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Crítica: Sob a Pele (Netflix)

sob_pele_cartaz Crítica: Sob a Pele (Netflix)Sob a pele

Direção: Jonathan Glazer

Elenco : Scarlett Johansson, Jeremy McWilliams, Paul Brannigan e Adam Pearson.

Sob a pele é um obra intrigante, cheia de simbolismo e marcante desde seus segundos iniciais. Infelizmente o ótimo filme de Jonathan Glazer é aquele tipo de obra que muitos espectadores sairão de suas sessões amaldiçoando todos os envolvidos por não apresentar um enredo ou motivações claras, mas sim por possuir camadas reflexivas e criticas a nossa sociedade com toques ficcionais influenciados por 2001.

Logo em seu início somos imediatamente confrontados com uma tela preta, um ponto branco e sons diegéticos, como fosse uma representação sideral metafórica, com figuras geométricas e luminosas, como um alinhamento de planeta que finalizam num ‘nascimento’. Para em seguida Scarlett Johansson surgir num shopping (com a direção usando a câmera de maneira quase que documental) se misturando as cenas rotineiras da população, seus rostos e hábitos de consumo cujo objetivo vai aos poucos sendo revelados: uma procura de estranhos para encontros sexuais.

A premissa do filme é particularmente invocativa e plástica sem jamais entregar respostas completas ou até mesmo conclusivas durante boa parte do longa. Claro que as respostas são claramente compreendidas e contundentes – até porque o próprio cartaz entrega um fato importante -, mas somente o fato da direção não apresentar isso de maneira óbvia demonstra respeito à capacidade dedutiva do público. Onde , mesmo assim, ficamos como muitas perguntas em aberto.

Interessante que em nenhum momento dentro deste ‘encontros’ os envolvidos demonstrem medo ou receio de estarem em um lugar completamente inóspito e escuro. Assim podemos sugerir uma hipnose, uma catarse masculina ou uma metáfora ao comportamento do homem, que perde qualquer senso de racionalidade para ter sexo fácil. Ressaltamos o bom trabalho da direção na transição de um ambiente normal para o ambiente ‘etéreo’ da personagem de Scarlett Johansson (um ambiente que novamente gera uma metáfora de vida e morte).

A seqüência é particularmente especial, não somente por descobrimos de maneira ‘clara’ os objetivos da personagem Scarlett Johansson, mas pelo design de produção apresentar um contexto inteligentemente econômico do local tido como ‘lar’ da protagonista. Em vez de algo fantasioso ou completamente ficcional, que pudesse destoar completamente do contexto e nos tirar do filme (algo muito comum hoje em dia), somos apresentados a uma lógica simples, mas que influenciado pela fotografia (predominantemente vermelha) temos certeza das intenções e seu significado, o que é mais do que suficiente.

Durante a projeçãoa a atriz Scarlett Johansson nos fornece uma personagem interessante e sensível em sua adaptação. Se no seu filme anterior (Her), ela atua usando ‘apenas’ sua bela voz, aqui seu gestos corporais (que corporais!) dão o tom certo para construção da personagem.

O roteiro é hábil em construir todo um cenário de criticas sem que possamos deixar de admitir que também sejamos uma vítima e/ou agressor. Assim a partir do momento que a personagem de Scarlett Johansson se depara com o acaso e imprevisibilidade humana, somos julgados se realmente ainda precisamos levar em consideração a aparência externa (ratificando, neste caso somos vitimas e agressores ao mesmo tempo).

O filme nos abre uma nova chance para reflexão diante do nosso próximo quando a protagonista toma a decisão que mudará seu destino. A autorreflexão diante do espelho sugere uma adaptação, uma mudança de comportamento, sentimentos e sensações novas. Algo que pouco de nós tentamos fazer por estarmos sempre presos a paradigmas e conceitos pré-formados.

As cenas finais ocorrem de maneira coesa e triste, a inocência involuntária da personagem da Scarlett Johansson, que se contrapõe sua natureza e objetivos. Pois em uma nova quebra de paradigma e inversão de papéis, a personagem se esbarra com o pior da nossa espécie. O desespero que sentimos vem justamente pelo fato dela não conseguir compreender aquela atitude.

Se revelando totalmente e despindo de sua verdadeira face somente no clímax, numa cena repleto de simbolismo (como se invocasse os céus), sentimos como a personagem pedisse ajuda. Não somente como uma questão de vida e morte, mas para obter respostas para a pergunta de como somos capazes de tanta pureza ao mesmo tempo em que nos orgulhamos de tanta covardia.

Cotação: 4/5

sob_pele_final Crítica: Sob a Pele (Netflix)

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Sob a Pele (Netflix)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

7 comments

  • Maycon Conceição:

    Concordo que há muitas virtudes técnicas, conforme o crítico listou. Mas a verdade é que há um excesso de metáforas que complicam a apreciação do filme, já que precisamos nos esforçar para entender o que significa a cena exibida, quais as analogias usadas, etc. Esse lance de filme cheio de “camadas reflexivas” e “simbolismos” que não são claros acabam entediando quem não curte esse estilo de filme, e aí tudo vai por água abaixo, talvez por isso a recepção morna de crítica e público. E a foto usada no fim da crítica ainda deixa uma dúvida atroz: em nome de tudo que é sagrado, o que as pessoas vêem de tão especial nessa atriz, fisicamente falando???

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo M Rodrigues:

      Maycon
      Obrigado pelo comentário.

      Infelizmente o que você tão bem citou é o grande problema de boa parte do público: “precisamos nos esforçar para entender o que significa a cena exibida”

      Se chegamos ao ponto para entender uma obra de arte, uma expressão artística ou algo do gênero requer algo visto como ruim ( no caso esforço intelectual) estamos indo mal.

      Mas um dos papéis da critica ( a boa critica) é este: tentar mostra um pouco mais do que o tido como ‘padrão” e fornecer informações para engrandecer a discussão.

      Quanto a duvida sobre a foto, é justamente do que o filme trata : Aparências. A atriz é bonita? Sim.Ela possui imperfeições? sim , como todo o ser humano normal.

      A beleza esta justamente em reconhecer todas as outras belezas ( e ela tem muitas) e não somente aquilo que idealizamos. O filme fala sobre isso

      Abraço e espero ter engrandecido a conversa.

    • Maycon Conceição:

      Caro Rodrigo Rodrigues, como eu disse, há quem não aprecie ter que ficar decifrando simbolismos em uma cena, para poder compreendê-la. Creio que é um exagero dizer que estamos indo mal se nem todos vêem com bons olhos essa necessidade de ter que obrigatoriamente apreciar essas metáforas usadas por alguns cineastas. Como vc pode ver no meu comentário, eu concordei com sua critica, e reconheço que é tecnicamente engrandecedor do filme, porém por meu gosto pessoal, prefiro um filme que eu assista e compreenda perfeitamente, de cara, o que eu assisti. O mesmo se dá com todas as artes… há quadros que retratam paisagens ou pessoas ou construções e nós admiramos a técnica usada pelo pintor para dar mais ou menos realismo à cena, e há quadros abstratos que necessitam de outro tipo de compreensão para serem admirados. Preferir um ou outro tipo não é demérito. Quanto a atriz, o que eu quis dizer não foi em relação ao significado da beleza, mas sim que eu não a acho tão bonita quanto vc e a maioria dos homens acham… só isso.

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Maycon

      Eu concordo com você. Não era minha intenção discordar de você de maneira veemente. Acho que tem gente que realmente não acha ela tão bonita. No meu caso eu acho e ela é ( com o acréscimo que dentro dos filmes dela , ela consegue explorar isso bem, que é o importante rs).

      Agora quanto ao compreensão de um filme. Acho que cada um tem o direito de gostar de qualquer filme. Para toda obra de arte existem níveis de compreensão diversos. Acredito ser importante (para quem se interessa por determinadas arte ) que procure saber o máximo possível.

      É importante que não fiquemos presos a um padrão ou narrativa comum. Sempre devemos pensar um pouco fora da caixa (sair da caverna de Platão, como um professora minha sempre disse).

      Eu também pensava assim, mas aos poucos fui descobrindo novas maneiras de ver um filme, tendo mais conteúdo e referencias (servindo até para a vida mesmo).

      Mas de qualquer maneira fica a vontade, e caso queira futuramente discutir ou criticar um filme que escrevemos , seja bem vindo.

      Abraço.

  • Lizandra:

    típico caso em que os críticos amam um filme que é um pé no saco, chato pra kct… pode ter o que for de virtuosidade tecnica e o escambau, mas fala serio, chaaaaaaaato demais…

    • Juliana Rodrigues:

      Penso ‘mais ou menos’ assim… não que é chato e tal, mas que não conseguiu transformar todas as idéias metafóricas em um filme cuja narrativa seja tão atraente. Ou seja, a idéia é melhor do que a realização. Como uma filme tem que ser uma obra completa, ou seja, tem que ser bem realizada, já que esse é o produto final de algo idealizado com teorias, metáforas, etc, dou nota 2 de 5 pra esse filme.

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo M Rodrigues:

      Lizandra

      Obrigado pelo comentário

      O maior problema de boa parte do espectadores é que ao contrário de atacar o filme por não ter entendido , o público não se pergunta o que o filme quis dizer. É um esforço que todos devemos fazer.

      Não é problema ou vergonha dizer que não entendeu o filme. Neste caso o melhor a fazer é sempre procurar entender com fontes, lendo comentários, criticas confiáveis etc.

      Isso é um exemplo não somente para filme, mas para qualquer tipo de discussão na vida.

      Abraço e espero que engradecido a discussão.

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