Maxiverso

Crítica: Vice

Diretor: Adam Mckay

Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Alison Pill, Lily Rabe, Tyler Perry, LisaGay Hamilton, Justin Kirk, Matthew Jacobs e Jesse Plemons

Nota 4/5

“À medida que o mundo se torna mais confuso, tendemos a nos concentrar nas coisas que estão bem diante de nós. Ignoramos as forças que realmente mudam e moldam nossas vidas. Com pessoas trabalhando mais e mais horas, por menos”.

“Onde termina a Lei, começa a Tirania”.

O diretor Adam Mckay retoma sua mira novamente – com leves doses fabulescas , mas contundentes – para um sistema destrutivo criado em nome de um ideal (leia-se “dinheiro”), onde este Vice pode até mesmo servir como um prelúdio do importante A Grande Aposta; mas se no filme de 2016 acompanhamos a bolha imobiliária que favoreceu alguns à custa de vidas da maior parte da população, aqui centralizamos tal elemento na figura de Dick Cheney (Bale) que, do nada, foi galgando espaços até alcançar a vice-presidência americana a ponto até mesmo de influenciar as decisões de George W. Bush e liderar as ações durante crises pós 11 de Setembro, ao mesmo tempo em que paralelamente foi beneficiado por tais decisões no ramo de petróleo, devido a contratos com empresas do ramo.

Interessante, portanto, o contraste constantemente materializado na figura de Cheney, como se o filme martelasse na cabeça do público algo como: “Você está vendo este idiota alcoolizado a poucos passos de ser largado pela mulher que o ama? Você está vendo esse cara que acorda no próprio vômito e anda de emprego em emprego que pode lhe custar à vida? Está vendo este homem sem um pingo de estrutura ou empatia? Então, este cara, hoje, decide seu futuro.” Não sendo a toa que das primeiras aparições de Cheney mais novo, seja cortado imediatamente para os atentados de 2001 que mudaram a política americana e mundial. Uma mudança e uma oportunidade de uma personificação da burocracia de alguém que, inteligentemente, reconhecia sua incapacidade e falta de carisma, e assim preferiu agir pelos bastidores; usando um poder que talvez jamais pudesse alcançar na frente dos holofotes. Um serviçal da política que parece ter nascido com uma única missão (poder) e que chegou até mesmo a superar seu mentor Donald Rumsfeld (Carell). Alguém que ao chegar ao alto escalão, usou de todos os artifícios (ou verdadeiros “saltos jurídicos”) para ter poder total como um ditador sul-americano ou um rei, com visto no momento em que Cheney aplica a Teoria do Executivo Unitário dando poder ilimitados ao presidente.

O roteiro do próprio diretor pinta Cheney com uma personalidade que se adapta rapidamente ao seu redor (principalmente no meio político), e assim vamos entendendo como políticos medíocres (para dizer o mínimo) chegam ao poder; portanto, é óbvio, McKay deixa claro sua preferência, e até aí nada demais. E nem vou ficar mensurando, como alguns textos gostam de fazer, dizendo que “independente de sua opinião política…”, como se tentassem justificar as ações ou tivessem medo de assumir o desmando que tais fatos e pessoas como Cheney causam a um país. Ou seja, o diretor tem uma aversão clara aos republicanos – e não é para menos – naquilo que eles representam, até porque quando o democrata Carter deixa o governo americano, por exemplo, nos inícios dos anos 80, o EUA entrou novamente em uma nova onda de conservadorismo, de um país regido por homens brancos e ricos (algo mais atual impossível, quando comparamos ao Brasil) que, baseado em uma espécie de esquecimento coletivo e insatisfação pautada pela mídia, acabou criando a força necessária que o partido precisava para voltar ao poder através de Ronald Reagan.

Assim, é impossível discutirmos tais fatos sem mencionar a imprensa, no caso a Fox, que se tornou um poderoso aliado para difundir e convencer a população que as artimanhas do governo seriam benéficas ao país. Uma espécie de imprensa oficial que atende seus interesses e cria um clima de instabilidade e polarização, mas ainda (por pior que possa aparentar) estão a anos luz da imprensa daqui, que se vende como imparcial – esta sim, mais perigosa.

Não somente isso, mas todas as justificativas que a opinião pública está careca de saber (ou pelo menos deveria, através de uma imprensa que deveria ser imparcial) sobre as farsas que o governo americano usou para atuar no Iraque como a questão das armas químicas que jamais foram encontradas. Portanto, chega a ser vergonhoso que em determinado momento, o discurso de Collin Powell (Perry) se transforma em uma pachorra (reconhecida pelo verdadeiro Powell meses mais tarde) pelo fato do mundo inteiro saber que a desculpa para tal invasão jamais foi questão de segurança. Até porque é fundamental que para tal plano desse certo e contasse com o apoio da população, que se criasse um inimigo único, um indivíduo que concentrasse toda a raiva que rapidamente poderia ser mudada para um país a base da tortura (principalmente se tal local estivesse recheado de petróleo), não sendo a toa que, ao ser perguntado se o EUA estavam em guerra, Cheney prontamente dizia sim, mas se calava ao ser questionado contra quem.

O longa pauta a trama através de um narrador interpretado pelo ótimo Jesse Plemons, sempre se dirigindo ao público de maneira pessoal, de modo que ele se torna o fio condutor da história, apesar de que em certos momentos sua presença não é necessária, até porque o personagem atua na história a partir dos anos 90 durante a Guerra do Golfo, tendo uma importante ligação com Cheney. Com uma edição que valoriza os cortes de maneira brusca (JumpCuts), tornando a passagem de tempo ainda mais coloquial, a direção demonstra não estar muito preocupada em criar uma linearidade na obra; entretanto, isso não significa que o filme torne as sequências em algo aleatório, pelo contrário. Ao seguir quase de maneira cronológica os fatos históricos, Adam Mckay entende que em uma grande quantidade de fatos a ser contada, qualquer tentativa de abraçar uma narrativa tradicional quando se fala de cinebiografias seria algo inútil e até cansativo.

Portanto, isso não significa algum tipo de confusão ou falta de compreensão se a trama é jogada de um época a outra de maneira direta, nem mesmo ao nível do que foi em A Grande Aposta, que mesmo com seus termos técnicos, o espectador claramente entendia o que estava acontecendo e quem eram as peças beneficiadas e prejudicadas naquele jogo. Assim, acompanhamos a trajetória do político desde sua entrada naquele universo até se tornar o vice-presidente americano durante o governo Bush filho, passando por vários governos democratas e principalmente republicanos. Assim, ao passar por estilos característicos da época em que se passam algumas cenas do filme (como na época dos governos de Carter e Ford em que o filme assume um visual mais anos 70), o diretor ainda encontra tempo para criar brincadeiras metalinguísticas bem criativas como visto em uma participação especial de Alfred Molina como um garçom que cita um “cardápio capitalismo selvagem” ou na sequência em que o diretor brinca com o formalismo, caso a história tivesse contornos mais convencionais e com um “final feliz” como a maioria dos filmes que abordassem uma figura como Cheney (visto, por exemplo, em determinado momento como o verdadeiro símbolo do cowboy americano montado a cavalo). Ademais, este humor ácido também é visto de maneira sutil, mas extremamente eficiente quando, por exemplo, empresários têm seus rostos escondidos digitalmente com se não pudessem ser identificados quando se reúnem com Cheney.

Inclusive, o trabalho de maquiagem se torna excelente não por somente querer se preocupar em remeter aquelas figuras conhecidas, mas também por fazer de tal elemento um fio condutor da interpretação do ator e sem chamar a atenção para si somente. Veja, por exemplo, o caso do George W. Bush de Sam Rockwell; é visível que os maneirismos do ator estão lá, mas é nos detalhes de uma maquiagem ao redor dos olhos, o corte de cabelo que fazem a diferença e acaba, como o bom desempenho do ator, tornado algo orgânico. E se Bush é facilmente reconhecido pelo seu jeito típico do texano, Christian Bale assume confortavelmente seu papel sem levantar a voz nenhuma vez sequer; Bale faz um trabalho minimalista, entendendo que o poder e imponência que Cheney passava jamais dependiam de gestos bruscos ou ameaças não veladas, pelo contrário. Inclusive, é interessante que ao reconhecer na figura de George W. Bush alguém ainda mais inexpressivo que ele, Cheney entende que ali pode ser sua grande oportunidade; mesmo que inicialmente rejeita a tarefa de ser o vice na chapa dos republicanos.

Assim, Rachel Adams (que merece um Oscar, mas seria melhor como protagonista) entrega mais uma boa atuação transformando Lynne Cheney na base perfeita para o protagonista, mas sem jamais soar subjugada e condizente ao conservadorismo do marido, principalmente quando decide se candidatar ao senado no lugar no marido usando velhos clichês contra o feminismo. Interessante, inclusive, que ao apresentar este mundo político, é evidente que a representatividade feminina era prática nula na década de 60; assim, durante cerimônia é importante notar que naquele ambiente são ressaltados as fumaças dos charutos com cores frias e com poucas presenças de mulheres. Não sendo a toa que, ao tomar conhecimento da orientação sexual da filha, ela é a primeira a expor sua insatisfação; inclusive, em determinados momentos, o longa apresenta o casal com elementos comicamente sombrios de duas pessoas que durante uma noite chuvosa decidem se devem ou não tomar uma decisão que influenciará milhões de pessoas – e nestas cenas em que adentramos a intimidade do casal escovando os dentes enquanto conversam é a tônica do verdadeiro poder que o filme aborda.

Mas em seus minutos finais (incluindo uma cena mais que atual durante os créditos), Vice realmente assume de vez aquilo que fez durante toda a projeção: denunciar ao público um sistema que privilegia poucos. Cheney mesmo não sendo, por exemplo, o presidente, ele fala como um; e desafiando a sociedade, ele tem a consciência que pessoas como ele não chegaram ao poder sem ajuda de um eleitor ávido por “mudanças”, mas que acabam elegendo justamente a pior opção (o que inevitavelmente nos trazem aos dias atuais com a eleição de Trump em face de Hillary Clinton). E pior, que dentro deste clima de ironia e humor este tipo de contexto e discussão entre os conservadores e liberais (ou esquerda ou direita, trazendo pra o âmbito daqui) acaba gerando uma mensagem pessimista; onde é visível que a maior parte da população (assim como no Brasil) não consegue entender que quanto menos politizada a população for, mais manipulável será nesta criminalização da política – sendo mais triste ainda, como cinéfilo, que o âmbito de interesse para estas pessoas sejam apenas o próximo blockbuster de uma franquia interminável que propriamente um debate primordial como cidadão.

Avaliação
The following two tabs change content below.
RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Vice

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

12 comments

  • Avatar
    Eleninda:

    parabens pela critica relevou os aspectos tenicos e politicos sim e tem que ser assim se o filme é sobre politica

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Elenida
      Bem vinda
      Obrigado pelo elogio
      Realmente como o filme é político a crítica tende ir para este lado! Apesar que muitos acham que isso não é importante rs
      Abraço

  • Avatar
    Natália Soares:

    Achei o filme mediano, mas a performance dos atores está fantástica. Dificilmente Bale não sai dessa sem a estatueta. Dificilmente. E por merecimento.

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Natália
      Bem vinda
      Sem problema que tenha achado o filme mediano. Se puder, faça um exercício listando o porque não gostou tanto!
      E realmente Bale é uns dos favoritos rs
      Abraço

  • Avatar
    Delano:

    Esse filme que quase nada entrega, substancialmente falando, em prol de uma personalidade muito relevante na história recente. Isso não está atrelado com falar bem ou criticar à figura política que sempre foi vista como o titereiro por trás do presidente George W. Bush, mas pelo fato de que o longa que tem Cheney como seu protagonista é um enredo sem conflitos. O único conflito de Vice acontece antes de 10 minutos de projeção, quando sua esposa Lynne Cheney, interpretada por Amy Adams, roda à baiana bem de leve chamando a atenção de seu marido bebum e cobrando dele uma mudança de atitude na vida. E, parou por aí! Daí em diante, apenas suaves solavancos que serão resolvidos, ou com verborragia asséptica, ou na montagem “espertinha”. Lamentável.

    • Avatar
      Bridezilla:

      Filme bem fraco. O pouco tempo para explorar uma quantidade tão grande de eventos na vida de Cheney geram algumas distorções: uma cena de um ataque cardíaco, por exemplo, toma mais tempo de exibição do que o incidente da caça no ano 2006, quando o vice-presidente atirou por engano em uma pessoa. E, ao mesmo tempo que o filme destaca desde sua introdução a postura de Cheney no 11 de setembro, o desenvolvimento deste dia na vida do vice é pouco explorado. Ou seja, se mostra desequilibrado nesse sentido.

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Delano
      Bem vindo
      Acho que tenho que discordar um pouco por dizer que o filme quase nada entrega. Até porque Cheney participou ativamente da politica americana de maneira direta.
      E o conflito não é exatamente uma discussão com a esposa, mas acredito que no 11 setembro houve um conflito ali.
      Mas independente, sua opinião foi super válida mesmo!
      Abraço

  • Avatar
    Certisign:

    É muito fácil classificar a filmografia de McKay como um mero apanhado de piadas de “pinto e peido”, mas com um pouco de atenção podemos observar sua crítica social mesmo dentro da comédia mais absurda. Em Os Outros Caras o diretor faz uma crítica ferrenha ao sistema financeiro estadunidense, mostrando que Wall Street opera no mesmo nível de criminalidade que um esquema de pirâmide à lá Charles Ponzi. Ainda em 2013 dirigiu O Âncora 2: Tudo Por um Furo, outra “comédia ridícula”, na qual ele desfere mais golpes contra a “indústria da notícia” e a mercantilização da informação, navegando pelas fake news. Em A Grande Aposta, McKay provou que é capaz de entregar muito mais do que piadas de gosto duvidoso. Indicado em cinco categorias no Oscar 2016 o filme se camufla com um estilo de “clipe musical” para explicar as minúcias da intrincada estrutura financeira estadunidense que colapsou em 2007. E sobre Vice, o prezado crítico falou muito bem, analisou perfeitamente. Parabens por pegar toda a profundidade da obra.

  • Avatar
    Denis Açai:

    Bom relato historico. Se você esteve boiando durante o governo Bush, aqui terá uma noção das consequências políticas que continuam se relacionando com o presente.

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Denis
      Bem vindo e obrigado por ler nosso texto
      Boa percepção Denis, nada é por acaso!
      Abraço

  • Avatar
    Mimi:

    Parabens pela critica muito boa adorei o filme

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Mimi
      Bem vindo
      Obrigado por ler nosso texto e o elogio.
      Isso fortalece nossa vontade de continuar escrevendo!
      Abraço

leave a reply

Contate-nos

Contate-nos por email ou nos procure nas redes sociais

soleblog.brasil@gmail.com

  • Top 7 personagens icônicos de séries
  • Top 7 Filmes diferentes do convencional
  • Top 7 Maiores Compositores de Trilhas Sonoras do Cinema
  • Top 7 robôs mais importantes da ficção II
Back to Top