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Crítica: Moonlight – Sob a Luz do Luar

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Moonlight – Sob a Luz do Luar

Direção: Barry Jenkins

Elenco: Mahershala Ali, Jaden Piner, Jharrel Jerome ,  André Holland , Alex R. Hibbert , Ashton Sanders , Naomie Harris , Trevante Rhodes e Janelle Monáe

Moonlight – Sob a Luz do Luar é belo. Uma obra usando toda a relevância que o cinema pode nos conceder, tanto conceitual quanto narrativamente falando. Um longa que aposta constantemente numa narrativa delicada, cheio de simbolismos e rimas visuais, apresentando de maneira sensível todo o arco e conflitos de um jovem em desenvolvimento.

Chiron (na fase infantil interpretado por Jaden Piner), após umas de suas fugas de agressores da escola em que sofre Bullying, acaba conhecendo o traficante Juan (Ali) e sua esposa Teresa (Monae) e amizade se transforma no ponto de partida para o amadurecimento e uma jornada de autodescobrimento que perpetua durante a infância, a adolescência e a fase adulta do jovem. Mahershala Ali, desde sua primeira aparição (e com pouco tempo de tela diga-se de passagem), mostra grande empatia apesar de sua ocupação não vista , obviamente, como um dom, mas  um caminho sem volta trilhado há muito tempo. Contudo, isso não significa uma valorização de um traficante e seus malefícios, mas como certas convenções e preconceitos podem ser quebrados principalmente quando nos perguntamos como ou porque ele chegou até ali e o contexto em que habita. O roteiro do próprio diretor transforma o relacionamento dos dois num exercício existencialista, paternal e de influências do ambiente que os cercam tendo consequências diretas no futuro do jovem – assim, imediatamente, por não apresentar uma história com uma estrutura com um início, meio ou fim definidos, nos remete a um Boyhood com maior contexto social, racial e obviamente sexual.

Não temos como ficar indiferente ao cenário em que vive Chiron, convivendo desde cedo com a instabilidade familiar e violência que dolorosamente vem também da única pessoa que tem no mundo. Assim, temos inicialmente no relacionamento materno moldado pelo natural instinto protetor (obviamente pelas consequências do contato de Chiron com Juan pode causar ), mas que aos poucos vai se deteriorando pelo vício da mesma mantido pela prostituição. Confirmando assim, a bela atuação de Naomi Harris que a cada aparição notamos o estágio avançado de degradação física e psicológica pelas suas “escolhas”, mas deixando sempre transparecer o amor pelo filho. Tanto que para salientar tal relacionamento por vezes  a direção contrasta a fotografia avermelhada (amor e violência) e planos alternados sugerindo o embate entre filho e mãe . Ademais, vale ressaltar a direção aposta também em tons mais amarelados em seu início para aos poucos introduzindo uma palheta mais azulada, principalmente quando Chiron entra em contato com a natureza que se torna pano de fundo para seu afloramento sexual (inclusive Black Boys Look Blue é o nome da peça em que se baseia o filme). Moon_meio Crítica: Moonlight - Sob a Luz do Luar

A construção de Chiron e sua complexidade emocional são algo tão delicados em sua concepção que baseados em pequenos gestos e ações, se tornam tão eficazes e belos por toda a herança da narrativa. Onde não temos como deixar de comentar o longo travelling no inicio do filme, como antecipasse todos os conflitos e instabilidade da história – o que, pelo contexto social e abordagem, há uma óbvia inspiração de Cidade de Deus de Kátia Lund e Fernando Meirelles). Tanto que na fase adulta (interpretado por Trevante Rhodes) ele ainda se mantem com um homem por vezes andando com a cabeça baixa, gaguejando,cujo comportamento demonstra sempre estar em eterno conflito com seu interior. Todavia, isso não se restringe somente ao protagonista, mas até mesmo Kevin demonstra uma pessoa com tantos dilemas e conflitos a ponto de desafiar o preconceito e estereótipos usando uma quebra de quarta parede para encarar a platéia, que a esta altura parte do público já esta o julgando pelas suas orientações. Não se restringindo a nenhuma aspecto narrativo, a edição de som e trilha (com graves do piano) também faz um trabalho elogiável ao apostar sempre em momentos sensoriais que personificam o estado de Chiron (isso quando não o faz principalmente usando o silêncio), como tentasse a todo custo se manter longe dali ao mesmo tempo em que se põe o espectador no seu lugar, como na cena, ainda adolescente, que ele é sabatinado pela diretora da escola e apenas focando os gestos da mulher sem qualquer som ao redor (assim como também soa certa particularidade, principalmente para os ouvidos e olhos do público brasileiro, a inclusão de Cucurrucucu Paloma de Caetano Veloso).

Com diálogos em sua maioria curtos e certeiros, vimos que aquelas palavras ecoam sinceridade e beleza que juntas com o restante da narrativa se tornam emblemáticas. Como na cena em que Chiron questiona sobre o fato de Juan vender drogas, ou quando, na cena da praia com todo o simbolismo, Juan apresenta o mundo ao jovem servindo com um bela transição para o terceiro ato. Contudo, é ainda nos detalhes que o relacionamento se torna altruísta ecoando em vários momentos. Fora a já conhecida cena entre Juan e Chiron na praia, reparem também no fato do jovem, em determinada cena, sentar-se a mesa voltado para a rua – remetendo o que o próprio Juan disse jamais fazê-lo para não ser pego de surpresa, pois precisaria saber quem ou que estava vindo (profetizando quando de oprimido, Chiron se torna o opressor). Assim, no seu clímax, a direção não perde um momento sequer em manter sua lógica visual e narrativa. Reparem novamente na delicadeza (e novamente a simbologia) dos gestos de um personagem ao preparar um alimento. Assim quando Kevin cumprimenta Chiron, temos um evocativo plano que ainda é reflexo, um eco, do relacionamento e amizade  nunca esquecida. Ou quando a câmera corta para a rua (remetendo a famosa cena do telefone em Taxi Driver) para em seguida se voltar para Chiron criando, de maneira sutil, uma gama de conflitos que remetem imediatamente ao fato de há dois mundos que para a sociedade são quase antagônicos e, portanto, a necessidade de sempre manter as aparências (algo ratificado pela necessidade que Chiron tem em manter seu corpo em forma).

Após o longa, somos compelidos a entender – e principalmente sentir – que somos resultado de uma série de influências, medos e dúvidas. Portanto, precisamos aprender diariamente que independente disso, o amor e empatia é fundamental para sobrevivermos ao que virá a frente. Não podemos deixar que o medo, o ódio e preconceito vindo de um sociedade injusta e ignorante subjugue tais elementos.

Cotação 5/5

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Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu ainda jovem certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini , Antonioni , Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

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