Maxiverso

Crítica: Missão 115

Direção: Silvio Da-Rin 

Missão 115 é uma daquelas obras que deveriam fazer parte da grade curricular de grande parte do ensino. Assim como O Dia que Durou 21 Anos, Dossiê Jango (também obras obrigatórias), o documentário é mais que relevante para compreendermos o que acontece Brasil de hoje, uma espécie de obra-testamento cujos fatos boa parte da população teima em esquecer em suas posições políticas.

Focando na tentativa de assassinato (o termo correto é este) de centenas pessoas durante um festival de música no Riocentro em 1981, em que uma bomba explodiu no carro dos militares que plantariam a bomba no ginásio (cuja saídas de emergências estavam fechadas), a obra apresenta os detalhes sobre a origem do ato e de como aquilo se tornou uma espécie de “canto do cisne” da ditadura que se encontrava nos seus últimos anos do governo Figueiredo. Portanto, não podemos esquecer que, mesmo assim, a ditadura ainda se manteve quase de maneira oficial dentro do governo, pois José Sarney (nomeado após a morte de Tancredo Neves) era o líder dos militares em Brasília; ou seja, nenhuma decisão era feita sem a consulta deles mesmo com uma aparente redemocratização. Ditadura esta que pretendia com a bomba explodida culpar a esquerda (em conjunto, por exemplo, com uma série de bombas detonadas em bancas e centros comerciais) e conseqüentemente obter uma justificativa junto a população (uma tática bem comum) para se manter no poder, assim como o fato da Lei da Anistia ser mais uma fachada para proteger alguns poucos militares em Brasília (algo como: eu permito que os exilados retornem, mas não quero que mexam comigo).

Recheado de entrevistas com historiadores, advogados, ex-militares, o documentário do diretor Silvio Da-Rin é lúdico (e nem precisava se esforçar) ao criar um cenário de conseqüências históricas de um poder que até hoje se mantém no país. Usando imagens de arquivos e fotos de maneira cronológica, Da-Rin jamais permite que o espectador perca o interesse ou desvie a atenção do assunto principal; e talvez, se há um momento em que a narrativa se torna de algum modo desnecessária, é exatamente quando tenta recriar alguém montando as cartas bombas que seriam entregues a várias pessoas que seriam contra o regime – e não acrescenta muito, neste caso, por sabermos anteriormente o que aconteceu. Não sendo coincidência que o Brasil foi o último país (com um atraso de 30 anos) a “julgar” (até hoje, ninguém foi realmente preso) seus militares pelos crimes ocorridos na ditadura; sendo, portanto, nada mais representativo que a Comissão da Verdade (criada em 2012) fosse inaugurada pela presidenta Dilma (ela sendo uma ex-guerrilheira torturada pelos militares) – e neste ponto, as lágrimas da ex-mandatária, independente de ser contra ou a favor da personagem política, jamais deixam de soar simbólicas e sinceras. Lembrando , por exemplo, que os ex-presidentes Lula, FHC e Collor que não iniciaram anteriormente tal comissão (os motivos variam de cada mandatário para outro, obviamente).

Criando uma ligação de maneira natural para o que veria acontecer com Dilma, o impeachment comprovava que aquela bomba detonada sem querer em 1981 (matando os dois ocupantes) ainda ecoa na nossa sociedade e política, onde, uma casta do poder jamais aceitou sair do comando e farão (e fizeram) de tudo para que seus privilégios sejam mantidos – não sendo a toa, como diz um dos entrevistados, que muitos dos que votaram sim para a retirada da Dilma foram depois condenados por corrupção. Ademais, tal herança ideológica ainda se mantém de maneira perigosa na nossa política, uma vez que, por exemplo, um dos candidatos a presidência exaltou o nome de um dos mais nefastos torturadores durante este mesmo processo de impeachment.

Enfim, Missão 115 é uma obra que precisa ser vista e assimilada por todos (não usaria este termo se fôssemos um povo que reconhece seu passado). Porque, como tão bem disse um dos historiadores que prestam depoimentos, o Brasil desde o fim da ditadura ainda não sabe exatamente para onde vai, estamos em um purgatório, esperando algo, esperando uma direção.

Que não repitamos os mesmo erros! E relembrar o passado (tão presente no dia a dia) é fundamental para não cairmos novamente como nação.

Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.
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