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CINEMACríticasCrítica: Divinas Divas
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Crítica: Divinas Divas

Divinas_Cartas Crítica: Divinas DivasDivinas Divas

Direção: Leandra Leal

Elenco:  Rogéria, Jane di Castro, Brigitte de Búzios, Camille K, Fujika de Holiday, Eloína dos Leopardos, Divina Valéria, e Marquesa

Jane di Castro, Rogéria, Divina Valéria, Camille K, Brigitte de Búzios, Fujika de Holiday, Eloína dos Leopardos e Marquesa não são simplesmente homens travestidos de mulheres (algo por si só um ato de extrema autenticidade e individualidade nada simples dentro de um país que mais mata travestis no mundo), mas artistas que há muito tempo deixaram seus corpos e mentes masculinas para se entregaram totalmente ao show business durante nada mais que 50 anos. Assim, este documentário Divinas Divas dirigido por Leandra Leal (estreando na função) se torna um relato dos bastidores da apresentação destas personalidades no palco do Teatro Rival no Rio de janeiro, tido não somente pela comemoração da representativa data, como um canto do cisne destas artistas – inclusive Marquesa veio a falecer em 2015, o que acabou criando uma áurea metalinguística e simbólica homenagem pela frase dita por Jane Di Castro: “O artista morre no palco”.

E dentro desse contexto, o documentário traz consigo todo um gama de sentimentos, desabafos e respeito mesmo que seja visível que a obra careça de profundidade com relação às próprias histórias das protagonistas. Não digo nem com relação à questão de levantar alguma bandeira LGBT (até porque é algo impossível de desvencilhar por estar explicitamente ligado em todas as palavras e expressões da cada um daquelas pessoas), mas de expor um pouco mais as vidas, amores e dores daquelas artistas – talvez evitado pela direção por não causar certo excesso na narrativa por serem tantas as histórias a serem contadas e não saber lidar com isso. Todavia, ratificando que isso não tira o brilho daqueles depoimentos sempre dados com uma profunda autenticidade, integridade e humor. O sentido de urgência para questão da representatividade, o fato de servirem como cobaias de hormônios numa época que poucos sabia o que era isso, o medo de andarem nas ruas, a falta de espaços para futuras gerações se apresentarem (onde o único caminho alternativo é a prostituição) e tantos outros estão todos lá mesmo que implícito naquelas entrevistas.

Contando com uma estrutura que se alterna entre algumas apresentações do espetáculo em si e os ensaios, Divina Divas não chegar a realmente a cansar, mas sentimos (em conjunto com a pouca profundidade das histórias e com poucas imagens de arquivos) que o documentário apenas anda de maneira lateral sem grandes saltos ou dinamismo. Ademais, tal fato e a pouca experiência da diretora acaba sendo explicitada na vontade de constantemente dela mesmo se inserir dentro daquele contexto, devido ao fato que a atriz conviveu e cresceu dentro do teatro administrado pela família Leal há décadas. Não que seja grave, até porque o trabalho que a excelente atriz faz para manter a memória deste importante espaço é algo elogiável mesmo com todas as dificuldades em servir a cultura. Até porque, jamais duvidaríamos da autenticidade e amor da diretora com a obra por ela ter presenciado aquele mundo desde seus primeiros passos na carreira de atriz, mas cinematograficamente falando soa um pouco expositivo sua narração introspectiva praticamente renegando o trabalho fundamental de interlocutora em tirar a informação do assunto retratado de maneira discreta.Divinas_meio Crítica: Divinas Divas

Mas isso também não significa uma ausência de emoção, pelo contrário, neste caso o amor aflora de maneira única (aí sim, uma ode contra o preconceito e ignorância da nossa sociedade), como visto nos belos depoimentos de Fujika de Holiday sobre a perda do seu companheiro falecido (sempre com um olhar de cima para baixo de extrema integridade) e as palavras do marido de Jane Di Castro declarando seu amor à esposa com quem compartilha todas as dificuldades e pressões que um relacionamento como este pode causar, durante o convívio de mais de quatro décadas. Assim, como também é elogiável o fato da direção conseguir equilibrar a presença das artistas sem cair numa armadilha de sempre focar, por exemplo, em Rogéria. Por mais conhecida do grande público, a artista jamais tenta chamar para si a atenção do filme. Até porque seria desnecessário com suas histórias e frases de impacto como o fato de jamais decidir pela operação de mudança de sexo e que ela se auto intitula como a travesti da família brasileira. E claro todo o contexto de sempre estar homenageando aquelas artista cujas personalidades, expressões e corpos marcados pelo tempo jamais deixaram de se misturar com sua própria existência, como podemos comprovar pela abertura em que as figuras masculinas vão sendo subjugadas pelos seus alter egos e pelo uso de um plano detalhe que começa nas mãos rústicas para terminar num rosto coloridamente maquiado.

Espero que Divinas Divas não seja visto somente com um retrato justo de artistas pioneiras tanto na carreira como na representatividade , mas tenhamos também um pouco mais de sensibilidade e respeito às escolhas de outro ser humano sobre sua orientação sexual . Inclusive, após a sessão que me encontrava, fiquei imensamente feliz que,  por trás daquele silencio alternado por risos de aprovação e respeito, existiam não somente casais homoafetivos, como também pessoas de todas as idades e etnias. Pode não parecer o suficiente, mas é um pouco de combustível para aturar a ignorância e preconceito diário.

 Cotação 3/5

Divinas_Final Crítica: Divinas Divas

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Divinas Divas

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu ainda jovem certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini , Antonioni , Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.
RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Divinas Divas

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4 comments

  • Rodrigo Rodrigues
    Rodrigo Rodrigues:

    Maria Feia,
    Bem Vinda

    Que bom que achou tocante e interessante o filme.

    Realmente em termos de profundidade dos personagens o filme ficou aquém. Entretanto, isso não tira os méritos das artistas. Até porque, mesmo tendo maior profundidade, o tom de bandeira LGBT jamais iria sair, pelo contrário, iria ficar mais evidente – algo , como disse no texto, está intrínseco nelas ao ponto de ser impossível separar tal elemento. E quanto mais filmes exporem suas opiniões e pensamentos sobre tal assunto , melhor. Mostra maior diversidade e pessoas se identificando e se vendo retratadas na tela.

    Obrigado pelo seu comentário e espero que continue a ler nossas críticas.

    Abraços

    • Maria Feia:

      o que eu e outras pessoas queremos dizer com essas ressalvas às obras que são “apenas bandeiras GLBT” é que o ideal é que uma obra seja boa independente de levantar alguma bandeira, do contrário, fica parecendo só um ativismo puro, uma propaganda, algo que usou o filme como “desculpa” para falar da diversidade, acaba perdendo força e ganhando contrariedade, o ideal é que seja um filme bom cuja abordagem GLBT surja naturalmente, como parte tão “natural” da trama qt seria uma abordagem “tradicional”, isso dá força e credibilidade tanto ao filme como um todo qt à bandeira propriamente dita… é isso ai parabens pelas críticas e pelas respostas…

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Maria Feia

      Bem vinda novamente

      Fico agradecido que meus texto possam de alguma maneira abrir espaço para a discussão (este é um dos grandes objetivos da crítica) , assim como pelos elogios ao site.

      Somente ratifico que neste caso , mesmo que o filme fosse assumidamente uma bandeira, não teria problema. Até porque todo filme deve ser analisado através do “como ele é” e não através “sobre o que ele é”. E a linha que separa tais elementos (levantar ou não uma bandeira ) é bem tênue. E criticar um filme por assumir suam temática é um erro.

      Tem filmes excelentes que levantam a bandeira , como “Milk” , “Priscila” ou “Transamérica” e outros que tratam o assunto de maneira mais delicada, como “Carol”, “Azul é cor mais quente'” , “Brokeback Mountain” e o recente “Moonlight”. Em ambos os casos são feitos de maneira delicada e gerando credibilidade.

      Abraços

  • Maria Feia:

    achei tudo muito raso, superficial… acaba ficando com cara apenas de bandeira LGBT mesmo, por conta dessa ausência de profundidade em relação às histórias, e isso pq estamos falando dxs protagonistas!… uma pena… no mais, muito tocante e interessante

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