Maxiverso

Crítica: Jo Jo Rabbit

Direção: Taika Waititi

Elenco: Roman Griffin Davis, Taika Waititi, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Archie Yates, Stephen Merchant, Alfie Allen e Sam Rockwell

Nota 3/5

Com aproximadamente quase 25 minutos de filme (um ato e mais o início do segundo), fui definitivamente cooptado pela ideia que como uma boa intenção pode conter um espaço fértil para a implementação de uma ideia totalmente contra daquilo que você prega – ou acha que não está pregando. Baseado na novela de Christine Leunens, conhecemos o jovem protagonista chamado Jo Jo Rabbit (Davis) já integrado na adoração pelo partido nazista e na figura do Hitler (Waikiki) com quem imagina algumas conversas tendo no líder alemão como um conselheiro que carinhosamente o chama de “Nazistinha preferido”.

Através de uma narrativa remetendo, por exemplo, bem ao estilo de Wes Anderson como o uso da câmera se movimentando lateralmente, o diretor Taika Waititi traz uma fábula como contornos coloridos de um jovem que aos poucos vai descobrindo que seus ídolos e crimes por eles cometidos não condizente com a visão que a criança queria acreditar, principalmente quando sua mãe Rosie (Johansson) guarda um segredo envolvendo a jovem judia Elsa (McKenzie) com quem descobrirá uma verdade que pouco lhe é mostrada. Scarlett Johansson, aliás, é um dos pontos altos do filme ao trazer uma personagem multifacetada, dinâmica e sempre disposta a convencer inicialmente o filho dos horrores do nazismo na base do diálogo sem qualquer tipo de agressividade – elogios , inclusive, a cena interpretando quase de maneira teatral a visão do pai do menino é ao mesmo tempo encantadora e duramente melancólica. Fora que os diálogos retratam certa doçura e óbvia curiosidade infantil do protagonista ao ser desafiado pela presença fundamental (as vezes literalmente como uma assombração) da jovem Elsa se tornando a peça fundamental no entendimento do protagonista e das pessoas que o cercam (“Onde os Judeus vivem? – na mente de vocês”); judeus estes que acabam por serem desenhados no imaginário infantil como criaturas com chifres e monstruosamente assustadoras, reforçando o imaginário doentio como serem capazes de hipnotizar pessoas (o que seria as fake news atuais usadas como massa de manobra política).

A direção de Waititi demostra controle em sua abordagem cômica às vezes quase cartunesca, principalmente ao contar com a presença de um Hitler dos mais estereotipados e atrapalhado já vistos de um jeito quase infantil (reflexo obviamente da visão do protagonista), confirmando que o humor de O que fazemos nas Sombras não foi por acaso; ademais, com rápidas as gags mostrando clones e a resistência do jovem protagonista em recusar os cigarros que lhe são oferecidos constantemente, acabam tornando elementos eficientes. Elogios também a personagem Finkel (Allen) , onde o ator constrói sua homossexualidade nada velada, principalmente na presença de Sam Rockwell como o Capitão Klenzendorf,  cujo personagem nunca se apresenta ameaçador , ao contrário, sempre em  uma posição de saturação , Klenzendorf  acaba por temer ser repreendido por Rosie por ter deixado seu filho se ferir como uma granada!

Pontuando a narrativa em determinado momento ao som de uma versão parodiada de  I Want To Hold Your Hand dos Beatles, Jo Jo Rabbit transita em um campo extremamente perigoso e este seja o principal porém da obra; uma coisa é Chaplin satirizar Hitler e sua megalomania assassina em O Grande Ditador, mas deixando bem claro as atrocidades que jamais poderão ocorrer novamente com visto no famoso discurso no clássico de 1940, assim como trazer o líder nazista aos tempos atuais em Ele está de Volta questionando o porque da sua figura ainda causar aceitação por parte das pessoas – não esquecendo do fantasma ainda oculto do fascismo de A Fita Branca de Haneke. E claro, a personificação maior de Bruno Ganz em A Queda! Ou seja, em todos as obras, de narrativas e gêneros diferentes, temos o mesmo contexto no final sobre o nazismo, seu surgimento e o que representou para a humanidade. Mas outra coisa é você usar tal pano de fundo como uma porta entreaberta para benevolência como uma tragédia inerente a humanidade. Não que não seja, somo auto-destituíveis por natureza, mas exterminar o próximo por ódio é algo que jamais podemos naturalizar.

Obviamente é visível a intenção da obra usar a chacota para um cenário de crítica aos horrores nazista (aqui visto realmente em poucos momentos somente, como na cena de pessoas enforcadas), mas ao mesmo tempo o risco de banalização e normalização como algo que ficou no passado ainda é sutilmente perigoso – ratificando que esta não é a ideia dos realizadores, mas ainda não me permite na totalidade em imaginar que isso não possa causar um efeito reverso em algumas pessoas, mesmo que mínimo. Jo Jo Rabbit merece reconhecimento pelos seus méritos e até mesmo dizer que o longa seja inocente cujas qualidades narrativas são pertinentes. Mas, em tempos em que no Brasil pessoas ligadas a CULTURA me pleno ano de 2020 recitam texto de Joseph Goebbels (responsável pela propaganda nazista), confirmando um pensamento de opressão sempre existiu dos seu mandantes, devemos encarar a não rejeição total e qualquer menção à este contexto como um risco para a sociedade.

Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.
RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Jo Jo Rabbit

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2 comments

  • Avatar
    Zé Carlos:

    bacaninha… e só

  • Avatar
    Anderson:

    Legal. Vou ver.

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