Crítica: Michael
Michael
Direção: Antoine Fuqua
Elenco: Jaafar Jackson, Juliano Valdi, Nia Long, Jayden Harville, Judah Edwards, KeiLyn Durrel Jones, Kendrick Sampson, Nathaniel Logan McIntyre, Miles Teller e Colman Domingo
Não seria difícil supor que Michael adotaria uma abordagem conservadora — para não dizer excessivamente cautelosa — em relação à obra do Rei do Pop. O diretor Antoine Fuqua e o roteirista John Logan pouco conseguem imprimir de seus estilos, visivelmente contidos, uma vez que o filme se encontra sob a tutela direta da família Jackson — irmãos, o empresário John Branca e a própria filha do cantor. Nesse contexto, a produção parece fadada a gravitar em torno de uma zona de conforto que a conduz à mediocridade típica de tantas cinebiografias recentes. Torna-se, assim, evidente o controle rigoroso exercido sobre a narrativa friamente calculada em suas revelações, evitando qualquer incursão mais profunda na vida e na obra do artista, optando por preservar uma imagem imaculada e altruísta em detrimento de uma abordagem mais complexa.
Basicamente, assim como o pavoroso Bohemian Rhapsody (que me fez deixar de ouvir Queen por um bom tempo), Michael é uma grande produção chapa branca, cometendo os mesmos erros ao soar episódico, em que a plateia fica apenas esperando a próxima recriação de momentos icônicos do artista principalmente nos shows em cenas com estádios digitais e planos fechados em meia dúzia de fãs balançando os braços e chorando. Cansa. Em vez de construir um personagem, o longa se limita a montar um clipe de duas horas voltado a fãs que já sabem tudo de cor. Inclusive, vêm à mente cinebiografias igualmente higienizadas, como a de Whitney Houston — que ignora o vício da artista e seus relacionamentos conturbados para não chocar o público — e a de Bob Marley, evitando abordar, por exemplo, a questão do uso de cannabis pelo cantor.
Sendo assim, tudo se transforma em uma mercantilização da imagem do artista, sem que realmente conheçamos a pessoa por trás da figura retratada: seu processo de criação, seus conflitos ou defeitos acabam apenas sendo empilhados, sem o devido cuidado. É uma pena, pois as cinebiografias de músicos já renderam obras-primas como Não Estou Lá (2007) e Amadeus (1983), justamente por reinventarem a figura biografada de maneira inesperada, sem perder a essência de sua obra. É possível incluir ainda produções mais recentes, como Elvis e Rocketman, que, embora dialoguem com certos padrões do gênero, buscam imprimir uma identidade narrativa própria
Abrangendo o período de 1966 a 1988, Michael começa apresentando o núcleo familiar dos Jackson, em que Joseph Jackson (Domingo, totalmente caricato, como um vilão de contos infantis) mantém um rígido controle sobre a carreira musical dos filhos no subúrbio de Indiana, especialmente sobre o jovem Michael Jackson (na fase inicial interpretado pelo carismático Juliano Valdi), por meio de cobranças e agressões físicas.
Saltando de ano em ano até a ascensão do Jackson Five, após serem descobertos pela gravadora Motown, a montagem se torna refém do próprio roteiro, com sua estrutura esquemática, sem se preocupar em nos fazer realmente sentir ou compreender o que está acontecendo na tela — a não ser assistir às apresentações do grupo ou de Michael. Isso cria de certa forma, uma semelhança incômoda entre o público e a mentalidade do pai dos jovens, que pouco se importava com o lado psicológico dos filhos.
A obra até tenta, em alguns momentos, inserir alguma independência narrativa, como ao evidenciar o medo que Michael tem do pai — a ponto de chamá-lo sempre pelo nome — e ao mostrar suas tentativas frustradas de pedir ajuda à mãe, Katherine (Long), apenas com o olhar, diante da figura autoritária de Joseph, culminando na relação quase paternal com seu segurança (Jones). Somente na apresentação final com os irmãos temos algum vislumbre dramático — e não apenas nostálgico — quando Michael confronta o pai indiretamente por meio do único espaço em que exerce domínio: o palco.
Infelizmente, o estudo do personagem — que poderia se aprofundar em sua fase adulta — é igualmente descartado para dar lugar, como esperado, aos números musicais ou a episódios isolados, como o acidente durante a gravação do comercial da Pepsi. Até tento elogiar o fato de o diretor enquadrar Michael em planos menos convencionais ou posicioná-lo mais ao canto da tela, centralizando-o durante os shows — aumentando sua importância —, mas o filme não permite que o espectador sinta ou preencha os espaços entre as ações. Além disso, essa exposição se torna ainda mais falha quando alguns personagens surgem com seus nomes ditos de forma pausada, quase como um reflexo do ego dos produtores em garantir que o público saiba exatamente quem são. Não à toa, uma figura essencial para a carreira de Michael Jackson, como o produtor Quincy Jones, acaba quase negligenciada em detrimento do empresário — lembrando que o próprio John Branca é um dos produtores e talvez dividir os holofotes estaria fora de questão.
A questão não é apenas se o filme deixou de mostrar determinadas passagens — até porque, ao focar até 1988, os casos de acusações de abuso sexual não são contemplados —, mas sim como ele tenta transmitir sua narrativa. O filme não quer que você entenda — quer que você reconheça. E há uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Como o roteiro precisa abordar um longo período da vida do cantor, os arcos dramáticos tornam-se excessivamente expositivos. Perdi a conta de quantas vezes o filme mostra Michael lendo Peter Pan, martelando na cabeça do público seus traumas por ser um adulto que se recusava a crescer, ou exibindo suas excentricidades, como ter animais silvestres como bichos de estimação em um quarto com temática infantil, elementos que soam mais como alívio cômico do que qualquer outra coisa – não vou comentar sobre o Bubbles, o pequeno chimpanzé digital.
Chegamos então a Jaafar Jackson (sobrinho de Michael), interpretando o personagem principal. É inevitável que sua atuação se apoie fortemente na reprodução dos trejeitos e passos do artista, o que já é digno de reconhecimento pela dificuldade, assim como sua tentativa de trazer nuances do cantor por meio de uma voz dócil, refletindo insegurança. No entanto, como mencionado anteriormente, o filme não permite que se vá além. Não sentimos que seu processo de criação artística ultrapasse a superficialidade. Ou será que o filme quer nos fazer acreditar quase como osmose que basta olhar uma reportagem sobre gangues ou assistir a um trecho com Vincent Price para que surjam músicas como Beat It e Thriller?
Aliás, a sequência de Thriller não passa de uma cópia do clipe original. Por que recriar exatamente os mesmos planos — inclusive cortes e movimentos de câmera — de algo já amplamente consolidado no imaginário coletivo? Melhor assistir ao clipe original que tinha propósito. Além disso, ignorar a figura do diretor John Landis (mostrado apenas rapidamente e na penumbra para atender a um pedido do cantor) demonstra desrespeito a outro artista fundamental para a carreira de Michael Jackson — afinal, Landis dirigiu Um Lobisomem Americano em Londres, que inspirou diretamente o visual do curta de terror.
Tentando ser mais realista que o rei, Michael se ancora na genialidade do legado musical do artista, mas jamais o torna essencial como narrativa para desenvolver a figura humana. Isso me leva a pensar ironicamente de sua imagem continuar sendo explorada pela família; algo que certamente deixaria o patriarca Joseph Jackson — retratado como um vilão tradicional — orgulhoso.
Rodrigo Rodrigues
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