Maxiverso

Crítica: O Homem Invisível (The Invisible Man)

Direção: Leigh Whannell

Elenco: Elisabeth Moss, Harriet Dyer, Aldis Hodge, Storm Reid, Michael Dorman e Oliver Jackson-Cohen

Nota 3/5

Gaslighting é o termo que define o abuso emocional praticado por vezes de maneia sutil – sem necessariamente usar de violência física – fazendo com que a vítima (mulheres) questione suas ações e a própria sanidade com o passar do tempo, fazendo a pessoa abusada se afastar dos amigos, familiares e entrando numa atmosfera de esgotamento com graves consequências para a saúde psicológica.

Baseado na novela de H. G. Wells, que inspirou o clássico de 1933 (com Claude Rains e Gloria Stwart) e gerou uma versão moderna estrelada por Kevin Bacon em 2000, essa nova abordagem do diretor Leigh Whannell se diferencia logo de cara por trazer o protagonismo feminino na pele de Elizabeth Moss, onde a presença masculina da “criatura” é vista como opressora e tóxica. Mas se a aura clássica do personagem ficou para trás (até mesmo a visão de 2000 trazia uma obra que se aproximava mais de um thriller de suspense), aqui o homem invisível assume uma conotação high tech devido à tecnologia da vestimenta que o torna invisível; o que de certa maneira desconstrói o conceito original – acidente em laboratório – que era o elemento dramático do personagem na busca da cura ao mesmo tempo em que caminhava rumo à sua destruição, tornando-o mais parecido com personagem em quadrinhos ao vestir um uniforme com tecnologia com poderes quase sobre humanos.

Mas ainda assim é importante a contextualização desta nova adaptação por tratar assuntos importantes como os filmes de gênero devem fazer, principalmente o terror. Portanto, quando uma obra, no caso do terror/suspense usa suas convenções para criar uma alegoria para tal, é importante entendermos suas intenções. Ademais, tem uma cena em particular que demostra tal estado quando Cecilia precisa se adaptar a uma vida normal, mas com um esforço descomunal para tarefas simples, como pegar uma correspondência.

Jogando o espectador direto na ação desde o início do longa, somos apresentados a Cecília (Moss) em preparação para uma fuga de sua mansão a beira mar motivada claramente pelo relacionamento conturbado com o marido (Cohen). Mas ao tentar uma nova vida na casa dos amigos, o policial James (Hodge) e sua filha Sydney (Reid), Cecília começa a ser perseguida pelo personagem título ao mesmo tempo que conta com a ajuda da irmã (Dyer) devido à herança deixada pelo ex-marido. Claro que roteiro do próprio diretor não consegue articular algumas situações que dependem demasiadamente do poder de descrença do espectador para atender as convenções da história, como visto na agressão sofrida por Sydney ou na cena de um assassinato durante um jantar, ou até mesmo em um e-mail enviado pela protagonista à sua irmã. Ou seja, por mais que o filme abra esta possibilidade, é pouco crível que tais circunstâncias não sejam vistas como atos que não poderiam ter sido cometidos por uma pessoa em sã consciência e daquela maneira que foram apresentadas. Fora que o diretor acaba por amenizar precocemente (não estou dizendo que não há o suspense em si) a sensação de desconforto e medo; pois se é bem-vindo que a direção use planos e movimentos de câmera focando nos espaço vazios insinuando a presença de alguém (algo funcional por se tratar de alguém… invisível!), Whannell descarta tal poder de sugestão para instigar o público durante mais algum tempo para dizer que o personagem realmente está ali, como visto na cena em que Cecilia está na cozinha e não ouvimos o barulho de uma faca que caiu no chão. Por outro lado, cenas como a que visualizamos o vapor de alguém respirando próximo a protagonista, acabam por serem interessante pelo seu contexto e ajudam na climatização da obra.

Mas todos os atrativos vão para a presença de Elizabeth Moss. Sua personagem acaba sendo uma nova visão para sua personagem na série The Handmand’s Tale, demonstrando força e um desequilíbrio mental de uma mulher destruída e sempre sendo vista como louca; e a atriz jamais deixa sua atuação no automático, passando credibilidade em qualquer situação, por exemplo, que demostre fragilidade, ou como no fato de simular um ataque do vilão como se realmente sentíssemos que tivesse alguém em cena com a atriz. E se no terceiro ato as reviravoltas soam entre previsíveis e impactantes ao mesmo tempo, acabam não prejudicando tanto a discussão sobra a violência que a personagem sofreu; e independente do desfecho (que faz jus à lógica apresentada durante a obra) temos consciência da altura do terror que Cecilia sofreu e do significado do revide daquela mulher, o que por si só engrandece a obra.

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: O Homem Invisível (The Invisible Man)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

14 comments

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    Joelson Feio:

    um bom filme, uma boa visao nova sobre esse tema ja tao explorado com alguns reusltados sofriveis mas esse filme ficou acima da media, boa critica Rodrigo, visao clara de aspectos improtantes do filme parabens

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    Rasunda:

    legal mas prefiro o com o K Bacon

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    Block Pass:

    um otimo filme que consegue fazer terror sem ser explicito a maior parte do tempo, so usando direção, iluminacao, som (ou ausência dele) e atuação de 1a categoria da protagonista

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    Pref Decep:

    Bom filme, os atores estao bem, o marido apenas que destoa, pessimo, de resto vale a pena

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    Volt Ounaum:

    gostei do filme recomendo, muito eficiente

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    Washington Paulinia:

    SPOILERS – NAO LEIA … belo filme, acho que em determinado momento o diretor largou as insinuações e partiu pra ação pq senao a audiencia ia cair, o filme ia ficar com a pegada de “chato e parado” rsrsrs so isso pra explicar pq o vilao em determinado momento chuta o balde e começa a atacar policiais, se revelando, qd poderia muito bem so fugir e pronto, sem falar que o fato dela guardar o traje no closet sem motivo algum (poderia ter vestido e escapado kkk) ja dava mostras de que isso era um gatilho pra um momento futuro do filme, tb incomodou a mudança de postura da irmã que um dia esta achando que o email foi um absurdo, e no jantar esta la ouvindo atentamente a protagonista com a maior boa vontade do mundo, entretanto esses pontos todos nao prejudicam o filme, tudo fica aceitavel diante da boa direção e de cenas bem competentes, acho que o saldo foi muito positivo

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      Adriano TI-SMF:

      tem tb a cena da tinta… a mulher joga um balde de tinta no cara (primeiro de tudo o que aquela tinta tava fazendo bem ali e aberta? uhauahuahuahuahuah) e ele simplesmente lava com agua a ponto de ficar 100% invisivel de novo, pera la, conseguiu em 30 segundos lavar TODOS aqueles milhares de orificios do traje que ficaram pintados??? fala serio mas cmo vc disse isso nao impede que o filme seje bom

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    Denis Matheus:

    muito boa sua analise a gente qd assiste nmao se toca de algumas coisas que so lendo a critica a gente ve

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    Mariana Ribeiro:

    Magina que isso é verdade ne gente fiquem bravos nao

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    George Resi:

    otimo filme, taca na cara de muitos abusadores coisas que eles nao gostam de ver, aposto que um monte de macho branco hetero vai vir dizer que é mimimi demais, militancia, o mundo de hj ta muito chato, etc… tudo pra nao admitir que compactuam com esses abusos

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    Ferri Filleto:

    prefiro o filme anterior de 2000 era mais ação esse aí ta muito drama mas é bom tb

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    Lane:

    Trata-se de um filme de terror sim, mas não só e nem principalmente isso. O Homem Invisível, queira ou não, é a ideia de dar um super poder a um homem, e de dar um dom para um homem, que no fundo é narcisista, e assim o deixar ficar intocável. É assustadora a ideia de saber que há alguém que pode estar em qualquer canto e em qualquer lugar, que pode surgir a qualquer momento e de surpresa para te atacar. É esse o principal barato desta nova versão, pois o diretor que também é o roteirista dá mais um ar de terror psicológico para a narrativa, que é algo que demandava a nova história. Produção, roteiro e direção alinhados e muita qualidade pra quem quiser assistir.

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    Liloca Fiscal:

    Boa ciritca. O único ponto fraco são os jumpscares em momentos óbvios que não servem de nada para construir tensão. Tensão esta que é muito bem trabalhada com o desenrolar da trama e com a atuação de Elisabeth Moss. A inteligência de Cecília surpreende. Em tramas assim é comum certos personagens terem atitudes burras para conveniência da história. Mas neste filme é diferente. A protagonista é muito bem articulada e calculista. Suas atitudes são pensadas e condizentes com as situações e a própria personagem em si. O filme foi uma grata surpresa. Recomendo!

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    Covid19:

    gostei… melhor que aquele com o Kevin Bacon, sem falar no lance da critica contra a opressao psicologica no relacionamento

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