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Crítica: Me Chame pelo seu Nome

Nome_poster Crítica: Me Chame pelo seu NomeMe Chame pelo seu Nome

Direção: Luca Guadagnino

Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar e Esther Garrel

Me chame pelo seu Nome poderá facilmente ser enquadrado dentro de um gênero específico apenas pelo fato de expor uma história de uma amor entre dois homens – normalmente vindo da mente da retrógrada de parte da sociedade. Todavia, as qualidades narrativas desta delicada obra dirigida por Luca Guadagnino (e produzido por pelo brasileiro Rodrigo Teixeira) acabam transformando-o, independente de ser numa obra abordando um drama ou romance entre duas pessoas do mesmo sexo, num filme de descobertas. Não somente isso, mas todo o contexto de amadurecimento de um jovem inserido num cenário de compreensão familiar fora do comum (infelizmente) remetendo a uma estória atemporal com ecos da época helenística e obras igualmente importantes como Azul é a Cor mais Quente, Carol e Praia do Futuro . Inclusive, podemos analisar o filme como um paradoxo contextual com a crueza social de Moonlight – Sob a luz do luar, uma vez que no longa ganhador do Oscar de 2017, o entendimento daquele universo em relação a sexualidade do protagonista era quase nulo naquilo que nos tanto difere como seres humanos: a capacidade de amar.

Iniciado em 1983 em pleno verão italiano, somos apresentados ao jovem Elio (Chalamet) que, junto com seus pais, recebem constantes visitas de amigos e acadêmicos na sua casa de veraneio no norte do País. Elio é um rapaz culto, inteligente e com formação clássica, dedicando parte de sua vida a música e conhecimentos diversos e sem grandes aspirações que não sejam aquelas relacionadas à família. Todavia, a chegada de Oliver (Hammer) o tira do ócio e joga o rapaz num conflito interno, mas sem necessariamente uma dúvida sobre a orientação em si, por ser evidente sua atração pela figura masculina não ser algo repentino. A obra é permeada num clima de amizade, delicado e respeitoso em que soa tão sincero que é impossível não nos sensibilizarmos com a química e sentimentos de Oliver e Elio. Um amor permeado de carinho e troca de experiências que, ao prometerem dizer o nome do outro, como forma de fixar suas persona na mente do amante, temos a dimensão da importância daquele cenário.

Inclusive, podemos dizer assim, é elogiável que o filme sirva como uma ode ao corpo (feminino inclusive), com doses de erotismo velado, mas reconhecidamente eficiente acima de qualquer orientação sexual no envolvimento entre os dois. E para isso, a direção de Guadagnino cria tal clima através de planos que sugerem ao mesmo tempo a excitação sexual dos envolvidos sem realmente que haja a entrega de imediato ou algo que denuncie logo de cara o desejo de ambos e consequentemente criando certa dubiedade, como podemos comprovar na cena em que Oliver faz uma leve massagem nos ombros de Elio para imediatamente chamar o elemento feminino para ficar com o garoto. Ou como no início da obra quando acompanhamos Elio passando rapidamente pelo pai e mãe abraçados (simbolizando a família “tradicional”), um beijo no interesse feminino (a jovem Marzia) para, apenas na presença de Oliver, o jovem se sentir confortável. Ou seja, em apenas uma curta sequência temos, digamos assim, a trindade social e sexual do protagonista.

O roteiro de James Ivory (baseado na novela de Andre Aciman e que rendeu a quarta nomeação ao Oscar para Ivory) se mantém sempre no mesmo ritmo durante seu 120 minutos sem grandes saltos ou pontos de virada que tentem chamar atenção para alguns elementos um pouco desconexos daquele universo, como uma doença ou morte. Isso pode causar, entretanto, certa carência de um ritmo pela sua duração, mas ainda sim é suficientemente capaz de se fazer entender que este tempo é fundamental para nos identificarmos com aqueles personagens sem necessariamente usar algum tipo de estereótipo de um romance entre dois homens. Até mesmo as simbologias e metáforas usadas pela direção, causam mais uma “curiosidade”, sem cair numa gag física qualquer demonstrando a importância do contexto bem trabalhado em assuntos delicados como o afloramento sexual. Se, por exemplo, em American Pie nos lembramos da famosa cena da torta como um alívio cômico, mas plausível dentro daquele universo, em Me chame pelo seu Nome o uso de um elemento de cena (não, não é um torta) remete ao mesmo contexto, mas acabamos por tem um impacto completamente diferente e ainda mais representativo.

Nome_meio Crítica: Me Chame pelo seu Nome

A presença do ator Timothée Chalamet é elogiável ao conseguir expor de maneira delicada a persona conflituosa do seu personagem apelando para gestos e olhares sutil sem usar algum tipo de muleta de interpretação que pudesse soar dissonante (não sendo a toa sua indicação ao Oscar de 2018). E se Chalamet é eficiente em sua construção, a presença de Armie Hammer é igualmente elogiável por compor um personagem como âncora sentimental de Elio, mas entendendo que expor o relacionamento ou qualquer tipo de sentimento de maneira explícita pode prejudicar principalmente o desenvolvimento do jovem ainda em formação. Mas ainda sim, um homem ciente de seus desejos como todo ser humano.

Tanto que é visível a força que Oliver traz diante do jovem, de modo que só repararmos na diferença de dinâmica do segundo quanto na presença de Oliver em comparação ao envolvimento com a jovem Marzia (Garrel). Se com a menina, igualmente inexperiente, Elio precisa tomar parte e iniciativa do relacionamento e do ato sexual em si, o mesmo é inversamente proporcional quando na presença de Oliver onde a entrega se dá sem medos ou culpa. Portanto, é belo vermos o fascínio que Oliver desperta em Elio, não somente pela beleza jovial do acadêmico, como o fato de ser um homem mais velho e carregar uma gama de experiências e conhecimento que Elio jamais teve acesso. E também, não somente por ambos serem judeus, mas pela presença de Oliver soar quase sempre como um combustível, um sentido de vida jamais experimentado que possa tirá-lo daquele ostracismo interno.

A fotografia de Sayombhu Mukdeeprom tem um importante e discreto trabalho durante a obra ao emoldurar o relacionamento de Elio e Oliver tendo como pano de fundo uma Itália de moradores e rotinas paradas no tempo. Como se criasse ao mesmo tempo um elo com o passado romano – como dito no início do texto – e um envolvimento sem necessariamente um contraste, uma vez que tal envolvimento é comum desde os primórdios da civilização humana – na Grécia antiga era normal, por exemplo, um homem mais velho ter relações sexuais com o mais novos como uma espécie de ritual de transição (inclusive, uma cena de Alexandre de Oliver Stone aborda tal afirmação). Fora que a direção ainda insere alguns elementos “Fellinianos” na obra, como podemos ver na cena em que Oliver e Elio passeiam pelas ruas da cidade e encontram aleatoriamente um grupo de jovens ouvindo música.

Mas é na sua resolução que a obra de Lucas Guadagnino faz nos emocionar e elevar ao máximo do aspecto humano da obra durante um diálogo entre o protagonista e seu pai. Assim quando Elio ouve que ele “teve sorte”, não podemos discordar de tal elemento importante na vida afetiva de alguém, independente se for um romance heterossexual ou não. Por mais idealistas e dedicados que sejamos para alguém, o amor ainda precisa de sorte. Sorte por encontrar aquela pessoa certa, no momento certo e ainda assim pode superar vários obstáculos que ainda poderão surgir, caso haja uma reciprocidade e desfrutar do tempo ainda jovem (no caso de Elio) antes que sejamos compelidos pelas decepções (ou não) e também pelos desgastes do coração e do corpo devido à velocidade do tempo. Ademais, é interessante que ao não ter nenhum conflito paterno devido a sua orientação sexual, ao ponto de causar no pai, certa “inveja” e doçura pela felicidade que o filho ainda não consegue compreender – numa atuação igualmente sensível e permeada de ternura de Michael Stuhlbarg.

Enfim, mesmo que Elio seja possuído pela dor do fim de um ciclo que não se repetirá (como um tipo de romance que fica apenas nas nossas memórias), o filme permite interpretar seu estado emocional como um tenebroso inverno, contudo, podemos afirmar sem sombra de dúvidas que, uma nova estação com uma gama de emoções ainda o aguarda.

Nota 4/5

Nome_final Crítica: Me Chame pelo seu Nome

Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

2 comments

  • Angelica:

    assisti hj, é tocante…

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo:

      Angélica
      Bem vinda e obrigado pelo comentário.
      Realmente é tocante demais…
      Abraços

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