Crítica: Big Jato

Big_jato-cartaz Crítica: Big JatoBig Jato

Direção: Claudio Assis

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Elenco: Matheus Nachtergaele, Rafael Nicácio, Marcelia Cartaxo, Gabrielle Lopez, Vertin Moura, Fabiana Pirro, Pally Sirqueira e Jards Macalé

‘A curva é que dá sentido a estrada’

Vivendo no sertão, mais precisamente na cidade de Peixe de Pedra, Francisco filho (Nicácio) acompanha a dura rotina de Francisco pai (Nachtergaele) na boleia do caminhão que dá o nome ao filme. Único veículo da região a tratar as fossas e esgotos da cidade, o veículo é símbolo apropriado ao termo ‘um filme que fede verdade e cheira sonho’. Um mundo que se contrapõe entre o sonho e dureza, ou como tão bem disse um dos personagens ‘Um mundo de liberdade e exclusão’.

Misto de fábula com uma realidade bem brasileira, o filme do diretor Claudio Assis é hábil ao equilibrar estes contrapontos auxiliado por diálogos que exalam poesias com tons teatrais. Mas ao mesmo tempo, e principalmente pela boa direção de Assis ao conduzir as cenas , jamais comprometem a narrativa, e inclusive para estes momentos a direção insere de maneira pontual a presença do compositor Jards Macalé com o personagem Príncipe, uma espécie de figura mística que aconselha o protagonista.

A direção de Assis também é competente por sempre tentar tirar algo a mais das cenas. A câmera constantemente percorrer os atores em seus diálogos, quebra da quarta parede e abusa dos ângulos plongèes principalmente nas cenas que se passam dentro do prostíbulo deixando o público acima e julgando tais atos. Atos que representam o tradicionalismo e cultura para o rito sexual de passagem para a vida adulta de Francisco filho.

O roteiro de Hilton Lacerda baseado no livro do escrito Xico Sá, trata tudo com um grande aprendizado para Francisco filho (Nicácio), mas para isso, suas ‘influencias presas’ deverão vir à tona e ultrapassar seus conflitos pessoais representados nas duas mais importantes figuras de sua vida no que diz respeito as sua influências: Pai e Tio – ambos interpretados pela força maior do filme Matheus Nachtergaele. Transitando entre Francisco Pai e Nelson, a ator personifica toda a gama de sentimentos que são fundamentais para as influências do jovem Francisco : de um lado uma vida de desesperanças e sem perspectivas, do outro lado um vida de indecisões. Entretanto, ambos os caminhos sem volta.Big_jato-meio Crítica: Big Jato

Francisco pai é a vítima maior daquela da vida de dureza e limitações financeiras e sociais, criando seus 3 filhos a base do velho e rígido sistema patriarcal machista, onde o gosto do caçula pela poesia e as palavras é visto como falta de masculinidade e que deseja que seus filhos não tenham o mesmo destino que ele. Um homem que tende a levar tal contexto ao níveis condenáveis , ou como ele mesmo dia ‘tem coisas que somente se devem falar para prostitutas e não para a esposa’.

Enquanto isso, Nelson não poderia sair exatamente como um lado oposto de Francisco Pai, pois de certa maneira, apesar de ser mais erudito e sonhador ainda é uma figura frustrada, presa naquele mundo por não ter tido a coragem para largar o passado para viver sua liberdade. Assim passa a vida como locutor de uma pequena rádio, cuja metáfora lírica do próprio filme é vista através de sua banda preferida, Os Betos (que teria sido plagiada pelos próprios The Beatles) e sua auto ilusão de ser algo mais descolado com  seu inglês irreconhecível.

O ator consegue transitar da esperteza típica do homem do sertão para a crueldade e violência como forma de correção de maneira orgânica, onde a figura dos dois personagens jamais de confundem, mas sempre se completam. Assim não é ilógico e não menos belo ver como os personagens moldam o pensamento e corpo de Francisco filho. Seus amores, desejos e frustrações são personificados naqueles que o cerca e serão fundamentais para tomada de decisão.

Amores este, representado na jovem Ana Paula, que talvez seja o único porem do longa ao sofrer com uma abordagem sexista. Ao mostrá-la como um objeto sexual de maneira gratuita, como vista na cena em que a personagem ouve a uma mensagem pelo rádio de Francisco filho, a cena se torna desnecessária pelo fato de não estar inserido em qualquer contexto do filme.

Simples em sua história , mas possuindo um contexto de dureza social , não somente abraça a arte com amor, como demonstra que para tal beleza é mais do que necessário sentir certo odor fétido da vida. Mas a recompensa será válida e imensurável,  pois aquele menino tem um mar de mundos a sua frente . Tomemos como inspiração!

Cotação 4/5
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

3 thoughts on “Crítica: Big Jato

  1. Vou contrariar a tendencia de elogios a BIG JATO. Para mim, esse é o filme mais fraco de Cláudio Assis, embora “Baixio das Bestas”, que não trata de merda, seja o mais repulsivo. Não conheço o livro, mas o que encontrei na tela foi um festival de frases prontas encobrindo uma dicotomia bastante déja vu. O menino Xico é um personagem cuja formação é disputada por dois polos: de um lado, o pai desentupidor de fossas, homem aferrado ao trabalho duro, ao cálculo, ao machismo e ao lugar onde vive (um fóssil); de outro, o tio radialista, um tipo anarquista, amante da poesia e dos voos da imaginação. Resumindo: a Matemática e a Poesia, as convenções e a transgressão, Apolo e Dioniso.

    Apesar de todo o fraseado verbal e camerístico, a dualidade é muito esquemática para trazer algo de novo. Xico persegue o primeiro amor e as primeiras curiosidades filosóficas, discutidas com um louco de aldeia (Jards Macalé), sem que nada disso repercuta para além da superfície das imagens e dos diálogos. A sensação de vazio e de reiteração é inevitável. A ferramenta de Cláudio Assis para extrair poesia do abjeto, desta vez, emperrou.

    A direção de Assis tem nesse filme seus momentos menos felizes. Se escancara o espaço para os solos fenomenais de Nachtergaele (a grande razão de ser do filme), obtém do menino Rafael Nicácio uma atuação inexpressiva e deixa outros coadjuvantes incorrerem em divisões erradas na fala e ações encenadas de maneira canhestra. A sequência da surra de Xico é particularmente vexaminosa pela combinação de exageros e insuficiências. Apesar de alguns bons lances de humor e da nobre intenção de expandir ideias sobre o choque de sentimentos do sertão, a meu ver BIG JATO fica a zilhômetros de distância do Assis pleno e delirante de “Amarelo Manga” e “A Febre do Rato”.

  2. nós temos bons filmes brasileiros heim… não é só sertão ou favela… rs… nada contra o tema que citei, mas temos mais nesse país além disso…

    1. RICHARDINHO

      Obrigado pelo comentário. Realmente o cinema brasileiro não é somente um gênero. Infelizmente, pouco da nossa diversidade cinematográfica (uma das maiores do mundo) chega ao grande público.

      abraços,

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