Crítica: Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You)

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Direção: Mary Bronstein 

Elenco: Rose Byrne, Delaney Quinn, Mary Bronstein, A$AP Rocky, Ivy Wolk, Mark Stolzenberg, Eva Kornet, Conan O’Brien e Christian Slater

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Não fossem suficientes todas as pressões e frustrações que Linda (Byrne) precisa lidar no seu dia a dia, a maternidade acaba conotando esse Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (sim, o título, por mais inusitado que seja, é perfeito ao carregar certa dose de absurdo dentro de temas tão reais).  Sufocada pela rotina de seu trabalho e pelos cuidados extremos devido à doença da filha (não sabemos exatamente sua natureza), a psicóloga Linda ainda precisa contornar (leia-se resolver) uma reforma em seu apartamento devido a um rombo no teto que inundou sua casa. Sua saúde mental é constantemente posta à prova por não contar com a ajuda do marido, que se encontra em viagem, ligando apenas para saber como as coisas estão; traduzindo para o linguajar patriarcal, seria algo como “você está em casa, cuidando da nossa filha e isso não pode ser tão difícil, não me perturbe com bobeiras”. E mesmo quando precisa de uma ajuda de um colega de profissão (interpretado pelo ótimo Conan O’Brien), esse apoio é protocolar sem que seja visto realmente como uma ajuda, uma vez que ele provavelmente veja Linda como histérica.

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A diretora Mary Bronstein (fazendo uma participação como médica que não ajuda muito na situação) torna esse universo de Linda ainda mais identificável ao tomar decisões como passar praticamente todo o filme evitando mostrar — além da figura do marido — a presença da filha que não seja por meio de rápidos planos nas mãos ou pés da criança, mas focando na voz da filha, principalmente quando essa passa por um momento de tensão, cujo desespero ecoa na mente de Linda aumentando sua irritabilidade e culpa se realmente ela nasceu para desempenhar tal papel; o aprisionamento físico e psicológico diante do espectador é fomentado por meio dos sons dos aparelhos que monitoram sua filha. Ademais, a fotografia de Christopher Messina — aproveitando tal decisão — foca constantemente em planos fechados o rosto da protagonista ou até transformando seu apartamento num local claustrofóbico como se fosse um filme de suspense ao manter o quarto da filha predominantemente no escuro, ressaltado por uma luz vermelha indicando um perigo ou violência; portanto, interessante que o filme use a própria reforma do apartamento como uma metáfora, com toques metafísicos, por tratar aquele buraco na parede como o estado da filha, que ficará mais clara essa ligação (incômoda) no final do filme.

Aliás, o roteiro da própria diretora insere situações que são vernizes absurdos que chegam a soar com humor (como visto no vizinho interpretado por A$AP Rock ou um jovem paciente que nutre uma atração por ela). Sendo assim, essa bipolaridade é um excelente pano de fundo para a excelente interpretação de Rose Byrne por precisar rapidamente transmitir esse senso destoante diante de algumas situações para demonstrar total cansaço, nervosismo e isolamento diante das pessoas que parecem não compreender seu estado. Não sendo à toa que o público facilmente compreende suas reações de simplesmente querer um tempo para si, um tempo para fumar, beber ou simplesmente meditar; algo que nem sempre é algo fácil de conseguir, como visto na dificuldade da atendente da lojinha de conveniência do prédio em que está morando provisoriamente, seja mais uma pessoa sem qualquer jogo de cintura que aparece na sua frente. E talvez o principal momento nesse elenco secundário seja na figura de uma paciente que se tornou mãe há pouco tempo e cujo fardo de cuidar de um bebê torna-se o próprio reflexo que literalmente assombra Linda.

Remetendo, por exemplo, a obras como Mãe de Aronofsky e Tully de Ivan Reitman, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um bom exemplo de como relegamos a condição da mulher nem sempre apta para a maternidade; isso não quer dizer renegar suas responsabilidades no momento que isso acontece. Essa obrigação deflagra uma série de traumas – profundos até – vindo da sociedade extremamente exigente com a mulher, onde seus desejos e objetivos são vistos como secundários diante da maternidade. Entretanto, no caso de Linda, esperamos que ela possa finalmente se ancorar naquilo que seu coração mandar.

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Rodrigo Rodrigues

"Todo filme é político na medida em que política é toda forma de relação humana em que o poder está implicado" (Costa-Gavras)

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