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Crítica: Vingança (Revenge)

vingança_cartaz Crítica: Vingança (Revenge)Vingança

Direção: Coralie Fargeat

Elenco: Matilda Lutz, Kevin Janssens, Guillaume Bouchede e Vicent Colombe

O texto contém Spoiler

Depois de certo momento deste Vingança, filme de estreia da diretora Coralie Fargeat, achei que estava vendo um filme de suspense que foi se transformando em algo completamente absurdo. Não que o filme me deixe mentir, mas ao me dar conta, estava assistindo uma narrativa baseada nos gêneros exploitation e slasher, que nos anos 70 e 80 abusava do apelo ao corpo feminino e grafismo na sua violência que tanto inspirou Quentin Tarantino, mas que aqui assume tons mais crus em sua abordagem; ao mesmo tempo inserindo alegorias sobre a violência contra a mulher e a misoginia em si (algo que falarei mais a frente). Contudo…

Servindo como uma espécie de refilmagem para A Vingança de Jennifer de 1978 (assim como a “franquia” iniciada com Doce Vingança em 2010…), este Vingança ainda pode ser visto como um pesadelo machista de uma revolta contra a violência ao feminino. Mas a pergunta que fica é: se 40 anos atrás a discussão pouco foi feita com relação à misoginia subjugada pelo grafismo e agressão sexual e psicológica a mulher, seria este filme capaz fazê-lo? Principalmente usando uma narrativa e resoluções típicas de filmes B e pondo constantemente o poder de descrença do público em xeque de maneira absurda como todos os filmes deste gênero fazem?

Pois bem, a obra se inicia com Richard (Janssens) e Jen (Lutz) chegando à mansão isolada do primeiro em um deserto árido. Contudo, o rapaz e a amante recebem a inesperada visita de dois amigos do rapaz que, assim como Richard, costumam caçar pela região. A partir deste momento, a presença da moça desperta os instintos violentos dos algozes que farão de tudo para capturá-la depois de ela sobreviver ao um terrível acidente e assim não os denuncie.

Sendo assim, a obra me incomodou um pouco em suas intenções por repetir os mesmos elementos visuais que corroboram para o pensamento machista. Mesmo sendo identificável que a direção tente criar metáforas com o estilo que abusava do sexismo como uma análise/resposta para o contexto atual em que a mulher violentada ainda é vista como responsável pela agressão sofrida por três homens brancos e ricos (tornando-se interessante como exercício cinematográfico e social que somente o cinema pode fazer); assim como uma crítica à indústria de consumo e culto ao corpo perfeito visto num comercial de TV durante uma importante cena. Inclusive, a direção tenta engrandecer a narrativa usando metáforas visuais e alegorias do profano e sagrado representando, por exemplo, na maçã mordida em decomposição e na árvore pegando fogo simbolizando uma redenção (o que nos traz novamente à alegoria mais forte, obviamente, sobre a questão sobre a violência contra as própria mulheres numa época que os movimentos como o #MeToo denunciaram os crimes de assédio na indústria cinematográfica).

Ainda que reconhecendo as mensagens em suas entrelinhas, em minha opinião, acredito que a abordagem que a diretora assumiu foi um pouco arriscada (nada contra, sempre é interessante que um filme corra riscos); mas acabou que diluindo sua proposta principal. Até porque, a narrativa abusa de closes e câmera percorrendo o corpo da atriz , o que pode causar efeito contrário com uma personagem andando seminua pelo deserto e armada até os dentes. É claro e evidente que, ao se assumir como um filme B, o longa permite que se releve o tom gore da história; contudo, ao mesmo tempo tal elemento me permite analisar, neste caso, se tal abordagem foi prejudicial ou não à sua narrativa. Assim, voltando à questão da história  em si: se aceitamos nos filmes slashers a “imortalidade” dos assassinos, como não relativizar aqui o fato de Jen conseguir sobreviver ao seu acidente e deixar Jason e Michael Myers com inveja pela sua capacidade de sobrevivência? (repetindo que ela foi empalada) – tanto, que logo após tal cena, eu escrevi em minhas anotações durante o filme que o mesmo “acabou” ali, por não acreditar em como o roteiro resolveria aquilo sem apostar para algo absurdo ou numa descrença do público para lá de forçada.

Fora que o próprio roteiro desenvolve a protagonista de maneira que ficamos nos perguntando como a garota obteve todo a aquele conhecimento para sobreviver no deserto e fugir de seus carrascos . Uma coisa é você despertar seus instintos selvagens e violentos numa situação extrema, outra coisa é começar de uma hora para outra ter atitudes que não condiz com o personagem, como fazer emboscadas, manusear armas de grosso calibre e preparar armadilhas. Tanto, que em um determinado momento, ao se encontrar ainda ferida depois de horas e horas (ela foi empalada, lembra?) e à base de um alucinógeno poderoso  – inserido através do elemento “pista e recompensa” – , e que fornece instantaneamente conhecimento de medicina de guerra, a jovem faz a cena do personagem de Stallone se tratando na caverna vista em Rambo 3,  em um curativo de farmácia (ela foi empalada, lembra?) – fora que a jovem sai do local podendo exercer futuramente a profissão de tatuadora (somente vendo para crer…).

Mesmo assim, a direção se mostra competente e elegante ao mostrar habilidade em outros elementos narrativos como criar um clima de tensão principalmente em seu clímax permeado de sangue (que deixaria Tarantino mais uma vez orgulhoso); e a edição de som engrandece estes momentos gosmentos, criando – por mais simples que seja – uma lógica sonora, como quando a personagem tem dificuldade de ouvir, e o som do longa se torna abafado, como se estivéssemos na posição da protagonista.  E a fotografia atende a proposta ao usar bem os planos abertos estabelecendo de maneira eficiente o clímax em que o filme se passa ao trabalhar corretamente a palheta com cores quentes – além de, em determinados momentos, os antagonistas se encontrarem através de painéis coloridos, criando um visual atraente.

Enfim, juro que este Vingança parece querer chamar a atenção para uma causa (algo importantíssimo), mas ao apelar para certo grafismo, acaba se enfraquecendo ou, no mínimo, atraindo a atenção para fora de seu centro.

Nota 3/5

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Vingança (Revenge)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

4 comments

  • Acopesp:

    imagino que, vendo o lado otimista da coisa e levando em conta que o diretor e o roteirista sao muito bons e inteligentes, nao pode ser possivel que façam a camera percorrer o corpo da atriz propositalmente para que o espectador homem pense “uau” e ai ao mesmo tempo tenha um insight do tipo “droga, é justamente disso que se trata”, algo como o Violencia Gratuita, qd um dos malditos assassinos é morto por uma das pessoas aterrorizadas na casa, ai o outro pega um controle remoto em um lance metalinguistico e volta a cena, em um recado do diretor: “a violencia ate agora te aterrorizou, mas qd foi contra o bandido vc comemorou? nao senhor, nao valeu”???

    • Jairo Silva:

      Até entendo seu argumento, mas discordo… duvido que tenha sido a intenção e duvido que, se tivesse sido, essa estratégia seja eficiente.

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Jairo
      Bem vindo a discussão.
      Realmente temos uma linha bem tênue aqui sobre a intenção da direção! Eu achei que, mesmo intencional, não tenha sido bem sucedido. O comentário anterior achou que sim e você acho que não! Boa discussão, não?
      Abraço

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Acopesp
      Bem vindo(a)
      Sim, pode ! Inclusive mencionei isso no texto. Todavia, eu não consegui achar que tenha sido tão bem sucedida devido ao seu excesso!
      Mas concordo com você , caso tenha visto por este ponto de vista. Sua opinião mostra o outro lado e é igualmente válida!
      Abraço

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