Fim da Rua (1)

Direção: David Robert Mitchell

Elenco: Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella, Christian Convery, Jordan Alexa Davis, P.J. Byrne, Chris Coy, Bethany Anne Lind, Emily Kuroda, Denitra Isler, Hudson Meek, Andrea Frankle, Simms May, Hugo Silver, Michael-Christian Moore, Grayson Thorne Kilpatrick, Johann Mikaiel, Savanna Renee, Pilot Bunch e Douglas R. Weiss.

Com a proximidade do fim da Nova Hollywood, na virada dos anos 70 para os 80, o retorno ao controle dos estúdios foi inevitável. Se antes as produções foram pautadas pelo controle narrativo dos diretores, numa época de profundas mudanças nos Estados Unidos devido à contracultura, ao Vietnã e aos movimentos sociais — culminando em obras que exploravam de maneira crua e pessimista todas as veias conspiratórias, sociais e políticas durante aqueles anos —, a década de 80 foi totalmente oposta com sua fantasia capitaneada por Spielberg. E mesmo sendo um expoente da própria Nova Hollywood, ele marcou para sempre o cinema através de seus filmes fantásticos e, ainda assim, autorais.

Sua influência foi tão grande a ponto de alguns filmes possuírem características tão parecidas com as do diretor que o público achava que o próprio Spielberg tinha dirigido. Goonies e De Volta para o Futuro são dois exemplos clássicos, feitos respectivamente por Richard Donner e Robert Zemeckis. Claro que a influência de Spielberg se faz presente em vários aspectos — ele foi roteirista e produtor dessas obras —, mas, ainda assim, elas possuem assinaturas de seus diretores, que construíram sólidas carreiras (Donner já tinha filmado Superman, em 1978, e estava prestes a iniciar a série Máquina Mortífera, enquanto Zemeckis realizou Uma Cilada para Roger Rabbit, em 1989, e Forrest Gump, em 1994).

Fim-da-Rua_P Crítica: O Fim da RuaMas o motivo pelo qual fiz esse breve resumo para falar de O Fim da Rua, do diretor David Robert Mitchell, é justamente por O Fim da Rua possuir características de seu produtor, J.J. Abrams. No entanto, J.J. Abrams é hoje uma figura que fez sua carreira recriando universos já estabelecidos, principalmente daqueles imaginados por Spielberg. E, ainda que tenha vários méritos dentro dessas recriações – Super 8, por exemplo -, é visível que a originalidade não é seu forte. Ele ainda consegue cometer abominações do nível de Star Wars: Episódio IX — A Ascensão Skywalker, por ser justamente um diretor que trabalha ao bel-prazer dos estúdios.

Mas isso diminui o trabalho do diretor Robert Mitchell? Jamais.

Mitchell se mostrou competente no ótimo A Corrente do Mal (2015), ao usar o terror de forma sólida e investir na atmosfera para explorar os medos dos jovens de classe média diante de uma ameaça invisível. Claro que o ambiente dos anos 80 e as cenas remetendo exatamente aos filmes da época me fazem acreditar que Abrams teve grande poder de decisão na hora do roteiro – creditado apenas ao diretor -, mas Mitchell mostra uma maturidade e decisões narrativas — incluindo seus personagens –  que vão além do próprio casulo contextual que o filme engloba quando eventos estranhos começam a ocorrer em um bairro de classe média estadunidense; ambiente este vindo diretamente da mente do diretor, como visto no filme de 2015. E, pelo cartaz do filme, esses eventos bizarros incluem dinossauros e, por envolver tais criaturas, estamos diante de um Jurassic Park suburbano.

Mas o melhor de O Fim da Rua está em o diretor brincar com essa situação de uma maneira muito fluida, a ponto de nos preocuparmos com a família vivida por Anne Hathaway, Ewan McGregor e seus filhos. Usando um humor por vezes absurdo ou sarcástico – como numa rápida piada sobre aquela situação ser como se fosse um desenho dos Flintstone – e até uma violência gráfica, algo que o próprio Spielberg não fez em 1993, Mitchell também consegue inserir alguns dramas familiares da classe média como subtexto na trama. Mesmo que o objetivo maior seja mostrar como a família irá sobreviver às perseguições, as ações internas acrescentam bem à dinâmica e à identificação dos personagens, seja na preocupação do pai com o sustento da família, da mãe, cujo sonho de se tornar escritora como fuga da rotina vai literalmente por água abaixo, ou dos filhos, que sofrem com a ameaça de separação dos pais.

Muito desse mérito recai também sobre os atores principais, que abraçam organicamente seus personagens. Tanto McGregor quanto Hathaway demonstram entrosamento como um casal, sendo que a esposa se torna a personagem mais forte ao encarar de maneira prática a situação do casal e suas perdas. Não sendo coincidência que o sentimentos das personagens femininas são mais desenvolvidos no ponto de vista narrativo; seja na própria figura de Hathaway ou na filha do casal e na sua amizade com a vizinha e interesse amoroso do irmão. Em contrapartida, é interessante notar que McGregor seja uma figura otimista, enquanto, assim como a maior parte dos homens, seu personagem é mais fatalista, criando um contraste entre eles e até abrindo uma leve discussão sobre Fé x Ciência.

(Interessante notar, do ponto de vista científico, como as criaturas diferem das feitas por Spielberg em 1993; se antes as criaturas eram vistas mais como lagartos gigantes, hoje, depois de pesquisas, descobriu-se que algumas espécies, como o Velociraptor, tinham penas).

Imprimindo um ritmo ágil, o roteiro evita — a meu ver — o erro de tentar explicar algo que é desnecessário, como por que tudo aconteceu ou por que eles precisam ir do ponto A ao ponto B, estabelecendo apenas que precisam adentrar por uma passagem que pode aparecer em algum lugar do bairro . Além do mais, Mitchell e seu diretor de fotografia, Mike Gioulakis, fazem um trabalho eficiente por meio de seus planos longos, não somente exaltando o trabalho da direção de arte, mas também gerando um desconforto pela sensação de que algo – um dinossauro, claro – possa surgir mais ao fundo, como visto na ótima cena do T-Rex. Outro ponto a comentar é o fato de Gioulakis trazer cores quentes e iluminadas, como visto logo na primeira cena do filme, para gerar um ambiente de conforto naquela localidade, que vai sendo quebrado rapidamente com um leve movimento de câmera para criar uma instabilidade. Da mesma forma, as cores vão ficando mais saturadas para somente retornar em seu fim, fechando o ciclo dos personagens. Aliás, por economizar nos movimentos de câmera e evitar exageros nos cortes, o filme acaba gerando um impacto muito maior, como vemos numa perseguição em que a câmera acompanha um personagem para, logo em seguida, mudar de direção para acompanhar outro, em um ótimo plano sequência.

Singelo e sem grandes rodeios em seu final — inspirado na cena final de De Volta para o Futuro II —, O Fim da Rua evita se complicar com quaisquer apêndices desnecessários de como ou porquê aconteceu aquilo tudo . Os pontos são ligados de maneira simples e por mais que, misturar dinossauros em um subúrbio já soe bem estranho, a graça é justamente essa. E como uma arte coletiva que o cinema é, devo colocar tudo na conta do trabalho do diretor David Robert Mitchell e sua equipe envolvida. Apesar do Produtor.

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Rodrigo Rodrigues

"Todo filme é político na medida em que política é toda forma de relação humana em que o poder está implicado" (Costa-Gavras)
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