que não ama. Ao mesmo tempo em que vive na frustração de relacionamentos falidos e sonhos abandonados, e que busca saciar sua sede de amor em uma relação com um jovem, ciente que o relacionamento não poderá ser duradouro. Uma mulher que vive de “Interpretações” em sua vida ao representar papéis (mãe e garçonete) sem qualquer motivação, e abrindo margem para analisarmos o fato do elemento feminino normalmente ser visto como problemática ou louca.

Entretanto, isso não prejudica o desempenho de Winslet que, até as ultimas cenas, mostra uma de suas melhores performances, como podemos ver na sequência em que ela praticamente cede às suas fantasias (delírios) e vai de um ponto a outro da personagem sem cair em qualquer caricatura. Ademais, a direção de arte faz questão de tornar a casa de Ginn um local com poucos luxos, e servindo mais como uma metáfora para uma prisão, um local sufocante como a própria personagem salienta. Ainda mais auxiliado pela câmera da direção que se mantém sempre em movimento atrás dos personagens e inserindo o espectador naquela atmosfera.

Mas claro, o roteiro de Allen passa por problemas. Principalmente por se mostra sempre numa linha de ação que jamais se permite sair da zona de segurança (algo que o diretor deve adorar, lógico). E até mesmo com soluções pouco verossímeis ou abruptas, como o fato de Carolina, mesma procurada pela máfia, tenta manter um vida normal com trabalho e estudos à luz do dia sem qualquer problema. E mesmo trabalhando o poder de interpretação do público com relação ao destino da jovem ou de qualquer outro personagem (algo que sempre sou favorável), Woody Allen parece mais preocupado em apressar qualquer resolução. Podemos ainda citar o fato do filho piromaníaco de Ginn ficar no meio do caminho entre um alívio cômico ou um drama mal aproveitado, como se o diretor usasse o garoto com uma intersecção para o próximo ato sem qualquer função dramática – o que neste caso específico acaba que meio deslocado.

Sem grandes reviravoltas e previsível, mas mantendo o controle narrativo até o fim, Roda Gigante  ainda sim se destaca através de seus elementos humanos. Portanto, isso não significa que soem desinteressantes mediante às ironias e voltas que a vida (normalmente não muito agradáveis) fez com aqueles personagens.

Nota 3/5

Roda_final Crítica: Roda Gigante

Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.
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4 comments

  • Lucinda:

    vc acha que com a revelão que ele abusou da filha aos 8 anos, os filmes dele devem ser banidos?

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Lucinda
      Bem vinda
      No caso devemos salientar que ele foi acusado e não condenado. Inclusive, na época, não ficou provado que ele tenha assediado o enteado. Entretanto, respondendo a sua pergunta, a resposta é não. Temos que tentar sempre separar a arte do artista. Até porque tem diretores que nunca foram acusados de nada, fazem filmes extremamente ofensivos a mulheres, gays etc.. E nem por isso são banidos.

      Obrigado pelo comentário e espero que possa retornar em breve
      Abraços.

  • Marcelo Medeiros:

    Woody Allen vai ser lembrado como um dos maiores cineastas de todos os tempos… fazendo basicamente filmes bons/medianos, com temas quase sempre iguais e histórias quase sempre mais ou menos parecidas.

    • Betinho:

      bem por ai… os filmes desse cara são arroz com feijão, gostosos, a gente não cansa de comer, mas jamais será igual uma picanha no alho ou pra quem é vegano, um sushi de kani. Não me comove, não me toca, não é inesquecivel… é só um filme legal.

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