Maxiverso
Battlestar-Galactica

Galactica e além… Parte 1

Exploraremos em artigos de três partes a franquia da space-opera que deixou saudades, Battlestar Galactica!

Galactica – Astronave de Combate (1978-1979)

Segundo a premissa da série, a raça humana teria surgindo em um planeta mítico conhecido como Kobol, em um passado remoto. Com o desenvolvimento da humanidade, o planeta Kobol não conseguiu mais suportar a população crescente e os humanos já evoluídos tecnologicamente formaram 13 tribos e partiram cada um para um planeta diferente em outros sistemas estelares formando novas colônias humanas. Uma destas tribos nunca mais retornou contato com as outras 12 tribos originais e foi dada como perdida.

A história do seriado começa quando as atuais 12 colônias humanas estão em um guerra de mil anos com uma raça chamada Cylons, robôs guerreiros criados por uma raça alienígena reptiliana que se extinguiu há muito tempo, presumivelmente destruídos por suas próprias criações. Uma conferência de paz entre humanos e cylons foi anunciada para por fim à guerra milenar, mas tudo não passava de uma armadilha. Após um terrível ataque furtivo durante a conferência, a humanidade foi finalmente derrotada pelo Cylons com ajuda de um traidor humano, o Conde Baltar (John Colicos). A única salvação humana foi uma nave de guerra sobrevivente, a battlestar (espaçonave de batalha) chamada Galactica, liderada pelo Comandante Adama (Lorne Greene), que conseguiu reunir uma frota fugitiva de 200 naves em busca de um novo lar. A única chance de sobrevivência, enquanto são perseguidos pelos cylons  (que querem a todo custo destruir o único foco de resistência humana que existe), é descobrir o paradeiro da 13ª tribo humana, que havia se estabelecido em um planeta lendário chamado “Terra”… portanto esta é a busca da sobrevivência de toda raça humana no universo.

Abertura:

Existem aqueles que creem que a vida aqui começou lá em cima, bem distante no universo, com tribos de humanos que podem ter sido os antepassados dos egípcios, ou dos toltecas, ou dos maias, seres que podem ser irmãos do homem e que até agora lutam para sobreviver em algum lugar muito além daqui.” (versão dublada brasileira)

Com uma pomposa trilha sonora de autoria de Stu Philips, baseada em brilhantes e dramáticos acordes de metais e cordas, bastante cativante, remetendo as grandes produções de cinema neste período, a abertura da série marcou época e corações de muitos espectadores que acompanharam Battlestar Galactica.

Produção e Cancelamento:

elenco Galactica e além... Parte 1

A estreia de Guerra nas Estrelas (Star Wars) em 1977, produção da Lucasfilm para os estúdios Fox (que se tornou na época, a maior bilheteria da história do cinema), levou ao surgimento de uma legião de fãs no mundo inteiro e ao estupendo comércio lucrativo de produtos ligados ao filme, o que inaugurou uma nova “era” na cultura pop mundial, resultando em um franquia cinematográfica que já produziu vários filmes, séries de TV, animações e outras variações de mídia. Todo esse sucesso fez com que os grandes e pequenos estúdios dos anos 70 corressem atrás de algo similar no gênero space opera (o mesmo subgênero de ficção científica de Star Wars).

Variações do mesmo tema foram produzidos aos montes, muitas vezes com resultados muito abaixo do esperado. A própria Twenty Century Fox, produziu em 1979, a space opera de terror, Alien – O Oitavo Passageiro (Alien); a Walt Disney Company investiu em uma produção que tentava ser uma espécie de “Capitão Nemo estelar”, na produção Buraco Negro (Black Hole); a Paramount não precisou ir muito longe para criar sua própria saga estelar, pois tinha os direitos do seriado Star Trek e lançou em 1979, Jornada nas Estrelas – O filme (Star Trek: The Motion Picture). Houve também várias outras produções, a maioria filmes B ou inferiores sendo lançados nos anos 70 e 80.

Depois dos longa metragens, foi a vez da TV americana partir para algo ousado em termos de produção espacial. Eles queriam fazer algo que atualizasse os efeitos especiais revolucionários de Star Wars para a televisão. A ousadia seria gastar muito e  fazer algo a nível cinematográfico. Quem se juntou a esta iniciativa foi a Universal Studios, apoiando uma ideia do produtor televisivo Glen A. Larson (1937-2014) que havia sido produtor do seriado de sucesso O Homem de 6 milhões de Dólares. Larson havia imaginado nos anos 60 uma hitória chamada Adam’s Ark, que incorporava elementos do Livro dos Mórmons, como o casamento entre “o tempo e a eternidade” e um planeta chamado Kobol. Larson realmente havia sido membro da  Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Outros temas bíblicos, como o Êxodo também são explorados na série, assim como a existência das 12 tribos de Israel ou as 13 colônias inglesas na América que deu origem aos Estados Unidos.

No entanto, ele foi incapaz de encontrar apoio financeiro para sua série de TV por vários anos. Além da temática espacial e batalhas parecidas com a produção de George Lucas, o seriado Galactica também bebia da fonte do sucesso do livro do escritor suíço Erich von Däniken, Eram os os deuses astronautas?, que falava sobre a influência de civilizações extra-terrestres no desenvolvimento da humanidade ao longo das eras. Os vilões da serie seriam os Cylons, antagonistas robóticos empenhados em destruir toda a humanidade, que devem muito às histórias de Fred Saberhagen, incluindo a raça fictícia de  Builders, cujo “olhos vermelhos deslizantes” se tornaram o elemento de design exclusivo dos vilões.

A ideia original de Glen A. Larson seria criar uma série de telefilmes (um piloto de 3 horas de duração mais dois telefilmes de duas horas), para a rede americana ABC. A Universal Studios apoiou o lançamento de uma versão para o cinema de 2 horas do piloto, Saga of a Star World, exibida inicialmente no Canadá, Estados Unidos, Europa e Austrália antes da transmissão na TV aberta americana. O custo para o estúdio foi de U$ 7 milhões (o piloto de TV mais caro da época) com direção de Richard A. Colla. O filme chegou a ser exibido em alguns cinemas do Brasil por volta de 1980. Este piloto de cinema possui um final diferente da versão do piloto de TV. A ABC decidiu que valeria mais a pena investir em uma temporada completa do seriado com uma hora cada por episódio ao invés dos dois telefilmes originalmente programados. Sinal verde foi dado e em 17 de setembro de 1978, o seriado Battlestar Galactica fazia uma excelente estreia na televisão americana e logo seria exportado para vários países do mundo, inclusive o Brasil (estreando nas tardes de domingo em 1980 na Globo).

O elenco principal tinha o ator veterano Lorne Greene como Comandante Adama, Richard Hatch como Capitão Apollo e Dirk Benedict (que ficaria famoso no seriado Esquadrão Classe A) como Tenente Starbuck, além de um cast de atores escolhidos a dedo como John Colicos como o vilão Conde Baltar, Maren Jensen como Athena, Anne Lockhart como Tenente Sheba, entre outros. O piloto ainda tem a participação especial da atriz Jane Seymour (Em algum lugar do passado) como Serina.

Durante oito meses, a série foi transmitida pela rede ABC, totalizando 24 episódios, sendo o último transmitido em 29 de Abril de 1979. O sucesso do seriado e da exibição do primeiro filme no cinema fez a Universal lançar mais dois filmes para a telona, editando os episódios da série Mission Galactica: The Cylon Attack (1979) e Conquest of the Earth (1981). Apesar do sucesso e legião nova de fãs, tentativa e alavancar a franquia com o lançamento de HQs, livros e brinquedos, as contas não fechavam para a emissora.

Em meados de abril de 1979, executivos da ABC cancelaram o seriado. Um artigo da Associated Press relatou que “a decisão de encerrar a cara Battlestar Galactica não foi surpresa. A série foi transmitida irregularmente nas últimas semanas, atraindo um pouco mais de um quarto da audiência em seu horário de domingo à noite.” O produtor Glen A. Larson afirmou que foi uma tentativa fracassada da ABC de reposicionar seu programa número um Mork & Mindy em um período de tempo mais lucrativo. O cancelamento levou a indignação do espectador e ocorreram protestos fora dos estúdios da ABC, e até contribuiu para o suicídio de Edward Seidel, um menino de 15 anos em Saint Paul, Minnesota, que estava obcecado com o programa, pulando do alto de uma ponte de 60 metros de madrugada. Seus pais pensaram em processar a ABC, mas desistiram.

Ordem dos episódios na exibição original de TV:

“Saga of a Star World” (piloto em 3 partes)

“Lost Planet of the Gods, Part I”

“Lost Planet of the Gods, Part II”

“The Lost Warrior”

“The Long Patrol”

“Gun on Ice Planet Zero, Part I”

“Gun on Ice Planet Zero, Part II”

“The Magnificent Warriors”

“The Young Lords”

“The Living Legend, Part I”

“The Living Legend, Part II”

“Fire in Space”

“War of the Gods, Part I”

“War of the Gods, Part II”

“The Man with Nine Lives”

“Murder on the Rising Star”

“Greetings from Earth”

“Baltar’s Escape”

“Experiment in Terra”

“Take the Celestra”

“The Hand of God”

George Lucas não gostou e processou o programa

Nem todo mundo ficou satisfeito com Battlestar Galactica. O jornal público da antiga URSS, Izvestia fez uma crítica severa a série, acusando a mesma de ser anti-soviética, conforme a nota publicada: “As negociações galácticas entre os humanos e os Cylons realmente se pareciam com as negociações do tratado de misseis SALT EUA /URSS – não em sua forma real, mas na interpretação perversa dos inimigos do tratado da família dos falcões de Washington… Sua inspiração é o bombeamento de histeria militar, anti-soviética, que neste caso é disfarçada no traje moderno de fantasia sócio-científica. Simbolismo anti-soviético vestido com uma túnica transparente de ficção científica.”

Outro que surpreendentemente não gostou foi o famoso escritor de ficção científica, Isaac Asimov: “Star Wars foi divertido e eu gostei. Mas Battlestar Galactica foi Star Wars mais uma vez e eu não pude aproveitar sem amnésia.”

A comparação com Star Wars e as batalhas espaciais de Galactica também não agradaram George Lucas e a Fox que entraram com um processo contra a série. Logo após o lançamento do seriado a Fox processou a Universal Studios alegando plágio, violação de direitos autorais, concorrência desleal, e alegação de que tinham roubado 34 ideias distintas de Star Wars. A Universal prontamente rebateu, alegando que Star Wars havia roubado ideias de seu filme de 1972, Corrida Silenciosa (Silent Running) notavelmente o robô drone, além das ideias vigentes nos seriados de Buck Rogers da década de 1930 (assumidamente fonte de inspiração de Lucas).

Como resultado, as reivindicações de direitos autorais da 20th Century Fox foram inicialmente rejeitadas pelo tribunal de primeira instância em 1980,  mas a Corte de Apelações dos Estados Unidos para o 9° Circuito mandou o caso para julgamento em 1983. Isto acabou sendo resolvido entre as partes… sem julgamento.

O certo é que o responsável pelos efeitos especiais de Battlestar Galactica foi o mestre dos efeitos John Dykstra, que anteriormente havia sido contratado por George Lucas para criar os efeitos especiais inovadores e revolucionários de Star Wars e ajudou a fundar a ILM. Após desavenças com Lucas, Dykstra foi demitido da ILM e fundou sua própria empresa, Apogee, Inc. que foi contratada para criar os efeitos de Galactica (e posteriormente Buck Rogers no Século XXV); Ele também foi nomeado produtor do piloto e chegou a contratar vários ex-empregados da ILM como Ralph McQuarrie, Richard Edlund e Dennis Muren com suas largas experiências no Star Wars original. No processo que da Fox/Lucasfilm contra a Universal, George Lucas alegou que Dykstra usou equipamento (que havia sido desenvolvido e pago a partir do orçamento de Star Wars) em uma produção que era essencialmente um concorrente.

Posteriormente, quando George Lucas e a Fox decidiram produzir a sequência de Star Wars, O Império Contra Ataca (Star Wars – Episode V: The Empire Strikes Back – 1980), vários ex-membros da ILM que estavam na Apogee, Inc foram readmitidos por Lucas, como McQuarrie, Edlund e Muren, mas Dykstra não foi convidado para se juntar a eles. Logo depois Dykstra foi contratado para outro projeto concorrente de Lucas, o primeiro filme para o cinema da saga Star Trek dos estúdios Paramount Pictures, Jornada nas Estrelas – O filme (1979).

Legado continua…

O legado de Galactica não poderia ser melhor. Logo após o cancelamento da série original, protestos em frente do escritório e invasão de cartas de fãs indignados com a rede ABC começaram a chamar a atenção da emissora. Eles não queriam que se repetisse o que aconteceu uma década antes com o cancelamento de Star Trek pela NBC, empresa concorrente, então bolaram um plano para criar uma nova série, que poderia ser entendida como uma continuação direta ao seriado que havia terminado no 24º episódio sem um final definitivo. A solução foi o lançamento alguns meses depois de Galactica 1980, projeto que nunca agradou os fãs e que foi cancelado no décimo episódio, mesmo tendo mais programados. Era o fim da saga da série na TV por muitos anos.

Como sempre acontece em séries com grande legião de fãs, o tempo e as constantes reprises só fazem aumentar o legado da série original. O certo é que houve uma nova batalha por Galactica, que veremos mais futuramente, assim como detalhes da malfadada série Galactica 1980, a tentativa de reviver a série com o projeto do ator Richard Hatch (Apollo) chamado Battlestar Galactica: The Second Coming, as várias tentativas de Glen A. Larson de levar para os cinemas uma nova versão e finalmente o premiado reboot e seus spin-offs produzidos pelo Sci-Fi Channel a partir de 2000.

Aguardem a segunda parte!

Avaliação
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Ricardo Melo

Profissional de TI com mais de 10 anos de vivência em informática. Tem como hobby assistir seriados de TV, ir ao cinema e namorar!!! Fã de rock'n'roll, música eletrônica setentista, ficção-científica e estudos relacionados a astronáutica. Quis ser astronauta, mas moro no Brasil... Os anos 80 foram meu playground!

7 comments

  • Edu Sem Noção:

    nossa que saudade de BG rsrsrs… parabens pelo post, vou aguardar as outras partes!

    • Ricardo Melo
      Ricardo Melo:

      Segunda parte será sobre Galactica 1980 e a tentativa em aberto até hoje de se fazer um filme para o cinema e a terceira parte, sobre a série e derivados novos a partir de 2003.

  • Almada:

    essa série foi muito boa… hj vc assiste e ela está bem abaixo da qualidade que vemos em coisas como Star Trek por exemplo, mas na época era o que tinha de melhor

    • Ricardo Melo
      Ricardo Melo:

      É um dos motivos que muita gente prefere o reboot de 2003, com política, terrorismo e mais sombria.

  • Ricardo Melo
    Ricardo Melo:

    Legal os comentários, que se referem ao reboot dos anos 2000. O artigo é principalmente sobre a série original de 1978. Sobre a nova Galactica, aguarem a terceira parte.
    Abraços.

  • Bolone:

    A empresa que exibia a série expressou apreensão com o vazamento que Tricia Helfer faria o papel central da Número Seis. Na época, Helfer era conhecida principalmente como uma modelo, e tinha praticamente nenhuma experiência em atuação. Mais tarde, os executivos da rede ficaram tão impressionados com sua performance que eles basearam toda a campanha de marketing do show em torno de sua personagem.

    • Lulilmoremer:

      outra curiosidade: Edward James Olmos, o Almirante Adama, tinha uma cláusula em seu contrato que aliens estranhos ou monstros jamais iriam aparecer no programa. Ele queria garantir que a história estaria focada no drama humano.

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