Direção: Steven Spielberg

Elenco: Gabriel LaBelle, Michelle Williams, Paul Dano, Seth Rogen, Mateo Zoryan, Keeley Karsten, Alina Brace, Julia Butters, Birdie Borria, Jeannie Berlin e Judd Hirsch

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O legado de Steven Spielberg através das gerações é uma parte da carta magna do cinema. Pontuando o imaginário popular em cinco décadas como um dos maiores diretores de todos os tempos, autor de obras como Tubarão (que inaugurou a era moderna do cinema blockbuster), E. T., Contatos Imediatos, Lista de Schindler, Jurassic Park, etc… (é inútil continuar a listar grandes obras dele); o diretor sempre mostrou uma disciplina narrativa exemplar mesmo com obras menores como Cavalo de Guerra, Lincoln, O Bom Gigante Amigo, ao mesmo tempo em que mostra vitalidade em manter seu legado e falando com todas as gerações (como visto nos mais recentes Jogador Nº 1 e o  ótimo remake de Amor Sublime Amor).

Tendo uma rápida e simpática apresentação do próprio Spielberg agradecendo ao público antes do filme, soa óbvia que esse Os Fabelmans seja uma homenagem pessoal à família dele que o influenciou, e claro, um manifesto para a arte do cinema.

Contando também com uma sequência de abertura que já traz um elemento comum de seus filmes (visão da criança e com adultos momentaneamente ocultos), conhecemos o jovem Sammy e seus pais Burt (Dano) e Mitzi Fabelman (Williams) apresentando ao filho pela primeira vez à experiência cinematográfica; no caso O Maior Espetáculo da Terra (1952); e apesar do filme de Cecil B. DeMille ser considerado uma das maiores injustiças em termos de premiação ao vencer o Oscar de melhor filme, o poder dos projetores e das luzes que moviam o filme, marcou o jovem pela sequência final do acidente ferroviário e mudaria para sempre a sua história [e do cinema]. E nesse momento somos tomados por lembranças particulares desse primeiro contato com a telona, e independente de qual filme tenha sido, uma coisa é certa para cinéfilos da minha geração: tal prática provavelmente passou por um filme de Spielberg!

Portanto, ao fugir de maneira tradicional das armadilhas episódicas das autobiografias, temos uma obra contextualizada no próprio estilo fantástico de Spielberg; onde se tudo aquilo foi verdade ou não, aqui não é o mais importante; ainda mais permeado de personagens que parecem transitar entre o real e imaginário – vide a presença do veterano Judd Hirsch – na excelente cena como tio Boris – e também Jeannie Berlin como a ácida Hadassah Fabelman.

Trazendo quase como mágica (na falta de um adjetivo melhor) o processo de criação do jovem Sammy para o então adolescente (interpretado pelo ótimo Gabriel Labelle, com seu olhar transmitindo doçura e medo) é simbólico que as tentativas geniais da criança sejam com um trem  (criando um rima poética com o fato do primeiro filme dos Irmãos Lumiére terem um trem). E é comovente e agridoce que todas as descobertas e aprendizado do jovem sejam intrinsecamente ligadas à sua evolução como ser humano e sempre evocando sentimentos da memória afetiva, Os Fabelmans é categórico de como a arte será um dilema e como tal elemento regerá sua vida, para o bem ou mal; não sendo à toa que os momentos de conflitos sejam vistos literalmente através dos rolamentos dos filmes e das manivelas girando ao seu redor.

O roteiro de Tony Kushner, juntamente com o próprio Spielberg, procura apresentar a essência desses elementos e de como o cinema e arte podem tocar as pessoas e mudar sua visão de mundo através dos olhos de Sammy e  principalmente como seu dom “Dará coroas no céu e louros na terra, mas também arrancará seu coração e o deixará sozinho”. O poder da câmera, da revelação surgindo ao transformar seu olhar na materialização dos medos, alegrias e principalmente na mecânica desses relacionamentos; principalmente o materno.

Não sento a toa que justamente um desses momentos de criação se dá justamente na bela cena de dança de Mitzi no acampamento em que vemos nascer, não somente a admiração pela veia artística da mãe, mas o nascimento de uma de duas assinaturas narrativas – iluminação com uma contra luz ao fundo. Isso sem contar que através das rimas visuais, vemos anteriormente dentro do armário descobrindo o dom cinematográfico para mais a frente servir novamente como local de descobertas (no caso, a dores da mãe com o casamento).

Contando também com o habitual colaborador de Spielberg, o diretor de fotografia Janusz Kaminski, que preenche praticamente todo o filme com um mistura de palhetas entre azul e amarelo, exaltando o relacionamento de mãe e filho em que tal elemento evidencia a influência de Mitzi em Sammy; uma vez que o lado racional é herdado do pai engenheiro, completando assim, o ciclo artístico do filho, que sempre apresenta resoluções criativas para seus filmes.

Portanto, para isso, é elogiável a presença de Michelle Williams novamente fazendo um trabalho excepcional ao transitar entre situações como uma mulher presa entre dois universos, podendo assumir a segurança com Burt e um amor seguro de dona de casa, mas tendo em Bennie (Rogen) a recíproca que a distancia dos filhos – onde Bennie é claramente o expurgo para o pai ausente que tanto o diretor trabalhou em seus filmes.

Uma mulher presa, que vai desgastando mentalmente seus sonhos de pianista, mas que vê em Sammy sua herança artística, ao ponto que Paul Dano traz uma composição amistosa de seu personagem com gestos compatíveis, sempre com seu tom de voz apaziguador e confortante, mas perdendo controle da família aos poucos e mesmo que seja levado a mudar, raramente sua reação é compreensível; sendo interessante que a direção traga sua última aparição num enquadramento espremendo a tela. Ademais, até mesmo a dinâmica entre mãe e filho é reforçada pela trilha sonora do som do piano de Mitzi, com pano de fundo para os dramas de Sammy.

Pontuando o terceiro ato com discussões típicas de um adolescente em um ambiente estudantil e uma paixão conflituosa, Sammy já compreende definitivamente o poder que tem nas mãos ao inflar egos e revidar provocações que sua persona frágil fisicamente jamais poderia fazer. Spielberg ainda arranja um tempo para fazer um pastiche religioso ao trazer a fé católica da namorada como um obstáculo e piadas em geral – como no fato da família judia usar utensílios descartáveis, poupando tempo, e as mãos e um charuto sendo cortado simbolizando uma circuncisão.

Recheando o filme de autorreferências de alguns outros de seus maiores filmes (E. T., claro, Contatos Imediatos, Guerra dos Mundos, Poltergeist) organizadas de maneira coerente e fluida dentro das cenas, Os Fabelmans fornece paixão, dores, traumas, alegrias, fama e influências de Spielberg/Sammy – tanto em gêneros quanto artísticas, numa participação no mínimo genial de David Lynch.

Ele poderia facilmente criar um épico dramático carregando na mão do melodrama, soando até egocêntrico, mas para nossa sorte, o diretor tem poder suficiente para atingir todos os públicos universalmente de madeira lúdica numa época em que o cinema não vislumbra o horizonte de possibilidades como aquele garoto antes de seu primeiro longa-metragem, devido ao desequilíbrio entre o racional e a paixão das produções atuais – algo que Spielberg faz com maestria.

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Rodrigo Rodrigues

Eu gosto de Cinema e todas suas vertentes! Mas não aceito que tentem rescrever a história ou acharem que Cinema começou nos anos 2000! De resto ainda tentando descobrir o que estou fazendo aqui!
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9 thoughts on “Crítica: Os Fabelmans

    1. que exagero… é um filme lindo, uma declaração de amor ao cinema e uma homenagem a um dos grandes diretores queo cinema ja teve, para de ser chato

  1. filme mediano… Spielberg esta numa clara descendente na carreira, conseguiu o bom remake do musical recente, mas filme original dele mesmo, qual o último que dissemos: “uau”??? e pergunto pros que tao elogiando esse filme aqui: se fosse a história de outra pessoa qualquer, ao invés dele mesmo, ou seja, se vcs assistissem o mesmo filme, sabendo que era a biografia do Zezinho da Esquina ao invés do fodástico diretor de hollywood, ficariam tão emotivos? A resposta sincera é nao, pq muito do filme só funciona pq a gente sabe que é do Spielberg que ta falando naquelas cenas bonitinhas. O filme é um Cavalo de Guerra melhorado, um comercial emotivo de margarina com toques de auto-ajuda (mensagens que fazem ter esperança, subir a auto estima, etc)

  2. filme muito bonito, mais uma obra de Spielberg pra deixar nossos olhos marejados, o amor dele pelo cinema é coisa de louco

  3. mais um bom filme dele, so que é mais um “sem sal”, sem nada marcante… bonito e só, esquecivel

  4. o maior diretor de todos os tempos faz um filme sobre ele mesmo… nao tem como nao ser genial!

  5. Uma verdadeira carta aberta ao cinema e a própria família. Spielberg mais uma vez consegue capturar o gênio da lâmpada…

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