Crítica: Backrooms: Um Não-Lugar
Direção: Kane Parsons
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell, Avan Jogia, Robert Bobroczkyi, Ember Ambrose, Krista Kosonen, Philip Granger, Katharine Isabelle, e Peter New
Admito desconhecer, até o momento, o conceito dos Backrooms na internet: curtas que viralizara mostrando locais com corredores praticamente infinitos, usados como base para um terror psicológico gerado pelo desconforto e pela estranheza, tendo no jovem diretor estreante em longas, Kane Parsons, um de seus principais divulgadores. Não seria errado apontar esse movimento como algo semelhante — guardadas as devidas proporções, já que a internet ainda engatinhava — ao que foi feito em 1999 com A Bruxa de Blair.
Entretanto, nada disso tira os méritos de Backrooms; pelo contrário. Ao explorar tão bem essa linha entre o real e a ficção/terror, gerando constante incômodo ao espectador, permito-me até relevar algumas decisões tomadas para atender, em determinado momento, a uma parcela do público que necessita de respostas únicas e pré-estabelecidas — algo que me causa certa decepção pela convenção que o cinema muitas vezes precisa atender. Ainda assim, prefiro elogiar o diretor quando ele passa boa parte do tempo usando a narrativa como metáfora para a representação do declínio psicológico dos personagens.
Dormindo em sua loja de móveis, que passa a maior parte do tempo sem clientes, Clark (Ejiofor) culpa sua frustração e seu alcoolismo pelo abandono da mulher, que vemos apenas rapidamente em uma fotografia. Portanto, suas sessões de terapia com a psicóloga Mary (Reinsve) servem para controlar seus impulsos e ajudá-lo a seguir em frente. No entanto, um acontecimento estranho em sua loja o leva para um lugar que transita entre o real e o imaginário.
Assim, explorar os corredores e as salas desse gigantesco local é claramente caminhar pela própria mente em busca de respostas para suas aflições. Não deixa de ser interessante que o filme busque inspirações no conceito alucinógeno de Alice no País das Maravilhas e, por que não, em Quero Ser John Malkovich. Inclusive, há um movimento de câmera que considero bastante simbólico, quando acompanhamos, de cima para baixo, os níveis dos andares cada vez mais desconstruídos, como se a mente voltasse a um estágio de inconsciência.
Aliás, é bem-vindo que Parsons tome decisões para potencializar o estado mental dos personagens, como o uso de planos plongée para sugerir vulnerabilidade durante diálogos, por exemplo, entre Clark e Mary. Elementos que se tornam ainda mais bizarros ao trazer cenários com características surrealistas e expressionistas, compostos por móveis, roupas e manequins amontoados, dando a impressão de uma espécie de covil. Tudo isso é auxiliado pelo ótimo trabalho de fotografia, que explora grandes espaços negativos, além das constantes luzes e dos ruídos das lâmpadas fluorescentes.
Percepções que também atingem a própria Mary devido aos traumas causados pelo estado mental que a mantinha presa em casa durante a infância. Já adulta, ela precisa testemunhar a destruição de sua antiga casa pelas mãos de uma construtora. E, como mencionei anteriormente, as andanças pelo misterioso local causam desconforto por não sabermos exatamente o que é aquele lugar, quem ou o que está à espreita e por haver pessoas observando por câmeras. Por mais que isso possa soar mundano, não deixa de ser perturbador.
Assim como Renate Reinsve, Chiwetel Ejiofor também é um ator de quem gosto bastante e toma decisões simples que fazem Clark surgir ameaçador e frágil ao mesmo tempo, como tremer os dedos durante as consultas ou insistir com fúria sobre Mary (e vice-versa) quando ela interpreta sua esposa. É impossível ficar imune à ótima interpretação de ambos na tenebrosa sequência do jantar.
Em seu terço final, ao entregar-se mais ao terror físico do que abraçar completamente o conceito psicológico e aberto do local, Backrooms: Um Não-Lugar parece querer explicar — sem necessidade, a meu ver, e de forma um tanto confusa — alguns dos elementos e personagens presentes ali, bem como seus objetivos. Ainda assim, não acho que isso prejudique a experiência, pois o filme consegue deixar espaço para interpretações.
A obra perturba, gera um sentimento de vazio e desespero ao nos fazer caminhar por um local além da compreensão, onde todas as nossas lembranças se transformam em nossos piores medos. E isso pode nos deformar para sempre.
Rodrigo Rodrigues
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