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Crítica: Homem-Aranha – Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home)

Direção: Jon Watts

Elenco: Tom Holland, Jake Gyllenhaal, Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya, Jacob Batalon, Tony Revolori, Angourie Rice, Cobie Smulders e Samuel L. Jackson.

É impossível citar as referências ou fazer uma análise sem soar como spoilers, mas mesmo assim evito o máximo entregar algo. Contudo, se quiser evitar possíveis surpresas, recomendo a leitura após assistir o filme!

Nota 3/5

Durante um momento que encontra-se acometido por alguns ferimentos, Peter Parker/Homem-Aranha (Holland) é questionado se sua superforça não seria suficiente para suportar aquilo, e ao dizer “mas ainda dói”, ele mostra que a dor do jovem não vem somente das lesões, mas por não conseguir suportar como acha que deveria (mesmo para um adolescente) a perda e a pressão para assumir a vaga de seu tutor Tony Stark (Downey Jr.) – como visto em Vingadores: Ultimato – ao mesmo tempo que precisa lidar com sua paixão por Mary Jane (Zendaya) e a responsabilidade de ser o próprio Homem-Aranha.

Iniciado alguns meses depois dos acontecimentos vistos no último filme dos Vingadores, este eficaz Homem-Aranha: Longe de Casa serviria como uma espécie de epílogo; mas talvez este seja um grande problema estrutural deste longa, uma vez que é visível que há um conflito entre ser um “filme do Homem-Aranha” e uma continuação direta de Ultimato. E o fardo ainda fica maior quando Parker herda de Stark um óculos com IA permitindo acesso ao sistema de defesa das Empresas Stark, aumentando ainda mais o vínculo do protagonista com o Tony (e por mais pedante que possa ser essa necessidade de sempre invocar a presença do Homem de Ferro, acho útil para o desenvolvimento de Peter Parker em corresponder a todo seu potencial nele depositado e que acaba criando uma engraçada rima pelo óculos relembrar os usados por Tony).

O roteiro de Chris McKenna não ajuda muito ao simplesmente apresentar o mundo pós-Thanos e o retorno das pessoas desaparecidas, assim como o surgimento de Mysterio (Gyllenhaal) lutando contra criaturas vindas de outra dimensão que ameaçam a Terra. Contudo, ao apresentar o conceito de multiversos, visualizamos diversas possibilidades em que a Marvel possa aproveitar (e nem vou me aprofundar porque, sob uma nova ameaça, não apareça um Vingador que seja para ajudar; e se nunca tentaram explicar essas ausências costumazes e convenientes de maneira convincente depois de 20 filmes, não vai ser agora). Ou seja, muita informação sendo jogada na tela – o que normalmente deixa o espectador um pouco perdido – que acabam sendo renegadas ou subaproveitadas. E um velho problema da série volta a se repetir aqui: a questão da fragilidade em trabalhar a identidade secreta dos heróis. É óbvio que qualquer pessoa ao ver alguém se balançando por Londres reconheceria o herói e não seria o fato de usar um uniforme diferente (ou uma máscara de carnaval) ou ser chamado por outro nome que manteria sua identidade secreta, mas confesso que acaba rendendo boas piadas, de qualquer maneira. 

Assim, quando assume sua pretensão jovial, o filme de Jon Watts, que demonstrou conhecimento do material em mãos no filme anterior do Homem-Aranha, entrega um divertido capítulo da saga do aracnídeo devido a dinâmica daqueles personagens, que demonstram uma segurança que, mesmo beirando ao caricato, soa simpática durante a viagem do grupo pela Europa, me remetendo por momentos como uma obra oitentista. Inclusive, um dos meu temores acabou não acontecendo que era o fato do personagem sair de sua cidade natal para se aventurar em outros países; mas é justamente ao sair de sua zona de conforto de uma familiar Nova Iorque, que o longa acaba dando espaço para outros aspectos de Peter Parker, evitando abordar somente as ações do aracnídeo. 

Fora que logo de início a direção apresenta um espécie de homenagem aos mortos da batalha contra Thanos ao som de nada mais nada menos que “I Will Always love You” de Whitney Houston, dando a entender que o ponto de vista será a partir daqueles jovens, onde o tom cômico e leve se assume – e funciona. Até porque ao trazer este ponto de vista, a Marvel parece querer tomar outros rumos para sua franquia, tanto que aqui Nick Fury (Jackson) se mostra ignorado por Parker por não aceitar a tarefa de salvar o mundo.

Mas o roteiro acaba pregando peças no espectador, e admito que me surpreendeu; se até sua metade as resoluções e narrativa com relação a trama principal soam desonestas por dedicarmos e nos importarmos com um dos personagens para depois vermos isso descartado, é bem vinda uma espécie de plot twist, por mais absurdas que soem em suas “resoluções tecnológicas”, mesmo que o próprio roteiro use um argumento (este sim, acho desonesto) sobre a motivação de um vilão, baseado em fatos anteriores, que sequer sabíamos que participou ou que existia (algo como visto, por exemplo, no fatídico Homem-Aranha 3 de Sam Raimi em que o Homem-Areia participou diretamente na morte de Tio Ben). 

Assim, o carisma do filme vem obviamente da figura de Tom Holland, cada vez mais confortável em seu papel. Transitando entre a adolescência e a vida adulta, e as responsabilidades que seus poderes trazem, de maneira convincente (lembrando que o ator tem 23 anos) vemos o personagem amadurecendo seus sentimentos e poderes, uma vez que seus “arrepios” que antecedem o perigo não funcionam de maneira eficiente (aka “sentido de aranha”). Além do mais, em seu clímax, caso esteja enganado, vemos a habilidade de herói como poucas vezes vista nos filmes anteriores, de maneira muito imponente e empolgante com sua movimentação.

Contando também com atuações carismáticas, o elenco não compromete, principalmente a MJ de Zendaya, com sua camada de dureza sendo desconstruída (não sendo a toa que, em determinada cena, a luz ilumina parte de seu rosto como se descobrisse de vez sua personalidade diante de Parker). O que nos traz ao personagem de Jake Gyllenhaal, trazendo segurança e nobreza para seu Quentin/Mysterio em seu relacionamento com Peter Parker ao ponto dele achar que Quentin pode assumir outras responsabilidades.

Mas admito que este teatro romano mostrou um habilidade na direção em não permitir que saibamos realmente o que é real ou não. Assim como ao trazer algumas discussões interessantes para o longa, como a questão das fake news em sua capacidade de usar as informações para atingir determinado objetivo. Até porque, narrativamente falando, o primeiro ato em termos de ação não chegam a empolgar tanto, Inclusive, o próprio visual de Mysterio (com o tradicional aquário na cabeça, remetendo ao visual dos quadrinhos) é algo que destoa e soa risível até mesmo para aquele universo; onde os visuais dos monstros são absolutamente genéricos (como visto, por exemplo, em BvS, onde a cada ataque a criatura aumentava seu poder).

No final das contas, apesar de todo o teatro, Homem- Aranha: Longe de Casa é uma obra sobre um jovem que tenta se adaptar aos seus poderes e proteger quem ama; até porque uma das cenas pós créditos (uma das melhores já vistas) traz novidades que realmente significam uma grande ameaça para todos os envolvidos com Peter Parker/Homem-Aranha.


Obs: Não deveria, mas vou comentar rapidamente a outra cena pós crédito: ela incorre no mesmo problema de sempre, pois assim como todas as já vistas no universo da Marvel, enfraquecem tudo que passou no filme, pois é como se dissessem para o público “esqueçam rapidamente o que acabaram de ver e vamos logo para o próximo capítulo da franquia!”.

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Homem-Aranha - Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

5 comments

  • Avatar
    Yasmim Souza:

    parabens pelas consideracoes

  • Avatar
    Pergoleds:

    filme legal, concordo com a critica, da pra se divertir bastante, nao tem que exigir um épico do nivel de Ultimato nem um filme serio como Logan

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Pergoleds
      Bem vinda
      Obrigado pela leitura do nosso texto. Realmente é possível se divertir sim, e Homem Aranha faz isso muito bem!

  • Avatar
    Naomi:

    vem ai uma guinada boa nos filmes da Marvel… espero que mantenha a qualidade dos 20 filmes anteriores (tirando alguns, claro, como HdF3, os dois primeiros Thor)

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Naomi
      Bem vinda
      Esperamos que cada vez mais a Marvel se supere!
      Os fãs agradecem!
      Abraço

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