Crítica: O que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?)

Direção: Robert Aldrich

Elenco: Bette Davis, Joan Crawford, Edwin Flagg, Maidie Norman, Anna Lee, Anne Barton, Wesley Addy, Julie Allred, Bert Freed, Robert Cornthwaite

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Em determinado momento do clímax de O que terá Acontecido a Baby Jane?, ocorrido na praia, basta olhar de modo um pouco mais atento e perceber que Bette Davis está contracenando com a dublê de Joan Crawford deitada na areia com o rosto oculto. Obviamente esse pequeno detalhe poderia passar despercebido, mesmo ciente de que não era a atriz que estava ali, contudo, devido a uma série de disputas entre duas das maiores divas da história do cinema, tal cena tem grande significado: elas se odiavam na vida real!

Nesse caso Joan recusou a contracenar novamente com Bette Davis, obrigando o diretor Robert Aldrich a montar uma pequena parte das cenas em estúdio, mas isso foi apenas um dos diversos embates entre elas durante décadas. Salientando que em muitos casos, os diretores não faziam questão alguma de deixar de alimentar a fogueira de vaidades. Um jogo de egos que somente aumentou quando Bette Davis e Joan Crawford começaram a frequentar os mesmos corredores da Warner (Davis mandou instalar uma máquina de Coca-Cola no set para provocar Joan que era viúva do ex-presidente da Pepsi).

Com o público ciente dessa disputa na época do lançamento do filme (1962), a rivalidade foi o grande chamariz para as plateias da época, já que as duas eram infelizmente ignoradas pelas novas gerações e estúdios. O que os espectadores queriam mesmo é ver as duas atrizes “juntas”… Há relatos que os chutes deferidos em uma cena do filme foram de verdadeiros, o que demonstra o ápice da animosidade entre ambas.

Vale mencionar que Betty Davis foi indicada 11 vezes ao Oscar de melhor atriz e antes de Baby Jane, sua última indicação tinha sido dez anos antes, em 1953, com Lágrimas Amargas; tendo ganhado duas vezes (1936 com Perigosa e 1939 com Jezebel). Enquanto Joan Crawford foi indicada por três vezes e ganhou em 1946 por Alma em Suplício e sua última indicação foi em… 1953! (a disputa entre as duas acabou sendo velada, pois o Oscar foi para Shirley Booth com A Cruz de Minha Vida, mas as rusgas já seriam incontroláveis entre elas).

Baseado na novela de Henry Farrell, o roteiro de Lukas Heller de O que terá Acontecido a Baby Jane? não é somente um drama metafórico de duas personagens há muito tempo longe dos holofotes (inspirado claramente em Crepúsculo dos Deuses de Billy Wilder e estrelado por Gloria Swanson), mas um jogo de humor sombrio que caminha para um ambiente doentio alimentado por ciúmes e rancores. A obra se aproveita também do então recente sucesso de Psicose de Hitchcock que inseriu o terror mais sofisticado nos cinemas na época, de modo que a direção de Roberto Aldrich transforma Baby Jane em um conto de terror psicológico entre duas irmãs rumo à autodestruição.

Confinada e reclusa em uma cadeira de rodas devido a um misterioso acidente que esmagou sua coluna, Blanche Hudson (Crawford) inicialmente mostra certa resignação com os anos por ficar dependente dos cuidados de Baby Jane (Davis) para sobreviver, mas ainda gentil com sua irmã, cujo comportamento levanta suspeitas da governanta Elvira (Bennett). Em contra partida, Baby Jane convive com o fracasso atemporal por seu sucesso como ex-artista mirim e por carregar o fardo pelo acidente que aleijou a irmã, ao mesmo tempo em que alimenta bizarramente um retorno aos palcos – como se tivesse dez anos de idade – ao lado do aproveitador Edwin Flagg (Buono).

Uma dinâmica perversa e surpreendente que Aldrich conduz com maestria, apoiado na atuação das duas gigantes. Nunca foi segredo que o filme funcionaria somente com a presença de Betty Davis, inclusive a própria Joan teria dito isso antes das filmagens, e a atriz não deixa por menos. Justificando mais uma indicação ao Oscar, Bette Davis tem um dos melhores desempenhos da carreira ao misturar uma psicopatia trajada com vestígios de seus aspectos infantis, que aliada a um escárnio, completa o visual singularmente incômodo. Isso sem falar na brilhante cena em que Baby Jane repete o número musical feito quando criança em que a sala de estar vai se transformando em um palco, cuja apresentação de Baby Jane soa como uma mistura bizarra de insanidade e nostalgia.

Do ponto de vista técnico, é importante mencionar a mansão onde passa-se boa parte da ação como sendo quase um “elemento vivo” do filme, pois Aldrich usa recursos simples para focar a atenção do público através da linguagem da câmera, como no fato de sempre trazer em primeiro plano o telefone usado como único contato com o mundo exterior de Blanche e a escada como um obstáculo; simultaneamente tais elementos são transformados em símbolos de dominação para Baby Jane por ela controlar as ligações e as escadas serem uma penitência a ser cumprida ao levar o jantar para Blanche.

Inclusive, é interessante ver o diretor usar movimentos de câmera para aumentar o sentimento de clausura, como por exemplo, na cena em que Blanche se ve sem alternativas, ela gira ao redor da cadeira elevando-se ao teto com uma espiral sem saída. Até mesmo alguns planos são tão eficientes por serem ajudados pelo clima de desconforto criado anteriormente que o público se vê inserido de maneira convincente, como no momento em que Blanche hesita em levantar a bandeja do jantar sem sabermos o que virá pela frente, ou nos enquadramentos que sugerem uma prisão para ambas.

Para um contexto histórico, O que terá Acontecido a Baby Jane? Soou como um canto do cisne para ambas, pois depois as duas atrizes ficaram relegadas a papéis caricaturais em filmes para televisão, participações em seriados ou filmes de baixo orçamento (vide o inacreditável Trog de 1970 em que Crawford faz uma antropóloga atrás de um troglodita ou a último filme de Davis em que ela fez uma bruxa em um filme juvenil no fim dos anos 80).

Joan Crawford veio a falecer em 1977 e Bette Davis em 1989 e dizem que ao saber da morte de Crawford, Davis disse “Que bom!”. Provavelmente retrucando o fato de que na entrega do Oscar de 1963, em que Davis era tida como favorita por Baby Jane, a grande vencedora foi Anne Bancroft por O Milagre de Anne Sullivan. Mas quem, inacreditavelmente, foi receber o prêmio no lugar de Anne Bancroft ? Sim, Joan Crawford que aliciou as outras favoritas a não irem a cerimônia de entrega e permitissem que ela recebessem em seus nomes.

Tanto Joan Crawford quanto Bette Davis fora duas mulheres que ditaram costumes e independência dentro de um universo masculino e carregaram um fardo durante anos. Suas escolhas em se manterem ativas enquanto constituíam família custaram caro (vide os diversos problemas familiares que tiveram devido às carreiras que tentavam manter) ou até mesmo a questão da orientação sexual (Crawford era bissexual), algo que naquela época era inimaginável. Ambas se tornaram vítimas e vilãs de suas próprias histórias, mas os mitos ainda permanecem!

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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

2 thoughts on “Crítica: O que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?)

    1. Bem Vindo Ricardo
      É uma preciosidade mesmo. Guarde bem esse DVD.

      Obrigado pela visita e espero que possa curtir mais nosso site
      Abraço

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