Maxiverso
estação perdido1

Estação Perdido: Preview

Título original: Perdido Street Station
Autor: China Miéville
Ano: 2000
Tradução: Fábio Fernandes
Editora: Boitempo
Páginas: 604

fabio-cobiaco Estação Perdido: PreviewSe você acompanha o Maxiverso, deve saber que um dos meus livros favoritos é o A Cidade & A Cidade, de China Miéville. Inclusive, minha primeira participação aqui no site foi com uma resenha desse livro, o que o torna ainda mais importante para mim. Se ainda não leu, dá uma olhada aqui e saiba porque Miéville é um autor que deve ser lido por qualquer um que goste de uma boa história.

Já comentei sobre a surpresa de ter a Boitempo publicando uma ficção científica, mas volto a afirmar: que boa nova. A editora já fazia um ótimo trabalho dentro de áreas como ciência política, sociologia, filosofia e história, e tê-los também no mundo da literatura representa mais um dos pesos pesados do mercado literário brasileiro publicando boas obras.

Fiquei sabendo sobre as intenções da Boitempo em publicar outras obras de China Miéville no ano passado, e Estação Perdido era uma escolha óbvia. Além de ser considerada a principal obra do autor, é tida como um dos grandes expoentes de ficção científica contemporânea. Pude me presentear com um exemplar do livro no final da última semana, quando Estação Perdido finalmente saiu da pré-venda e chegou nas lojas físicas.

Na publicação de hoje, eu tento te convencer a ler Estação Perdido e discorro um pouco sobre o impacto que esse livro tem na literatura. Continua comigo?

Quem é China Miéville?

china-mieville Estação Perdido: PreviewBritânico, nascido em  1972 e cheio de títulos e honrarias que incrementam seu currículo como escritor e acadêmico – por exemplo, convidado honorário de convenções de ficção científica, precursor do New Weird, PhD com base em teses marxistas, membro do International Socialist Organization e um dos fundadores do Socialist Workers Party –, China Miéville não é conhecido pelo público brasileiro. Comumente, fãs de ficção científica esbarram com o trabalho do autor depois de lerem os grandes clássicos do gênero. O nome de peso em território internacional e sua postura política talvez incentivaram a Boitempo a publicá-lo, mas faz um tempo que deixei de me preocupar com “o porquê de a Boitempo ter lançado uma ficção científica”. O importante é que fizeram, e que bom que podemos ter livros de um autor tão icônico em terras tupiniquins.

Agraciado com diversos prêmios literários, como o British Fantasy, Hugo e Arthur C. Clarke, Miéville já se aventurou em colaborações no segmento de quadrinhos, sistemas de RPG e com textos científicos sobre política. A obra Between Equal Rights, uma das mais populares do autor, advoga sobre a postura política de Evgeny Pashukanis, marxista russo, enquanto traça um paralelo com sua aplicação nas leis internacionais.

Profundamente influenciado por Lovecraft, seu primeiro livro de ficção foi publicado em 1998, o curioso King Rat. A trilogia Bas-Lag (que inclui Estação Perdido) foi lançada em seguida, no começo do século XXI. Com A Cidade & A Cidade, lançado em 2009, Miéville estabeleceu-se como um dos grandes nomes da literatura mundial (o livro será até adaptado para uma série de TV, produzida pela BBC), e o público brasileiro pode conhecê-lo em 2014, quando a obra foi lançada em território nacional. Graças ao sucesso dela, temos acesso agora a Estação Perdido, considerado o principal trabalho de China Miéville.

Mas… afinal, onde diabos fica essa tal de Estação Perdido?

Adentrando o mundo de Nova Crobuzon.

Para te apresentar o aclamado livro, vencedor dos prêmios Arthur C. Clark, August Derleth (British Fantasy Society), Ignotus e Kurd Lasswitz, compartilho a sinopse oficial, disponível no site da Boitempo.

“Em Estação Perdido, primeiro livro de uma trilogia que lhe rendeu prêmios como o British Fantasy (2000) e o Arthur C. Clarke (2001), o leitor é levado para Nova Crobuzon, no planeta Bas-Lag, uma cidade imaginária cuja semelhança com o real provoca uma assustadora intuição: a de que a verdadeira distopia seja o mundo em que vivemos.
Com pitadas de David Cronenberg e Charles Dickens, Bas-Lag é um mundo habitado por diferentes espécies racionais, dotadas de habilidades físicas e mágicas, mas ao mesmo tempo preso a uma estrutura hierárquica bastante rígida e onde os donos do poder têm a última palavra. Nesse ambiente, Estação Perdido conta a saga de Isaac Dan der Grimnebulin, excêntrico cientista que divide seu tempo entre uma pesquisa acadêmica pouco ortodoxa e a paixão interespécies por uma artista boêmia, a impetuosa Lin, com quem se relaciona em segredo. Sua rotina será afetada pela inesperada visita de um garuda chamado Yagharek, um ser meio humano e meio pássaro que lhe pede ajuda para voltar a voar após ter as asas cortadas em um julgamento que culminou em seu exílio. Instigado pelo desafio, Isaac se lança em experimentos energéticos que logo sairão do controle, colocando em perigo a vida de todos na tumultuada e corrupta Nova Crobuzon.”

nova-crobuzon Estação Perdido: PreviewSe você ainda tinha dúvidas do que era o movimento New Weird, pode vê-lo traduzido nessa sinopse. Quantas vezes você pensou “que esquisito” enquanto lia a história do livro? Essa estranheza que sentimos ao ver o conteúdo de Miéville representa bem o New Weird. Enquanto A Cidade & A Cidade mescla o gênero com o suspense e, por isso, apresenta-o mais timidamente, Estação Perdido flerta direta e escancaradamente com o New Weird.

Ao abrir o livro, nos deparamos com um mapa que ilustra Nova Crozubon e suas diversas alamedas, ruas, estações e trilhas – dá até para comparar com os mapas da Terra Média no início de Senhor dos Anéis, ou de Westeros em Crônicas de Gelo e Fogo. No centro de todas elas, está a Estação Perdido. Pelo pouco que pude ler do livro (afinal, comprei ele faz dois dias), pude ver o talento de Miéville na ambientação e na contextualização do universo e seus personagens, características que me atraíram muito em A Cidade & A Cidade.

O protagonista, Isaac, não possui o esteriótipo de cientista (fora a personalidade excêntrica), e vê-lo chegando em Nova Crozubon no prólogo já representa um ponto alto. Ele descreve a cidade como se ela o enojasse, mas ao mesmo tempo sente-se compelido a adentrá-la e desbravá-la. O acesso por Nova Crozubon se dá através de um rio, o que conflita diretamente com a ausência de natureza em suas entranhas. A cidade se organiza como um aglomerado de residências e estabelecimento comerciais, tudo muito sujo, fétido e pouco convidativo.

No primeiro capítulo, Isaac interage com uma mulher que revela-se sua amante, Lin. Faz parte de uma raça que não se comunica verbalmente, e sim com sinais. Suas falas não possuem travessão, e estão sinalizada em itálico, como se Miéville as traduzisse para nós. Novamente, um artifício estranho e diferente.

A trama política está presente no livro de uma maneira ainda mais intensa do que em A Cidade & A Cidade, com o parlamento e sua milícia que, em conjunto, controlam Nova Crobuzon. Acompanhamos os protagonistas conhecendo a cidade a medida em que recebem trabalhos que mudam suas vidas para sempre. A distopia nos é apresentada aos poucos, ao passo em que os personagens olham ao seu redor e não reconhecem nada que antes lhes era familiar.

Meu veredito? Bem, ainda estou no começo do livro, por isso essa matéria se classifica como uma preview. Entretanto, o livro preparou terreno logo no início para algo que desconheço, porém faço questão de conhecer. Miéville te mantém interessado na história do começo ao fim – e é muito bacana ver isso numa obra lançada antes de A Cidade & A Cidade, onde o leitor é conduzido dessa mesma maneira.

Pensa que acabou? Não! Se você chegou até aqui, parabéns! Se prepare para a bonus stage.

Entrevista especial com Fábio Cobiaco, ilustrador das capas dos livros de Miéville.

cobiaco Estação Perdido: PreviewPude conhecer o Fábio pelo Facebook, e fiquei maravilhado com seu trabalho. Admito que o que me chamou a atenção logo de cara no primeiro livro de China Miéville que pude ler foi a ilustração da capa – e, depois de compô-la, Fábio foi convidado para auxiliar com a capa de Estação Perdido também.

Confira abaixo uma conversa que tive com o ilustrador.

Você participou da composição da primeira capa do livro de China Miéville também, certo?
Sim! Por questões ligadas ao sigilo editorial eu acabei trabalhando nas capas sem ler o livro, seguindo indicações dos editores de arte da Boitempo, mas pesquisei bastante sobre as capas estrangeiras na web e recebi referências dos personagens da editora.

Certo. Aí, você foi chamado pra fazer a capa do segundo livro, ou seja, curtiram o resultado. Você recebeu um feedback da Boitempo ou dos leitores?
Sim! O plano é que eu faça toda a série de capas. O feedback da editora foi muito bom e dos leitores recebi através da internet, no geral os leitores do China são bem fiéis e me senti honrado de ter conseguido agradá-los.

Sucesso! E qual foi a ideia para o desenvolvimento da ilustração da capa do Estação Perdido? Pelo pouco que li do livro, temos na capa o protagonista com alguns “personagens-inseto” do lado. Ele inclusive se relaciona com uma personagem dessa “raça”…
Como não li o livro antes tive que usar o óbvio, a estação. O povo Cactus e a personagem inseto foram sugeridos pela Bibiana que está cuidando da edição. Como o China é um grande autor ainda desconhecido do leitor médio brasileiro, teve que ter o nome em letras garrafais na capa o que acabou deixando pouco espaço para pirar na ilustração mas, no geral, os leitores que haviam lido as versões em inglês curtiram bastante!

Já pôde colaborar com editoras internacionais?
Fiz uma série do King Kull pra Dark Horse. Foram quatro variant covers pra série escrita pelo David Lapham. (podem ser conferidas aqui)

Gostaria de agradecer ao Fábio pelas palavras e por colaborar com o Maxiverso. E fiquem ligados, pois as continuações de Estação Perdido, A Cicatriz e Conselho de Ferro, saem respectivamente em 2017 e 2018 – ambias com capas ilustradas pelo Cobíaco.

Já dá pra dizer que China Miéville está muito bem representado no Brasil? Acho que sim… 😉

Avaliação
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MarcusColz-144x144 Estação Perdido: Preview

Marcus Colz

Livreiro, gamer, aficcionado por filmes, séries e música, não necessariamente nessa ordem. Fã de black metal que simpatiza com a Katy Perry. Come junk food mais do que deveria e não suporta alho, apesar de não ser um vampiro. Na busca de seu próprio universo, se encontra no Maxiverso.

2 comments

  • Evaristo:

    Li o Cidade & Cidade e achei muito bom, mas ainda assim um pouco abaixo do que propagam do China. Agora vou ler o Estação e espero novamente ter minha expectativa correspondida!

  • Richardinho:

    mano que irado esse post até a entrevista teve show de bola tao de parabens mesmo

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