Maxiverso

Crítica: O Irlandês (The Irishman)

Diretor: Martin Scorsese

Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Anna Paquin, Jesse Plemons, Stephen Graham, Bobby Cannavale, Kathrine Narducci, Jack Huston, Aleksa Palladino, India Ennenga, Stephanie Kurtzuba, Domenick Lombardozzi, Ray Romano e Harvey Keitel

Nota 4/5

Caso fosse resumir o que seria este O Irlandês de Martin Scorsese, poderíamos dizer que seria um fim de um ciclo em conjunto – algo que os atores deixaram claro em entrevista antes da estreia; até porque o diretor continua em plena atividade. Tanto Scorsese quanto Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Harvey Keitel são praticamente octogenários (fora que Pesci estava praticamente aposentado, cujo último filme foi em 2010!) e assim não tinham obrigação alguma de provar algo dentro de suas carreias consolidadas no cinema.

Todavia, O Irlandês também pode ser visto como uma retrospectiva, uma compilação narrativa para um novo público com paralelos diretos de Os Bons Companheiros e até mesmo uma espécie de sátira ao O Poderoso Chefão (não sendo coincidência que o famoso tema de Nino Rota possa ser ouvido ao fundo durante um diálogo…). E obviamente a maioria dos elementos característicos do diretor estão ali para os novos e antigos admiradores: violência crua, narrativa em off, quebra da quarta parede, homens comuns elevados a ultrapassar a linha da moralidade e do crime… faltando talvez, caso não tenha me atentado, a predominância do vermelho na palheta de cores ou até mesmo um trilha sonora mais emblemática – lembrando que pela primeira vez um filme do diretor é lançado oficialmente no streaming e mesmo não sendo um dos mais inspirados filmes do diretor, ainda assim é infinitamente superior à maioria do que é produzido nessas plataformas.

A propósito, a reclamação recente do diretor contra o fato da indústria focar (ou desejar) somente em filmes baseados em HQs e “super heróis” acaba fazendo sentido. E mesmo na controvérsia de que a “Marvel não é cinema” é possível analisar a questão de maneira mercadológica e não somente com base em um ou dois filmes – até porque todos os filmes são arte, ainda que nem todas sejam tão boas, tecnicamente, claro. Ademais, cinema é uma forma de arte cara (e jamais negaria isso ou me apoiaria em um romantismo exacerbado para negar) envolvendo centenas de profissionais, mas um diretor de obras como O Touro Indomável, Taxi Driver, A Época da Inocência, A Última Tentação de Cristo, Os Bons Companheiros, Cassino, O Aviador, Os Infiltrados, O Lobo de Wall Street… ter dificuldades para angaria recursos (o último do diretor, Silêncio, demorou quase 10 anos para obter financiamento) é um sinal de que algo de grave acontece atualmente nesse segmento! E estamos também falando de um diretor que sempre se mostrou contemporâneo em suas obras e jamais se fechou para a evolução do cinema (vide o belo uso do 3D em As Invenções de Hugo Cabret e principalmente o fato de que em O Irlandês, o personagem de De Niro usa uma maquiagem digital que rejuvenesce seu personagem de maneira bem natural).

Voltando a falar do filme, o mesmo é iniciado com um plano sequência, onde já somos apresentados a um resumo do que é Scorsese, pois ao trazer imagens sacras dentro de um asilo, o diretor imediatamente invoca lembranças, envelhecimento, influências e principalmente legado, onde conhecemos Frank Sheeran (De Niro) narrando seu passado de ex-combatente na Segunda Guerra Mundial e de motorista de caminhão até chegar como o “Pintor de Casas” oficial da máfia. Baseado no livro de Charles Brandt e roteirizado por Steven Zaillian, O Irlandês atravessa várias décadas, focando boa parte no relacionamento de Frank com o famoso líder sindical Jimmy Hoffa (Pacino) sempre às turras com a família Kennedy e entranhas da política sindical americana.

Eu poderia apenas resumir o longa como um épico do diretor sobre máfia ou apenas mencionar o prazer de ver a interação de um elenco deste porte; entretanto Scorsese é inteligente o bastante para não deixar as quase três horas e meia do longa se tornar algo cansativo ou que soe apenas como um último reencontro da equipe (o que não deixa de ser…), e isso é algo que posso afirmar, pois somente fui vencido por algum cansaço por ter chegado de viagem quase em cima da hora em São Paulo, onde o filme foi exibido em pouquíssimas salas. E até admito ser arriscado tal duração, pois ao ser lançado oficialmente para streaming a atenção do público pode facilmente se dissipar por assistirem através de uma TV (leia aqui nosso texto sobre as diferenças entre TV e cinema).

Como se trata de um longo período, crises e vários acontecimentos, é mais valioso ainda que a obra acabe concentrando-se naqueles personagens do que necessariamente na história gerada; como por exemplo o relacionamento de Frank e sua família, principalmente sua filha Peggy (Paquin) e como este relacionamento se deteriora devido ao trabalho dele. Mas ratificando que o roteiro não deixa de englobar toda a politica americana no ponto de vista daquelas pessoas, desde a perda do poder de Hoffa, sua influência por liderar mais de 1 milhão de filiados, a derrota acachapante dos americanos para Fidel Castro na invasão da Baía dos Porcos… Elogios, portanto, para a montagem de Thelma Schoonmaker que permite inserir os acontecimentos e três linhas temporais de maneira orgânica (tirando talvez um ou dois momentos em que a passagem de tempo de torna pouco sutil, mas ainda eficazes), onde vemos Frank conhecendo Russell Bufalino (Pesci), ao mesmo tempo que acompanhamos os dois, anos depois, com suas respectivas esposas em uma espécie de road movie com conclusões trágicas sendo contadas pelo Frank do início da obra.

Testemunhar estes grandes atores torna épico o exercício de ver indivíduos que jamais deixam que os imaginemos fora daquele universo, mesmo quando dentro do âmbito familiar. Robert De Niro traz para seu Frank Sheeran um misto de confiança e impulso ao mesmo tempo que precisa se adaptar a aquele mundo de violência no qual ele foi incumbido; reparem, por exemplo, no momento que precisa executar um serviço com arma ele chega a se atrapalhar para futuramente realizar o mesmo tipo de serviço de mais segura – onde sua hesitação se dá pela ligação com a vítima (o que me fez remeter, pode ser que esteja viajando, que Frank Sheeran poderia ser uma versão alternativa da mistura pouco requintada de Vito e Michael Corleone). E se Joe Pesci traz a imprevisibilidade, mesmo que pouco menor, daquela vista em Os Bons Companheiros, jamais duvidamos de sua influência e poder dentro da máfia, ao ponto que Al Pacino transforma seu Jimmy Hoffa em um líder de gestos e pensamentos nada discretos, que jamais pensou em abandonar o comando do sindicato, inclusive, o Jimmy Hoffa de Pacino é quase um contraponto ao trazer um tom mais caricato daquele interpretado por Jack Nicholson no filme 1993 e dirigido por Danny DeVito.

Repetindo o humor ácido que lhe é característico, Scorsese usa a mesma fórmula, por exemplo, de O Lobo de Wall Street, assim em vez de rirmos somente com os personagens (o que poderia nos tirar facilmente do filme), acabamos rindo do absurdo que tais elementos são capazes de realizar (a cena da melancia, por mais inocente que posso aparentar, é hilária). Aliás, como dito no início do texto, Scorsese acaba subvertendo a própria imagem mafiosa no instinto do público como visto por exemplo na trilogia do O Poderoso Chefão. Não que o diretor não tenha feita nada de diferente anteriormente, como o fato de jamais deixarmos de sentir certa repulsa ou desejo de distanciamento daqueles indivíduos pela violência que representam, algo que Coppola transita sempre em uma linha tênue na trilogia do Poderoso Chefão; assim nada mais simbólico que a frase “Estes carcamanos desgraçados” seja dita por Al Pacino (frase esta dita em O Poderoso Chefão de maneira igualmente pejorativa pelo Capitão McCluskey, caso não esteja enganado, assim como Hoffa sempre se referir a todos os italianos como “Tony” ou o fato de que Frank tenha filhas mulheres ao contrário dos Corleones, que a maioria são homens).

O Irlandês é um filme (também) sobre um homem que ascendeu sua carreira através da máfia e no fim da vida a refaz através de uma espécie de lembrança sem qualquer autopiedade. O Irlandês é uma obra sobre homens que desejam que seus atos ecoem como um tiro dado em um adversário ou até mesmo em um aliado. O Irlandês é acima de tudo uma prova de que a narrativa deve sempre servir para contar uma história permeadas de indivíduos viscerais e violentos que permeiam as obras de Scorsese e do Cinema.

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: O Irlandês (The Irishman)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

4 comments

  • Avatar
    Pass Oliveira:

    vou assistir hj mas pausando o filme pra ir ao banheiro blz?

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Pass Oliveira
      Bem vindo
      Não deveria, mas fique a vontade!

  • Avatar
    Claudnei Pag:

    Scorsese é um mestre do cinema, qualquer obra sua vale a pena, essa com certeza verei

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Claudnei
      Bem vindo
      Sempre vale, sempre vale!
      Abraço

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