Crítica: Colossal

colossal_cartaz Crítica: ColossalColossal

Diretor: Nacho Vigalondo

Anúncios

Elenco:  Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Austin Stowell, Tim Blake Nelson, Dan Stevens e  Sarah Surh

Agrada-me muito dentro de uma obra que para personificação dos medos do protagonista, seu amadurecimento, determinados conflitos e dramas sejam realizados através de analogias, sejam elas mais diretas ou delicadas. Além de confiar na capacidade do público associar um ponto ao outro dentro da narrativa, o recurso (quando usado dentro de um tom de fábula, como visto, por exemplo em A ponte de TerabítiaOnde nascem os Monstros e Peixe Grande e suas histórias maravilhosas) além de visualmente atraente, acaba ajudando a reforçar a idéia . Assim, Colossal se torna uma obra para lá de incomum do diretor espanhol Nacho Vigalondo tendo como pontos fortes as tais das alegorias e a miscelânea de gêneros tão distintos, pautados também numa narrativa eficiente contando com a ajuda de uma sempre carismática e expressiva Anne Hathaway.

O problema é que a direção, infelizmente, ultrapassa o limite desta fábula pessoal para realmente transformar o tal metáfora em realidade onde pessoas que sequer fazem parte ou tenha qualquer ligação com arco dramático da protagonista realmente sejam literalmente atingidas – ainda mais quando tais pessoas veem de uma cidade como Seul. Tudo isso acaba tirando certo ar de introspectividade característico de abordagens comuns ao estilo, deixando assim um gosto de desequilíbrio narrativo de um filme que se mostrava tão interessante, e que por vezes, acaba banalizando – ou no mínimo enfraquecendo – os assuntos de extrema relevância que o próprio filme propôs a discutir como bullying, violência contra a mulher e alcoolismo.

Ao conhecermos Gloria (Hathaway) ela encontra-se desempregada e com um comportamento quase adolescente, vivendo entre festa de amigos e tendo como agravante o problema com a bebida. Tal conduta a transforma numa pessoa em sérios conflitos, principalmente com o namorado Tim (Stevens) que vê a iminência do fim do relacionamento devido a namorada cada vez mais se tornar uma mulher descompromissada e irresponsável. Assim, Gloria parte para sua cidade natal para uma espécie de autodescobrimento, um período sabático, mas ao reencontrar por acaso o amigo de infância Oscar (Sudeikis), ela acaba relembrando suas memórias, amores e traumas que a levaram até ali. Com um início do filme atraente e fugaz (mas ainda sim interessante), o longa soa como uma comédia romântica ou um filme de Wes Anderson (como um personagem ironicamente afirma). Uma obra que possui personagens carismáticos, conflitantes e identificáveis em seus dramas, como o ótimo Garth (Nelson) como um homem vivendo com um ar de certa melancolia, a desconfiança dos amigos pelo seu passado com abuso com drogas, mas ainda sim capaz de mostrar superação e uma personalidade amigável e dono das melhores tiradas.

Ademais, a narrativa é correta ao expor os conflitos e estados da protagonista, por exemplo, de maneira delicada através do próprio ambiente que a cerca, como o uso de um plano detalhe nas bebidas do bar de Oscar simbolizando, que ao se manter naquele local, ela viverá em eterno dilema moral e precisará de forças para superar seu vício. Ou o fato da direção transformar o bar, depois da chegada de Gloria, num local movimentado e iluminado, criando a metáfora para a reconstrução da protagonista, assim como antagonicamente, o anexo do bar, um local antigo e fechado para a maioria das pessoas, ser uma espécie de personificação para a própria mente de Oscar e seus medos ocultos.colossal_meio Crítica: Colossal

Mas a pergunta que devem estar fazendo a esta altura do texto é: “Cadê a tal criatura do cartaz?”. Pois bem. Servindo como a mais profunda analogia psicológica do filme (infelizmente algo que o trailer não esconde e que me leva a divagar que o filme causará certa confusão temática na cabeça do público), o diretor é criativo ao usar tal elemento fantasioso, uma espécie de Avatar como metáfora monstruosa ao estilo de Godzilla, Cloverfield e as produções nipônicas do gênero em si. Não somente para atestar o estado de Gloria com o alcoolismo. Como o fato da destruição que o vício causa ao redor pela pessoa ser levada pelas drogas e não prestar atenção ou não se importar com o mundo que o cerca, podendo ferir e  até vitimar inocentes, mesmo que caia derrotada. Contanto, como o carisma da atriz que exagera na suas caras e bocas, o longa se permite até mesmo a esticar um pouco mais as cenas usando um humor escapista sem comprometer o andamento do filme, como o fato da personagem ter um sério problema em se manter acordada e dormir constantemente em qualquer lugar.

“Andando” entre estes “mundos” de maneira fluída, a direção insere as questões do alcoolismo, abuso e violência contra a mulher vistos na extensão do universo com a personificação da misoginia através de outro elemento comum ao filme inspirado no universo nipônico (como Círculo de Fogo, por exemplo, mas sem uma tônica de filme de ação). Meio estranho de explicar? Talvez, principalmente quando o embate das criaturas assume um lado cômico . Mas o filme consegue de maneira original usar isso a favor, acreditando num contexto maior que o visual da obra se apresenta. Todavia, para ratificar um certa decepção, o roteiro por vezes acaba desequilibrando de maneira irresponsável (principalmente no terceiro ato) suas temáticas e perdendo uma grande oportunidade (devido à sua narrativa em alcançar um público maior) em suas resoluções ao tratar com um ato isolado ou por menor, cujo relacionamento  é tratado por vezes como uma briga infantil e não um homem covardemente afligir uma mulher, como visto na “luta” entre Gloria e Tim.

A linha entre demonstrar e banalizar é tênue, e Colossal transita de maneira bem irregular tais elementos, tanto que ao tentar explicar o porquê do “poder” de Gloria (cujo clima de suspense é criado pela montagem ao incluir a passagem da Gloria e um determinado trauma em sua infancia), acaba soando, se não descabido por estar incluído dentro do contexto fabulesco, no mínimo frágil. Assim como a necessidade da direção ter que criar um “vilão” através do arco dramático de um personagem importante, o que acaba sendo um desperdício de empatia do público, pois nós dedicamos dois atos inteiros para ele, para no final (de maneira abrupta) ser transformado num antagonista babaca e misógino.

Enfim, Colossal julga-se capaz de trabalhar complexos conflitos e problemas da natureza humana, mas acaba ficando na mente mais o gosto de uma ideia que poderia ter rendido algo mais dentro de uma camada de originalidade.

Cotação 3/5

colossal_destaque Crítica: Colossal

 

 

printfriendly-pdf-email-button-notext Crítica: Colossal
The following two tabs change content below.
FB_IMG_1634308426192-120x120 Crítica: Colossal

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

6 thoughts on “Crítica: Colossal

  1. filme sem pé nem cabeça… se eu precisei vir ler uma crítica pra entender do que se trata, isso mostra que ele foi mal feito, certo?

    1. Jose Alberto
      Bem vindo
      Não necessariamente. A crítica não pode servir como um manual a ser seguido pelo leitor. Ela deve servir como um início e não como o fim da discussão. Temos que lembrar que devemos avaliar um filme por como ele é , e não pelo o que ele é. E narrativamente falando , Colossal tem suas qualidades.

      Acho a proposta do filme bem clara : Usar uma alegoria para personificar um conflito de um personagem. Mas se o achou confuso, talvez não seria interessante procurar outros filmes com a mesma temática? Inclusive citei um exemplos no texto. Lembrando, como arte, os filme não precisam seguir um padrão exato.

      Assim sempre que uma obra saia do senso comum, devemos sempre perguntar o que o diretor quis passar com seu filme (ratificando que a sua opinião não será menos correta). Imagine o que seria de diretor como Fellini ou David Lynch se não fosse tais elementos fantásticos ou fora do padrão?

      Obrigado pelo comentário
      Abraços

    2. perguntei mais no sentido de que o filme devia ser uma experiencia completa, que se permitisse entender… se eu assisti e nao entendi, acho que houve falha nesse sentido, afinal nao me considero burro, se bem que tb nao sou entendido no assunto, mas se um filme so pode ser compreendido por quem é estudioso de cinema isso tb nao significa que tem algo errado, ja que o filme é feito para todos os publicos?

    3. Jose Alberto,

      Bem vindo novamente e peço desculpas por qualquer mal entendido ou julgamento da minha parte a sua capacidade de entender o filme.

      Quanto à necessidade de um filme se fazer entendido (ou não) ser um defeito (ou qualidade), você está certo em levantar tal questionamento e a crítica deve servir para isso também.

      Um bom filme (através do seu diretor e roteiro) deve sim, se fazer claro ao publico em geral. Mas, existem filmes que se tornam confusos ou não tão claros em suas historias que acabam sendo não tão bons. Assim, como existem filmes, que mesmo com um histórias mais complexas, se conseguem fazer entendíveis através de outros elementos da narrativa.

      Pegamos por exemplo o filme “A Grande Aposta” que fala sobre a crise imobiliária de 2008. Por mais que o roteiro abuse de termos ou expressões pouco comuns no dia a dia das maiorias das pessoas, o longa é capaz de criar tensão e sentido de urgência e somos capaz de compreender o contexto e o dano que os fatos podem causar.

      Contudo isso não é uma regra fixa. Como arte, o cinema somente existe devido à interpretação do público. Assim existem filmes mais e menos óbvios. Entretanto, devo salientar, que toda vez que surgir um filme que não consiga “entender” você não deve se sentir “culpado” por isso (ou por não ter tanta bagagem cinematográfica).

      Eu por exemplo, há muito tempo atrás, após assistir 2001- Uma odisseia no espaço pela primeira vez, fiquei confuso (como muitos) sobre o que o filme apresentar – ao ponto de chamar o filme de chato. Mas com o tempo, com toda a experiência que a vida nos traz, fui assimilando e interpretando a minha maneira o que o filme tentou passar. E em conjunto com um pouco de conhecimento técnico que fui pesquisando ( e lendo críticas confiáveis) o filme ganhou um proporção que jamais imaginei quando assisti pela primeira vez.

      Não existe uma interpretação melhor ou mais certa que a outra. Inclusive o diretor de cinema Pierre Rissient dizia que : “Gostar de um filme não é o bastante. É preciso gostar pelos motivos certos”. Todavia, estes motivos certos não são necessariamente o que o diretor quis dizer ou que o critico escreveu. Você pode entender um filme de uma maneira, ver certas conexões e referencias que eu, por exemplo, não vi – referencias estas que virão assistindo bastantes filmes e procurando, caso seja, entender um pouco de regras cinematográficas.

      Esta é a beleza da arte.

      Não é demérito não captar todos os simbolismo ou metáforas, mas deve sim, tentar potencializar os motivos que fez gostar (ou não da obra). No caso de Colossal, devermos perguntar por que tem aquele monstro ou porque daquela temática vista no filme. O diretor o colocou ali por algum motivo e cabe a público captar aquilo e interpretar a sua maneira.

      (Salientando que ninguém é obrigado a saber sobre tal, mas garanto por experiência própria, o quanto engrandecerá sua experiência caso o faça).

      Por isso, sempre tento, em meus textos, mencionar o aspecto técnico que causa a sensação que sentimos no filme. Pois, não podemos simplesmente (algo que infelizmente muitos críticos fazem) dizer que o filme é ruim sem dizer o porquê. Você pode dizer que não gostou do filme (isso ninguém pode mudar), mas a partir do momento que acusa o filme de ruim, se abre um espaço para analisar de maneira técnica. E não baste dizer que o filme o roteiro ou fotografia é ruim, tem que exemplificar, decorrer (mesmo que rapidamente) como chegou aquela opinião.

      A crítica serve para não exatamente esclarecer (minha interpretação não é mais válida do que outras). Mas, como crítico (bom ou ruim somente o tempo dirá rs.), tenho obrigação passar minha experiência para o público observar, a partir dos textos, a ter um olhar mais cinematográfico a detalhes (técnicos ou não) que o filme trouxe ao público.

      Espero que possa ter esclarecido alguns pontos…
      Abraços

  2. que filme viajado… achei um ritmo enfadonho no começo, depois melhora – parece que a edição ajuda – só que esse negócio do monstro me tirou do filme… até então eu tava comprando a ideia

    1. Doisberto
      Bem vindo

      Achou o início enfadonho? Foi justamente o que me atraiu (expliquei no textos os motivos). A presença do monstro não era para te tirar do filme, pois a criatura era a personificação dos conflitos da protagonista, mas se isso aconteceu eu entendo. lembrando que isso faz parte do pacote de originalidade proposto pelo diretor. Mas se mesmo assim não te agradou, ok.

      Obrigado pelo comentário.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *