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Crítica: O Quarto de Jack

o-quarto-de-jack_cartaz Crítica: O Quarto de JackO Quarto de Jack (Room)

Direção: Lenny Abrahamson

Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Brigders, Amanda Brugel, Joan Allen, Cas Anvar e William H Macy

Obs: É aconselhável a leitura do texto somente após assistir o filme. Assim como é fundamental que sequer veja o trailer.

Contado a partir da visão infantil, O Quarto de Jack em nenhum momento torna sua abordagem algo que poderíamos apontar como ingênuo. Pelo contrário. Ao apresentar fatos cruéis – tanto do aspecto tanto físico quanto psicológico -, somente a inocência imaginativa da mente de uma criança poderiam filtrar tais acontecimentos, tornando-os algo invisível ao seu mundo. Assim como trata do drama onde o aspecto do relacionamento entre mãe e filho é vital para sobrevivência de ambos que precisam se adaptar ao mundo proporcionalmente desconhecido.

Joy (Larson) e seu filho Jack (Tremblay) estão confinados num pequeno cômodo prestes a comemorarem o aniversário de cinco anos do garoto. Sem sabermos onde, ou por que os dois estão trancados ali, o clima de suspense e aflição se instala. Principalmente ao notarmos, através de pequenos detalhes, o tempo que ambos estão no local sem qualquer contato humano que não seja a própria pessoa que provavelmente os colocou ali.

Mesmo confinados num pequeno espaço, a direção de Lenny Abrahamson é brilhante ao dar a dimensão do drama da mãe e filho de maneiras distintas essencialmente influenciadas por filmes como A Vida é Bela, Oldboy, A Garota Exemplar e Boyhood.

O diretor consegue criar paralelamente o contraste do mundo real da mãe e do filho, mas sem jamais deixar de dimensionar a agonia daquela atmosfera com uma bela mise en scene, tornando os ambientes distintos, mas igualmente claustrofóbicos. Assim com o uso constante da câmera com os planos fechados e posicionada de baixo para cima assumindo a visão de Jack, onde os adultos se tornam ainda mais ameaçadores.

Se como adultos conseguimos nos identificarmos com a agonia e dor da mãe por tentar sobreviver a cada dia naquele espaço reduzido, nos agonizamos ainda mais por ela ser o filtro para tornar o mundo daquela criança imune a maldade e sofrimento.

Torna-se melancolicamente doce ao notarmos a capacidade daquela criança ter seu mundo expandido num espaço tão reduzido, vistos nos pequenos detalhes como os desenhos espalhados pelo ambiente e as paredes rabiscadas. Onde suas únicas referências externas são algumas atrações na TV e sua imaginação que compensa sua solidão com amigos imaginários e com poucos brinquedos.

A atuação de Brie Larson e de Jacob Tremblay são dignas de reconhecimento. Se Larson expõe o desespero de uma mulher que perdeu parte de sua vida, com o peso da maternidade forçada e a determinação inabalável de sair do local, o jovem ator é delicado ao passar os sentimentos necessários e transformar seu personagem numa criança extremamente introspectiva e com uma personalidade passiva para suportar a pressão de presenciar fatos sem sequer jamais entendê-los.

Mesmo que a direção ainda consiga intencionalmente diminuir fisicamente seu mundo num pequeno armário servindo de dormitório, o local serve também – além com uma fuga – para aumentar simbolicamente ainda mais sua dimensão imaginária. Todavia este mesmo espação se impõe como um limite entre o garoto do mundo externo quando a violência deste mundo surge contra a mãe, cuja quebra de regras é vista com motivo de uma espécie autopunição psicológica e obviamente física.

Lembrando que estamos falando de um espaço com pouco mais de dois metros quadrados dividido em quarto, cozinha e banheiro. Desta forma, o design de produção consegue contextualizar o ambiente que remete mais a uma cela que propriamente uma casa, onde a única visão para o mundo é uma pequena janela no teto.

O roteiro de Emma Donoghue é sensível e corajoso e em sua abordagem através da direção por quase dividir o filme em duas estruturas e mostrar total confiança na historia sem jamais cair em clichês do gênero. Assim como é elogiável como o longa vai diminuindo o foco inicial sem jamais abandona-lo completamente, transformando numa drama e estudos de personagens onde o contexto do primeiro ato paira como um elemento a espreita.

A direção é inteligente ao atentar para os pequenos detalhes (pista e recompensa) que, além de servir com elemento simbólico e dramático para a narrativa, também é de grande serventia para o desenvolvimento da trama. Exemplo este como o fato de o garoto carregar com ele um elemento que lembre a mãe e tal item servir para ajudar no caso.

O longa também é sensível ao mensurar as sensações da criança vislumbrando o mundo real pela primeira vez (um simples tocar de dedos no chão, sua retração fetal ao reagir ao medo, seu contato com outras pessoas) sempre na visão da criança sem jamais descontextualizar. Detalhes importantíssimos para dimensionar o quanto estes pequenos gestos corriqueiros possuem tamanho significado para o personagem independente do momento.

Numa aparente mudança de ambiente e foco, a direção não diminui a dor das situações em que Jack e sua mãe enfrentam. Mas se antes a mãe era o combustível de Jack, ao inverter os papéis, o filme engrandece a narrativa. Inclusive ao criticar rapidamente o tratamento dado pela TV que sempre transforma este tipo de situação num circo midiático.

Assim seria muito fácil para a direção introduzir um elemento de suspense que pudesse satisfazer a sensação do público, mas que destruiria completamente o longa. Ou seja, a direção confia tanto na sua narrativa e historia quando na sensibilidade emocional do público, isso é primordial para que o filme funcione de maneira orgânica sem jamais perder sua intensidade.

O Quarto Jack acaba se tornado um das melhores surpresas do ano ao ser tão complexo em seus sentimentos numa abordagem simples, mas ao tempo tão distintas estruturalmente, mas carregada de sensações que sendo criança ou não ficamos pensando se tais fatos se tornaram uma redenção na vida de mãe e filho.

Cotação 5/5

o-quarto-de-jack_final Crítica: O Quarto de Jack

 

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: O Quarto de Jack

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

1 comment

  • Luana Mideros:

    Gosto das histórias que contam os filmes porque são muito interessantes e podemos encontrar de diferentes gêneros. De forma interessante, os diretores de diferentes filmes, optaram por inserir uma cena de abertura com personagens novos, o que acaba sendo um choque para o espectador, que esperava reencontrar de cara as queridas crianças. Desde que vi o elenco de O Quarto de Jack imaginei que seria uma grande produção, já que tem a participação de atores muito reconhecidos. Acabei de ver um filme de Jacob Tremblay, um ator muito comprometido Os Filmes de Jacob Tremblay para uma tarde de lazer é uma boa opção, além disso, acho que ele é muito bonito e de bom estilo. Não posso esperar para ver este filme, estou ansiosa.

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