Crítica: A Voz de Hind Rajab
Direção: Kaouther Ben Hania
Elenco: Motaz Malheem, Saja Kilanis, Clara Khoury e Amer Hlehel
Equipado com tanques com visão infravermelha que capturam qualquer fonte de calor, o exército de Israel metralhou um carro com uma família inteira em um bairro de Gaza. Este é mais um número dentro do genocídio protagonizado pelo governo de Israel, que já assassinou mais de 20 mil crianças — incluídas nos mais de 70 mil mortos —, enquanto a comunidade internacional finge, nas páginas das redes sociais, que se importa com famílias inteiras dilaceradas pelo exército do governo Netanyahu.
Testar nossa humanidade é o que o doloroso filme A Voz de Hind Rajab (produzido por Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara e também pelos diretores Jonathan Glazer e Alfonso Cuarón) faz a cada minuto. A obra busca a salvação da pequena que lhe dá nome da obra através do grupo do Crescente Vermelho Palestino, depois que a própria Hind Rajab entra em contato por meio de um celular encontrado aos corpos dos parentes mortos. Se a situação já seria angustiante para qualquer pessoa, imagine para uma criança de seis anos com um exército altamente armado rondando a área.
Essa realidade é transmitida de maneira eficaz pela diretora Kaouther Ben Hania, que transforma o filme em uma mistura de ficção e documentário. No entanto, o termo “ficção” refere-se apenas ao fato de haver atores representando papéis de pessoas que realmente enfrentaram aquela situação. Sendo assim, é uma decisão narrativa importante — e ainda mais angustiante — o fato de a diretora usar as gravações reais da jovem Hind Rajab no filme como ponto de partida do roteiro para adaptar as ações dos personagens. E sim, dói muito: cada frase, cada palavra da voz inocente de uma criança que consegue se lembrar da classe onde estuda, mas que implora para que a resgatem. Repetindo: a voz é da própria criança! E por que não resgatá-la? Porque é necessária uma autorização absolutamente burocrática do próprio exército de Israel para que as ambulâncias percorram um caminho predeterminado. No entanto, seria como pedir à Gestapo (polícia secreta nazista) que autorizasse o atendimento de prisioneiros nos campos de concentração.
Mesmo estando a uma distância que não levaria mais de 8 minutos para chegar ao local dos destroços, o atendente Omar (Malhees) encontra resistência devido ao supervisor Mahdi, que insiste na negociação com o exército, mesmo que a demora possa custar à vida da criança, que se encontra sem água ou comida por horas. É um clima claustrofóbico e a câmera da diretora mantém o espectador próximo dos personagens testemunhando algo que desafia suas profissões. E mesmo que as ações (ou a falta delas) de Mahdi o transformem em uma figura covarde aos olhos do espectador (e de Omar), é cabível que seu medo seja justificado pelo desejo de não ser responsável por mais mortes de paramédicos, que são os profissionais que estão literalmente na linha de fogo.
Ao intercalar o silêncio entre as ligações da criança — quando não se sabe se ela ainda estaria viva —, esses momentos são quebrados pelos rompantes de inconformismo e ações dos outros personagens, tomados pela agonia de não poderem fazer nada. E se a psicóloga Nisreen (Clara Khoury) e a atendente Rana (Saja Kilani) tentam ao máximo seguir inicialmente algum tipo de racionalidade dentro da tragédia, é simbólico que a dinâmica vá se alterando com o tempo ao ganhar contornos religiosos e discussões sobre vida e morte com uma criança ao telefone. Essa situação é ainda mais impactante porque a diretora usa planos que focam no celular com imagens reais de Nisreen, e vemos seu abatimento na ligação a ponto de citar o Alcorão, enquanto Rana faz gestos quase como preces para suplicar por algo que eles sabem ser inevitável.
A Voz de Hind Rajab é uma obra impactante (eu iria usar a palavra “denúncia”, mas é redundante, pois todo ser humano com o mínimo de empatia sabe o quão criminoso é o que está acontecendo). Sinceramente, eu não sabia mais o que pensar depois do filme; na sessão em que eu estava, o silêncio e as lágrimas tomaram conta das pessoas ainda sentadas na sala enquanto os créditos subiam. Um povo está sendo dizimado, com futuros e corpos sendo apagados pela ideologia de morte do governo de Netanyahu com apoio norte-americano. É doloroso demais se lembrar da voz de uma criança presa durante horas dentro de um veículo metralhado. É muito doloroso. Eu não tenho crença religiosa, mas quero pensar em um lugar onde a corajosa Hind Rajab esteja feliz. Porque por aqui, neste maldito plano que mata crianças e criaturas inocentes, não fomos capazes de garantir isso.
Rodrigo Rodrigues
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