Crítica: A Noiva!
Direção : Maggie Gyllenhaal
Elenco : Jessie Buckley, Christian Bale, Annette Bening, Penélope Cruz , Peter Sarsgaard, Julianne Hough e John Magaro e Zlatko Buric,
Quando Mary Shelley lançou sua obra-prima Frankenstein, em 1818, a publicação somente foi identificada quando assinada com o sobrenome do marido — o poeta Percy Bysshe Shelley. Se, em pleno 2026, o patriarcado ainda é violento com mulheres que tendem a ocupar posições de destaque, imagine os desafios enfrentados pela autora naquela época. Mesmo sem ter convivido com a mãe — uma das pioneiras na luta pelos direitos e pela autonomia feminina —, Mary Shelley carregou esse fardo até sua morte, em 1851.
Coincidência ou não, o filme A Noiva, da diretora Maggie Gyllenhaal, trata justamente desses ecos transmitidos às mulheres em uma obra de horror com pitadas de noir, musical e dos filmes de gângster dos anos 30. A narrativa se inicia com um monólogo em preto e branco de Mary Shelley (Buckley), que surge como uma entidade, numa espécie de purgatório, transmitindo sua herança para Ida (a própria Buckley), quando esta passa a servir de acompanhante para mafiosos a serviço de Lupino (Buric). É um momento em que a obra escancara sua abordagem fantasiosa ao público, sem necessariamente explicar como ou por quê. O recurso funciona como metáfora para os estigmas, medos e violências que as mulheres enfrentam diariamente.
Nesse mundo em que a presença feminina é reduzida a algo carnal, qualquer atitude diferente é vista como sentença de morte. A diretora, porém, desde os primeiros segundos deixa claro tratar-se de um conto gótico, em que as influências (A Noiva de Frankenstein e Bonnie e Clyde, por exemplo) são bem-vindas justamente para provocar estranhamento. Isso se intensifica quando o próprio Frankenstein (Bale) solicita ajuda à Dra. Euphronious (Bening) para encontrar uma noiva (sim, inicialmente ela se apresenta como doutor em vez de doutora, contextualizando a temática do filme).
A independência de Ida — que se recusa a ser vista como algo pertencente a alguém e acaba criando problemas com a máfia — estabelece o embate central que o filme se propõe a discutir. Sem jamais tirar a personagem do foco, Ida não é alguém que rejeita o amor, mas alguém que se recusa a senti-lo por obrigação. É interessante notar como a composição de Bale ajuda o público a compreender seus desejos mais simples de companhia, sem necessariamente algo carnal: uma carência de afeto e companheirismo capaz de transformar um simples aperto de mão em intensa comoção.
Com voz tranquila e ocultando a face e o corpo putrificados por um século de existência, Frankenstein idealiza sua vida através dos filmes do ator Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal) e imagina que um dia poderá viver aquele romance visto na tela do cinema. Não chegamos a temê-lo, mas seu amor — por mais puro que seja — soa sufocante para Ida. Ainda assim, é inegável a força da interpretação de Jessie Buckley. A voz rouca, as expressões incisivas e as frases ditas de forma quase imprevisível tornam a personagem instável e fascinante, ao mesmo tempo em que a colocam à margem da sociedade. Ida — assim como o próprio Frankenstein — representa esse grupo vulnerável tratado como monstruoso pela sociedade, algo evidenciado na boate frequentada por pessoas de todos os gêneros. Mesmo em um espaço em que deveria sentir-se confortável, ela ainda é atacada por homens que acreditam que uma mulher livre deva aceitar seus desejos — ainda que transformados em violência.
Visualmente inquietante, a obra assume sem receio seu viés exagerado. Isso se percebe no figurino de Ida, que aos poucos ganha camadas definidoras de sua personalidade — do vestido vermelho inicial aos casacos de pele e sobretudos — até consolidar um visual punk marcado pelo penteado clássico, manchas e um andar levemente manco. A direção de fotografia de Lawrence Sher explora bem os tons sépia associados ao laboratório da Dra. Euphronious, contrastando-os com cores vibrantes nas cenas de dança. Tudo é acentuado pelas sombras características do estilo noir, criando uma atmosfera ao mesmo tempo familiar e estranhamente singular. Sher, aliás, foi o diretor de fotografia de Coringa: Delírio a Dois. Isso nos leva a supor que a coincidência não seja casual, já que o protagonista daquele universo da DC — apesar das tentativas do diretor de relativizá-lo — jamais seria bem-visto aqui. Suas atitudes de culpar a parceira por seus próprios atos entram em choque direto com a lógica de A Noiva.
Também é interessante notar como as dinâmicas entre os personagens reforçam a estrutura patriarcal. A detetive vivida por Penélope Cruz, por exemplo, precisa agir como secretária do personagem de Peter Sarsgaard. A direção ressalta constantemente essa tensão ao posicioná-los em lados opostos do enquadramento, evidenciando suas diferenças. Mesmo sendo hierarquicamente superior, ela não encontra respeito dentro da polícia — não por acaso, em uma sala cheia de policiais homens, apenas a secretária se dispõe a ajudá-la com informações.
Reforçando o contexto trágico dos personagens deslocados dentro de uma atmosfera fantástica, A Noiva jamais pretende assumir plenamente sua influência clássica. Pelo contrário: tudo aqui é explosivo, deslocado, gritante e deliberadamente exagerado. Trata-se de um risco narrativo nos dias de hoje, que aproxima o filme de uma lógica quase cartunesca, como se fosse uma história em quadrinhos sem amarras. Ainda assim, é justamente nesse excesso que a obra encontra sua identidade, transformando o grotesco e o melodrama em instrumentos para discutir liberdade, desejo e pertencimento.
Rodrigo Rodrigues
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