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Crítica: T2 Trainspotting

Trans_cartaz Crítica: T2 Trainspotting

T2 Trainspotting

Direção: Danny Boyle

Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova e Shirley Hendersonb

Trainspotting foi um marco dos anos 90. Não somente pela qualidade de sua narrativa, como igualmente pela denúncia para um grupo de jovens envolvidos na heroína e crimes no submundo de Edimburgo. Tudo envolto por um humor negro, uma direção contemporânea e envolvente com recursos visuais do quase estreante em longas Danny Boyle (anteriormente dirigiu o também intrigante Cova Rasa). Assim, passados 20 anos, retornamos ao mundo do grupo composto por Renton (McGregor), Simon (Miller), Spud (Bremner) e Begbie (Carlyle) tentando se reencontrar e ao mesmo tempo tornando tudo um acerto de contas com o passado e a oportunidade de seguir em frente para alguns.

Tentando sempre chamar mais atenção pelo dinamismo da direção (e o saudosismo, claro), que propriamente a história em si, o diretor Daniel Boyle é eficiente sem se mostrar acomodado. Contudo, a nostalgia é algo sempre presente e fundamental dentro da narrativa para que o longa funcione. Isso é um demérito? Não necessariamente. Depende do grau de dependência e como a direção consegue inserir novos elementos sem descaracterizar o primeiro e sua essência. Mas acredito ser impossível dizer que T2 Trainspotting não funcionaria sem seus apelos ao passado.

Mesmo assim, depois de duas décadas ainda somos atraídos pelo magnetismo daqueles indivíduos e o dinamismo destes senhores de meia idade. Personalidades que depois de tanto tempo permanecem com facetas intactas ou, quando não, “bem evoluídas”. Ewan McGregor novamente realiza um ótimo trabalho ao apresentar Renton inicialmente sem qualquer resquício do jovem perturbado pelas drogas, onde a direção acerta ao não cair na armadilha fácil ao transforma-lo num homem de família bem sucedido. Assim, é interessante que o roteiro insira aos poucos elementos de sua antiga persona em cenas que remetem ao filme anterior (portanto, não poderiam faltar as referências à famosa cena do sanitário e a sequência dele correndo pelas ruas de Edimburgo sendo quase atropelado).

E se Simon (Miller) se mostra nada mais que um chantagista envolvido com prostituição, mas se vendo como um homem de negócios, Begbie (Carlyle), agora cumprindo pena, se apresenta como o mesmo sujeito violento e imprevisível cuja moral e costumes parecem presos a um mundo que somente faz sentido a ele – inclusive fazendo questão de influenciar o filho em suas ações (ou seja, um completo louco).

Em sua narrativa, o diretor abusa de planos holandeses, plongees e ângulos que deixam os personagens sempre oprimidos na parte inferior da tela e intervenções visuais que mostram uma atualização de Boyle, como o uso de texto na tela – e até mesmo usando referências a clássicos como Touro Indomável e O Iluminado. Assim como a trilha sonora, normalmente fundamental para o clima nostálgico, não compromete e traz o mesmo clima do filme de 1996, como a clássica Radio Gaga do Queen , a emblemática Lust for Life de Iggy Pop e a ótima Shotgun Mouthwash de High Contrast. Ele também é sensivelmente criativo ao demonstrar o isolamento e dramas de certos personagens, como o uso de sombras para simbolizar a perda de Renton quando reencontra seu antigo lar e o conflito interno de Spud, sempre envolto com grupo de auto-ajuda (possuindo o arco com maior carga dramática, Spud é a maior vítima do vício que nunca abandonou e acaba se tornando um homem preso em sua pobre mente incapaz de manter um contato com o filho, mas que acaba se tornando aquele que testemunhará e registrará a história do grupo e de vidas perdidas em que muitos casos se tornaram apenas anotações coladas na parede).trans_meio Crítica: T2 Trainspotting

Com um tom levemente crítico, o roteiro de John Hodge, ainda baseado no romance de Irvine Welsh, apresenta uma trama frágil girando a todo o momento no velho acerto de contas entre o quarteto em si e o desejo de Simon de abrir um prostíbulo em conjunto com usa namorada. Assim, a inclusão da personagem Verônica (Nedyalkova) se mostra um pouco mal aproveitada, não pela atriz que se mostra sempre carismática e incluída dentro do filme, mas pela história não conseguir desenvolver algum foco de maneira tão contundente. Tanto que ao incluir uma trama paralela sobre Simon e Renton abrirem um instituto, isso acaba soando vago e uma ponta solta durante o filme.

Contudo, o humor sombrio e com certo teor crítico ainda se faz presente, mas claro sem o mesmo impacto violento do anterior, mas que acabam rendendo bons momentos, como a hilária sequência passada em um bar de protestantes desejando a morte de católicos. Ou na cena entre Renton e Verônica em que o discurso dele se torna emblematicamente reflexivo sobre o estado atual de nossos relacionamentos e a hipocrisia atual (outra herança da sociedade de quando jovens) que nos impõe mantras de felicidade ao mesmo tempo em que desfilamos ódio para desconhecidos nas redes sociais.

Se mantendo carismático durante toda sua projeção, T2 Trainspotting não é um filme tentando necessariamente dar uma dimensão dramática maior que o filme assume, mas é visível – por permearem certa resignação pelo passado e futuro destruídos – que tal contexto é importante dentro da narrativa.  Um tipo de herança do primeiro filme, caminhos não mais possíveis de serem percorridos por homens envelhecidos e constantemente “turistas de suas próprias juventudes”. Mas quem disse que isso é o fim?

Choose life!

Cotação 3/5

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Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

2 comments

  • Rodrigo Rodrigues
    Rodrigo Rodrigues:

    Jéferson,
    Obrigado pelo comentário.

    Realmente a energia não foi resgatada neste segundo, mas é compreensível. O importante é que a essência se manteve, e como bem disse, a historia evoluiu não se tornando uma imitação.

    Abraço

  • Jeferson Andrade:

    O primeiro filme foi muito intenso… denso… angustiante… a direcao e a montagem foram incriveis e deixaram um clima incrivel no filme, e claro os atores encaixaram perfeitamente… pena que isso parece ter se perdido nesse segundo, mas pelo menos a historia ev oluiu nao é um remake ou uma continuacao que imita o primeiro

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