Crítica: Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait of a Lady on Fire)

DireçãoCéline Sciamma

Elenco: Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami, Christel Baras e Valeria Golino

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Nota 5/5

Quando sabe que acabou? – Quando paramos!

Retrato de uma Jovem em Chamas é uma obra de extrema magnitude ao tratar de conflitos do universo feminino de maneira delicada e única; sendo imperdoável que a obra não tenha sido escolhida como representante francês de filme estrangeiro para o Oscar depois de ter ganhado dois prêmios no festival de CannesUm longa de rara beleza, abordando saudades, liberdade e dores que a distância e a idealização de um amor. Assim, ao trazer diversos simbolismos, principalmente a mitologia de Eurídice e Orfeu, a diretora Céline Sciamma consegue também a proeza de tornar sua obra uma espécie de retrospectiva da visão feminina na própria arte e toda a negação imposta à mulher. Ademais, ao mencionar a tal mitologia , seríamos capazes de descermos ao inferno condenatório (leia-se sociedade) em busca do amor perdido ou aceitaríamos as memórias como se não suportássemos as dores – e prazeres – destes sentimentos novamente?

Contratada por uma condessa (Golino) para pintar o quadro de sua jovem filha Héloïse (Haenel), moradora de uma isolada ilha britânica e que se recusa a aceitar um casamento arranjado em meados do final do Século XVIII, a igualmente jovem, mas experiente pintora, Marianne (Merlant), precisa usar toda sua habilidade para terminar a obra sem que Héloïse saiba que está sendo usada como modelo. Uma vez que ela se nega ser pintada sem seu consentimento por não querer ser tratada como objeto de adoração de um homem que sequer conheceu. A partir dessa premissa, somos levados à uma obra de desejos e idealizações de duas pessoas que vão desvendando seus segredos delicadamente como um quadro em branco lentamente preenchido pelas silhuetas e recordações de detalhes que, no caso de Marianne, precisam ser capturados de maneira discreta através de olhares sem que sua fonte de inspiração saiba; trazendo um elemento delicado e  ao mesmo tempo belo de admiração crescente.

Agigantado ainda mais por trazer a visão particular de sua diretora – e ao mesmo tempo universal daqueles sentimentos envolvidos -, Retrato de uma Jovem em Chamas fomenta os conflitos de um estado de uma função inegável de entrega de duas mulheres num período sem qualquer igualdade ou esperança, a não ser a de serem sufocadas pela sociedade patriarcal (como hoje, infelizmente). Tristemente representado, por exemplo, em um relato sobre uma trágica perda passada de uma das personagens (“Como sabe que ela pulou? – Ela não gritou”). Um clamor silencioso de um período em que a tentativa da mulher avançar em uma carreira artística sem restrições era praticamente nula (tanto que Marianne é proibida de usar modelos masculinos devido à anatomia e Héloïse demonstra inocência e desconhecimento que uma música pode causar em uma vida de reclusão) ; não sendo à toa que a única e rápida presença masculina do filme sirva para quebrar um ciclo de confiança do ambiente tido como sagrado.

Fotografado brilhantemente por Claire Mathon, a obra apresenta de maneira encantadora as cores, texturas e sombras ao trazer significado para os sentimentos evocados através dos figurino e design de produção; se o azul é uma cor presente em quase todo o longa (através de elementos em cena, como as cores das cortinas do quarto de Marianne e simbolizando a presença de Héloïse), é nos contrastes que a obra traz ainda mais significados como o fato do mar ser visto como uma trágica fuga para Héloïse, mas também uma resignação pela morte da irmã. E o fogo simbolizando Marianne, surge representado também pelo seu figurino vermelho usado praticamente durante todo o filme –  e apenas, mas em um importante momento, Marianne assume as cores de Héloïse como uma herança e homenagem! Ademais, trazendo belas paisagens à beira do mar, emulando isolamento necessário para o relacionamento entre as moças, as imagens são quase pinturas de mulheres em um lugar a esmo se descobrindo. Inclusive,  Mathon aposta também em pouca luminosidade, alimentando uma atmosfera de mistério da mansão podendo ser usada como um elemento  para um local sem vida sendo transformado em um ambiente cada vez mais confortável a medida que o relacionamento entre Héloïse e Marianne avança.

Construindo a narrativa das duas mulheres com uma delicadeza e beleza espetaculares, a obra lentamente nos envolve em cada detalhe desta descoberta, seja pelos planos detalhes nas mãos das personagens (uma em busca da outra), como no fato de Marianne fixar o olhar nos contornos do corpo e cabelos ao vento de Héloïse . Um elementos narrativo importante na construção da pintora em ter que se lembrar de cada detalhe da musa inspiradora em pequenos reflexos e  nuances,  mas ao mesmo tempo tentando expurgar inutilmente a imagem de Héloïse, como uma luta interna para tentar ver a amada somente como uma pessoa a ser pintada. 

Imagens, corpos e olhares que se fundem em meio a noites de desejos e entregas como jamais imaginado pela duas, mas sem ser exatamente um jogo de sedução e sim de entrega sem apelo. Ao trazer seus corpos, a diretora exerce um respeito e erotismo ímpar na intimidade daquelas mulheres e suas particularidades, como por exemplo, no plano do espelho remetendo ao visto em Uma Mulher Fantástica.

Contando com duas performances que se completam ao transmitirem seus anseios reprimidos de maneira elogiável, Merlant inicialmente assume o profissionalismo a todo o custo para lentamente se colocar em uma posição de insegurança e a busca por sua “obra”, assim Haenel envolve sua personagem, antes vista como dócil, em uma aura de mistério e desconhecimento quase adolescente (“como é amar?”) para insurgir em um relacionamento sem qualquer tipo de cobrança e elevando com apenas um sorriso, mesmo com dificuldade, um sentimento jamais sentido. 

Mas não somente isso, pois tratando outros dilemas como aborto (visto aqui quase como algo merecedor de enforcamento pela sociedade, através da importante participação da personagem Sophie como um elo temático essencial no filme), a diretora inclui os estigmas da própria feminilidade e do misticismo trazido por tal elemento no imaginário coletivo através dos séculos na sequência em que as protagonistas se encontram com outras mulheres no meio da noite como uma convenção – já uma das mais belas e inesquecíveis sequências do ano, tanto pelo contexto quanto pela trilha cantada à capela.

Permitindo ao espectador se envolver diretamente na interação de suas personagens, Retrato de uma Jovem em Chamas entende os sentimentos envolvidos e todos os sacrifícios e obstáculos que um relacionamento deste terá. Como uma catarse de sentimentos em seu espetacular e poderoso final, somos compelidos de todos os amores, medos e frustrações de algo que tivemos de deixar para trás. Triste por não seguir adiante frente a uma sociedade que jamais permitiria isso como um fantasma que não será exorcizado? Com certeza e essa talvez seja a maior dor possível quando nos colocamos no lugar das jovens.

Mas quando Marianne e Héloïse olharem para trás, aceitamos tais acontecimentos como uma verdadeira obra prima a ser admirada por toda a eternidade!

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FB_IMG_1634308426192 Crítica: Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait of a Lady on Fire)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

10 thoughts on “Crítica: Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait of a Lady on Fire)

  1. parabens bela critica captou a mensagem e o clima do filme a maioria so se prende na historia em si

    1. Laiza Meirelles
      Bem vinda
      Muito obrigado por ler nossa crítica e pelo elogio. Acho que esse é o papel da crítica.

      Abraço

    1. Ellen
      Bem vinda
      Acho que discordei um pouco. O filme não mediano, até porque o fato do final ter sido impactante foi justamente por ter criado toda a atmosfera para aquilo. Não adiantaria nada se não tivéssemos nenhuma identificação com o romance e ter um final daqueles. Soaria , neste caso, forçado. Um filme é feito de experiencias acumuladas enquanto o assistimos!

      Sua opinião sempre será válida.
      Abraço

  2. dificil ver um site que fale tanto dos filmoes blkc busters como filmes intimistas como esse parabens

    1. Matheus,

      Bem vindo. A crítica realmente não pode jamais se atrelar apenas um gênero. Infelizmente muitos sites se esquecem disso!

      Abraço e muito obrigado mesmo pelo comentário.

  3. o filme é melhor pelo sentimento que passa do que pelo filme em si, mas ainda assim é muito bom, recomendo, super sensivel e romantico do ponto de vista de sentimento, amor, apoio, companheirismo, sentido na vida

  4. Crítica maravilhosa, bem sensível. Filme belíssimo. Cenas em forma de quadros. Para mim, uma obra prima. Mãe, filha, criada,três mulheres de olhar triste, todas não podem escolher seus caminhos. Resta, para aquelas duas jovens, no último instante, olhar e guardar, no santuário da memória, os breves e intensos momentos vividos . Que olhares… Perfeito!!

  5. Crítica maravilhosa, bem sensível. Filme belíssimo. Cenas em forma de quadros. Para mim, uma obra prima. Mãe, filha, criada,três mulheres de olhar triste, todas não podem escolher seus caminhos. Resta, para aquelas duas jovens, no último instante, olhar e guardar, no santuário da memória, os breves e intensos momentos vividos . Que olhares… Perfeito!!

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