Crítica: A Odisseia
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Zendaya, Lupita Nyong’o, Charlize Theron, Jon Bernthal, John Leguizamo, Himesh Patel, Elliot Page, Benny Safdie, Samantha Morton, Mia Goth, Corey Hawkins, Jovan Adepo, Bill Irwin, James Remar, Logan Marshall-Green, Jesse Garcia e Travis Scott.
A adaptação de Odisseia, escrita por Homero há quase três mil anos, por si só já seria digna da jornada do herói protagonizada por Odisseu. Os poemas narram o retorno do oficial grego após os dez anos da Guerra de Troia, retratada na Ilíada, e mais dez anos de uma árdua viagem de volta à sua cidade, Ítaca, além de evidenciarem a profunda influência que essas obras exerceram sobre a cultura, os ritos e a literatura ocidental ao longo dos séculos. Consequentemente, a complexidade das tramas e dos personagens impõe um peso a quem ousar transpor seus milhares de versos.
Não é menos admirável, portanto, que Christopher Nolan, cineasta conhecido por sua abordagem racional, consiga encontrar um equilíbrio temático ao adaptar essa jornada para o cinema. Evidentemente, não se trata de um elemento inédito, e o foco do diretor é sempre a fúria das ações como mote principal. Ademais, a história já recebeu outras versões cinematográficas que reinterpretaram os poemas de Homero, cada uma sob uma perspectiva particular dentro de uma narrativa universal: desde a produção de 1954, estrelada por Kirk Douglas, até a leitura existencialista proposta pelo recente O Retorno, com Ralph Fiennes. Além, é claro, dos filmes da Sessão da Tarde, com a genialidade do stop motion de Ray Harryhausen, que trabalhavam elementos comuns da cultura grega.
Contudo, ao trazer constantemente a “Lei de Zeus” como fundamento para a prática da benevolência com os estrangeiros, esse senso de retribuição pode preceder uma matança para alimentar-se do caos e do sangue daqueles que nada fizeram para merecer tal violência — a não ser serem diferentes em suas crenças e costumes. Ou vão me dizer que não ficaram sensibilizados pelo que ocorreu com o Ciclope, que apenas cuidava tranquilamente de seu rebanho? E, por mais que possa parecer um embate mítico sobre a coragem de enfrentar o monstro, isso em nada difere dos dias de hoje, quando o “ser diferente” já é motivação, por exemplo, para agressões ou invasões de territórios em nome do Deus Capital.
Ainda assim, mantemos o interesse pelas andanças e pelos perigos que Odisseu (Damon) enfrenta, pois ele próprio conhece os horrores que nem o mais profundo dos aposentos de Hades será capaz de apaziguar. Assim, a personificação dos deuses é tratada como uma lógica desacreditada por Odisseu, simplesmente porque tais figuras não manifestam suas respectivas presenças. Trata-se do pensamento de alguém em transição moral, incapaz de perceber que esses deuses estão sempre presentes na força da natureza. Sendo assim, a sociedade torna-se incapaz de identificar esse componente, como se esperasse uma intervenção literalmente vinda dos céus. Até porque, em um momento chave do filme, uma cena exemplifica bem o pensamento do diretor quando um personagem arremessa armas do andar superior para que um grupo enfrente seu oponente desarmado, ratificando que a ajuda superior para a violência é humana, não divina. E, mesmo quando essa misticidade acontece — por meio da presença de Zendaya como Atena e de sua constante preocupação com Odisseu —, permanece, a meu ver, a tentativa do roteiro de deixar margem para que sua presença seja interpretada como uma personificação da culpa do protagonista pela matança da qual participou.
Claro, por se tratar de um filme dessa magnitude e dos atos de Odisseu, envolto em batalhas contra criaturas mitológicas, a narrativa acaba se equilibrando em direção àquilo que Nolan faz tão bem. Mas isso não é um problema, até porque seria inevitável que o roteiro enveredasse por esse caminho. E nem essa era a intenção do diretor. Além do mais, é evidente que o roteiro se apressa demais em seu início, agindo com receio de explicar rapidamente como chegamos ao começo da jornada (os eventos posteriores à Guerra de Troia). E, se, para o público que não conhece a história — e até mesmo em função da narrativa cinematográfica —, enxugar alguns pontos era mais do que necessário, também é verdade que, independentemente da obra que inspira o filme, ele ainda precisa funcionar como cinema, e a fidelidade cobra seu preço; é a mais notadas das diferença é agrupar os acontecimento na ilha de Lotófagos com as ações na ilha de Calipso. Contudo, a direção de Nolan mantem sua estrutura sem impactos, mesmo trabalhando como núcleos de personagens diferentes sem comprometer o ritmo do filme com quase 180 minutos de duração.
Assim, as aventuras de Odisseu e de seus comandados acabam proporcionando um belo espetáculo visual, potencializando as virtudes — e, sim, alguns defeitos — de Nolan. Se seus cortes podem prejudicar a mise-en-scène da ação, chama a atenção o fato de que a gigantesca razão de aspecto de 1.43:1 do IMAX 70 mm não será vista pela grande maioria do público. Contudo, não acho que haverá uma perda significativa ao assistir ao filme em uma tela convencional de 2.39:1 (35 mm); ainda assim, se puderem vê-lo na maior tela possível, a experiência será mais proveitosa. Nolan também preenche muito bem os espaços — ou a falta deles — de acordo com o contexto, como na sequência que coloca o espectador junto dos soldados dentro do Cavalo de Troia, em completa escuridão, ou reduzindo o espaço por meio das sombras durante o ataque do Ciclope, chegando a grandes planos de escala épica como a perseguição em Hades. Da mesma forma, é elogiável o desenho de som ao colocar o espectador na posição dos soldados, com os ouvidos tampados por cera para não ouvirem o canto das sereias nem os gritos de Odisseu, que não escutamos, apenas sentimos. Interessante notar que, ao contrário das demais criaturas, as sereias são vistas apenas envoltas na névoa, aumentando o suspense sobre suas formas e o destino de suas vítimas. Ademais, esse mito ligado às lendas marítimas é engrandecido pela presença de Samantha Morton como a feiticeira Circe, cuja forma de manipulação é mostrada de maneira literal, obedecendo a uma lógica — horripilante claro — saída da mente de Nolan. Inclusive, nesse momento, sentimos todo o peso das crenças marítimas que permeiam o imaginário coletivo.
Falando rapidamente sobre o elenco, ainda não ficou muito claro, para mim, qual é o critério da Academia para a nova categoria de Melhor Elenco do Oscar. Acredito que reunir uma grande quantidade de rostos conhecidos, cujas atuações atendam bem à proposta do filme, seja um dos caminhos para conquistar a estatueta.
E isso A Odisseia faz muito bem.
Matt Damon transmite com convicção a imagem de um homem perdido, cansado e consumido pelo peso de suas escolhas. Mesmo diante de Calipso (Charlize Theron), moldando sua permanência à flor de lótus, acompanhamos um protagonista preso entre o místico e o sangue derramado de povos distantes. A Odisseia possui um lado cruel, sendo justamente esse o ponto de partida para Odisseu buscar uma verdade essencialmente humana. Da mesma forma, Anne Hathaway transforma Penélope, à primeira vista, na esposa tomada pelo luto, mas que se opõe à condição de mulher resignada, levando sua interpretação ao limite com prudência.
E, se as rápidas aparições de Benny Safdie como Agamenon — imponente graças ao figurino — e de Jon Bernthal como Menelau como importante figura tanto pelo contexto histórico quanto pelas consequências de suas ações para o corajoso, porém imaturo, Telêmaco (Tom Holland), que se recusa a aceitar o destino da mãe rodeado da escória em busca do poder, Robert Pattinson confirma sua excelente fase ao transformar Antínoo em um vilão clássico: astuto e covarde. Da mesma forma, John Leguizamo confere sabedoria, humildade e dedicação aos seus sentimentos mais leais para com Odisseu.
Mas, para surpresa de ninguém, esse elenco — ainda contando com a presença de Himesh Patel como o imediato Euríloco —, mesmo trazendo um americano e um inglês interpretando, em inglês, dois dos principais personagens gregos (algo historicamente comum no cinema), recebe ataques claramente pelo fato de a personagem Helena (nascida de um ovo de cisne, segundo Homero) ser interpretada por Lupita Nyong’o. E, mesmo com pouquíssimos minutos em cena — assim como Sinon, interpretado por Elliot Page —, continuo lendo as reações daqueles que adoram recorrer à suposta fidelidade histórica de poemas transmitidos oralmente durante séculos (antes de serem consolidados por Homero) para criticar uma personagem cuja aparência física jamais foi descrita, ocultando, na verdade, a própria ignorância.
Enfim, no momento em que a aniquilação de um povo corria o risco de naturalizar o comportamento humano, Odisseu corrói-se por dentro e jamais pretende assumir uma aura divina como prêmio. Sob certo aspecto, ao condensar essas histórias, Homero mostrou-se um otimista ao utilizá-las para denunciar o erro de um povo que massacra outro em nome da vontade divina e o legado destrutivo deixado por esse comportamento ao longo da História. Talvez acreditasse que a eternidade de suas palavras serviria de exemplo para a humanidade — ou, ao menos, para qualquer ideal de convivência que tivesse em mente. E, quase três mil anos depois, Odisseu, o grande herói da Guerra de Troia, provavelmente ainda estaria chorando.
A Odisseia permanece milhares de anos depois por meio de seus ecos. Sua mensagem sempre esteve em interpretar seus versos e perceber a presença divina no mais simples sorriso de uma criança. Além do mais, uma das consultas que fiz para escrever a crítica, foi da professora e escritora Giuliana Ragusa, afirmando também que Odisseia é um filme sobre o retorno a um lugar abandonado há muito tempo ; paralelamente como Interestelar do próprio Nolan.
Como seríamos recebidos nesse lugar? Conseguiríamos reconhecer aquilo que um dia chamamos de lar depois de tantos anos enfrentando monstros internos e externos?
Rodrigo Rodrigues
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