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Análise: Tron – Uma Odisseia Eletrônica (1982)

Tron – Uma Odisseia Eletrônica foi um ousado projeto da Walt Disney Co, em uma tentativa de ganhar novamente o mercado do cinema-família, que havia perdido na década anterior, quando os estúdios rivais começaram a apostar em cineastas que mudariam o jogo do cinema de entretenimento como George Lucas (Star Wars), Steven Spielberg (Tubarão e Contatos Imediatos), Ridley Scott (Alien – O Oitavo Passageiro), Richard Donner (Superman) e outros novos que surgiriam na esteira como James Cameron (Exterminador do Futuro), Joe Dante (Gremlins) e Robert Zemecks (De volta para o Futuro). O certo é que o cinema – e o mundo – estavam mudando e a Disney não estava mais conseguindo o retorno financeiro de antes com suas produções cinematográficas. vide a tentativa da empresa do Mickey de tentar emular seu próprio Star Wars, com a produção Abismo Negro (Buraco Negro – 1979), e precisava reagir imediatamente.

Enredo:

Em Tron, o talentoso engenheiro de computação Kevin Flynn descobre que Ed Dillinger, um executivo da sua empresa, está roubando o projeto que ele desenvolve na horas vagas, que são jogos eletrônicos que serão comercializadas em máquinas do tipo arcade. Para provar que os programas foram desenvolvido por ele, Flynn tenta invadir o sistema central, mas acaba sendo transportado para o mundo digital em um programa antagônico. Flynn passa a ser um “usuário” dentro dos jogos e tem que lutar pela sua própria vida dentro do game e não ser “apagado” junto com outros personagens derrotados. Com isto ele acaba conhecendo um programa que luta pelos usuários, Tron, e juntos tentam deter o MCP (Master Control Program), programa que comanda aquele mundo virtual.

TRON-POSTER Análise: Tron - Uma Odisseia Eletrônica (1982)

Produção:

A ideia do filme Tron surgiu por volta de 1976, quando o animador Steven Lisberger, ficou intrigado com o antigo videogame Pong. Lisenberg fazia animações e propagandas publicitárias para estúdios…, ele e o produtor Donald Kushner montaram um estúdio de animação para desenvolver Tron com a intenção de fazer um filme de animação.

De fato, para promover o estúdio em si, Lisberger e sua equipe criaram uma animação de 30 segundos com a primeira aparição do personagem homônimo. Por fim, Lisberger decidiu incluir elementos de ação ao vivo com animação retroiluminada e computadorizada para o filme real. Lisberger levou seu projeto a vários estúdios de cinema (Warner Bros., MGM, e Columbia Pictures), mas todos eles rejeitaram os storyboards do filme.

Em 1980, eles decidiram levar a ideia ao Walt Disney Studios, que estava procurando produções mais ousadas na época, principalmente depois da revolução causada por Star Wars, sobretudo na ficção científica. Tom Wilhite, então vice-presidente de desenvolvimento criativo da Disney, assistiu às imagens de teste de Lisberger e convenceu Ron Miller, Presidente do estúdio, a dar uma chance ao filme. No entanto, os executivos da Disney não estavam certos em dar  de US$ 10 a US$ 12 milhões para um produtor e diretor de primeira viagem usando técnicas que, na maioria dos casos, nunca haviam sido tentadas antes. O estúdio concordou em financiar um rolo de teste que envolvia um jogador de frisbee lançando um protótipo dos discos usados no filme. Foi uma chance de misturar cenas de ação ao vivo com animação retroiluminada e imagens geradas por computador. O resultado impressionou os executivos da Disney e eles concordaram em apoiar o filme. O roteiro foi posteriormente re-escrito e storyboards refeitos com o aval da Disney no projeto. O próprio Steven Lisberger foi o escolhido para a direção.

Na época, a Disney raramente contratava pessoas de fora para fazer filmes para eles e o produtor Kushner descobriu que ele e seu grupo recebiam uma recepção menos que calorosa porque eles “atacavam o centro nervoso – o departamento de animação. Eles nos viam como o germe de fora. Nós até tentamos recrutar vários animadores da Disney, mas ninguém aceitou. A Disney é um grupo fechado” . Mesmo assim a Disney investiu pesado no filme (por volta de U$ 17 milhões, considerado um orçamento de grandes produções). Dentro do estúdio, apenas Abismo Negro custou mais. Devido aos muitos efeitos especiais, a Disney decidiu em 1981, filmar Tron completamente em Super Panavision de 65 mm (exceto para as camadas geradas por computador, que foram gravadas no VistaVision de 35mm anamórfico e Super 35, que foram usadas para algumas cenas no mundo “real” e, posteriormente, “importados” para 65 milímetros). Três designers foram contratados para criar a aparência do mundo da computação. O artista francês de quadrinhos Jean Giraud (também conhecido como Moebius) foi o principal figurinista do filme. A maioria dos projetos de veículos (incluindo o porta-aviões da Sark, as motocicletas de luz, o tanque e o veleiro solar) foram criados pelo designer industrial Syd Mead. Peter Lloyd, um artista comercial de alta tecnologia, projetou os ambientes. No entanto, esses trabalhos frequentemente se sobrepunham, deixando Giraud trabalhando no solar e no terreno, nos cenários e no logotipo do filme. O design original do personagem Program foi inspirado no logotipo da Lisberger Studios de um fisiculturista brilhante arremessando dois discos.

O elenco foi encabeçado por Jeff Bridges (O Grande Lebowisky, Homem de Ferro), que ficou com o papel principal de Kevin Flynn. Bruce Boxleitner foi o personagem Alan Bradley, amigo de Flynn e, no mundo virtual, o personagem Tron, e Cindy Morgan foi a Dra. Lora Baines, amiga de Flynn e namorada de Bradley, sendo no mundo virtual a personagem Yori, braço direito de Tron. O vilão da estória foi David Warner que interpretou Ed Dillinger, o vice-presidente executivo da ENCOM, onde Flynn trabalha e que roubou seus projetos, sendo que no mundo virtual ele foi Sark, o Programa Master Controle, um ditador virtual.

A música do filme ficou a cargo da pioneira da música eletrônica Wendy Carlos (Laranja Mecânica), em uma trilha que também misturava elementos orquestrais e dava um tom mais sinistro à trama.

Recepção:

Apesar de todo investimento da Disney e do visual impressionante, o filme foi um relativo fracasso. Rendeu pouco mais de US$33 milhões. Mesmo com investimentos na parte de marketing, o filme foi recebido com certa frieza, em um ano quase épico para o cinema, já que o filme E.T. – O Extraterrestre de Steven Spielberg acabou se tornando no período o filme mais lucrativo da história do cinema. Também outras ficções científicas, como Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan e Blade Runner, não deram muito espaço para Tron.

O longa foi o primeiro filme a abordar “o mundo virtual”, um conceito que ficaria mais tarde conhecido na ficção-científica por obras cyberpunks. Em uma época em que a computação estava engatinhando ainda dentro dos lares americanos e os games eram ainda uma grande novidade e a Internet praticamente não existia, a linguagem usada no filme foi considerada bastante técnica e confusa (mainframe, ROM, CPU, vírus de computador, sistema operacional, etc.) para pessoas que ainda não estavam ambientadas com o universo da informática, que começava timidamente a chegar nos lares americanos.  Mundos virtuais, realidade virtual, inteligência artificial, robótica, parecem hoje algo muito comum, mas em 1982 era algo que poderia se tornar bastante enfadonho e chato em um filme. O tema também parecia muito sinistro e menos familiar o que deve ter assustado muita gente do chamado “público família Disney”.

O Legado e além…

Por anos, Tron – Uma Odisseia Eletrônica, foi esquecido pelo público. Nunca foi campeão de vendas no home-vídeo, mas um público específico de fãs de games e literatura cyberpunk começaram a cultuar o mesmo, em um pequeno nicho específico. Anos depois que filmes como O Passageiro do Futuro (1992) ou a trilogia Matrix (1999) ditavam a nova tendência cyberpunk no cinema, o resgate do filme passou a ser evidente. O animador John Lasseter, um dos cabeças da animação Disney/Pixar, disse que sem Tron, não haveria Toy Story. Em 2008, o filme foi eleito pelo American Film Institute um dos vinte mais importantes filmes de ficção-cientifica de todos os tempos.

O certo é que Disney viu este “cultuamento” ao filme original como uma forma de pensar em algo novo para os fãs. Em 2002, depois de vários anos de tentativas, o produtor Steven Lisberger revelou à revista Cinescape que  já tinha escrito dois rascunhos de roteiro para Tron 2.0. e que o filme estava previsto para 2003. Segundo Lisberger, a sequencia foi inspirada no livro O Coração das Trevas, de Joseph Conrad (que também inspirou Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola). Ao que tudo indica, no novo filme o personagem de Jeff Bridges se tornaria uma espécie de “Kurtz” do mundo virtual.

Antes de dar início à produção do novo longa-metragem em 2003, a Disney apoiou o lançamento de um game baseado no filme, por sua produtora de jogos, Buena Vista Games. O lançamento do jogo Tron 2.0, foi um relativo sucesso, tendo vários reviews positivos da crítica especializada. A Disney autorizou um lançamento da minissérie em quadrinhos, Tron: The Ghost in the Machine, que acompanhava o enredo do game.  A “Empresa do Mickey” estava preparando o terreno para algo maior…

As boas vendas do jogo inspiraram a Disney a continuar o desenvolvimento da sequência do filme. Porém, uma notícia publicada em 2005 pela Variety trouxe descontentamento entre os fãs. Lisberger não seria mais o roteirista e foram contratados Brian Klugman e Lee Sternthal para o novo filme, que seria uma refilmagem do original. “Vamos modernizar a história, trazendo aquelas ideias inovadoras para o presente para criar apelo entre as novas gerações“, comentou Klugman. Os escritores também iriam usar a Internet na história, algo que não existia, da forma como é hoje, em 1982.

Em 2007, o então diretor de comerciais, Joseph Kosinski, começou a negociar com a Disney, sobre dirigir a continuação. A princípio, ele não estava interessado, mas após uma reunião com o então presidente da Disney, Sean Bailey, resolveu abraçar o projeto, mas pela ideia de Kosinski, o novo longa não usaria a Internet como modelo ou fórmulas emulativa da série de filmes Matrix, ele estava a fim de algo diferente e novo. Houve um choque de ideias entre Bailey e Kosinski, e como nenhum dos dois indivíduos estava em acordo quanto à escolha de uma perspectiva para conceber o filme, Kosinski pediu a Bailey que lhe emprestasse dinheiro para criar um protótipo conceitual do universo Tron. “Então, fomos para a Disney“, lembrou ele, “e eu disse a eles: ‘Podemos conversar sobre isso o dia todo, mas para realmente entrar na mesma página, preciso mostrar a você como esse mundo se parece. Dê-me algum dinheiro e deixe-me fazer um pequeno teste que lhe dará uma sugestão para alguns minutos e veja o que você pensa’ e eles toparam”.

O curta que Kosinski montou,acabou sendo apresentado na edição 2009 da San Diego Comic-Con International, com muita aclamação entre os fãs, já que também havia a participação do ator original Jeff Bridges, que aceitou participar da continuação. O ator falou ao site Collider sobre o projeto: “as razões pelas quais eu devo fazer este são as mesmas pelas quais fiz o original, sua inovação. E eles já me disseram que têm vários novos truques nesse sentido… inovações que eles querem apresentar que devem ser divertidas de fazer”.

O sucesso do curta junto ao público foi a porta aberta ao projeto e a Disney imediatamente autorizou a produção do novo filme, a continuação Tron: Legacy (2010), dirigido por Joseph Kosinski com roteiros de Eddie Kitsis e Adam Horowitz. O criador e diretor original, Steven Lisberger, foi convidado a se juntar ao projeto como produtor e consultor da produção.

A trilha sonora ficou a cargo da banda eletrônica francesa Daft Punk. No novo filme, passado mais de 25 anos, Sam (Garrett Hedlund), filho do famoso programador de jogos de computador Kevin Flynn (Jeff Bridges) é assombrado há muito tempo pelo misterioso desaparecimento do pai. Certo dia, um sinal estranho leva Sam ao antigo fliperama de Flynn, onde é puxado para dentro do mundo cibernético, o mesmo em que seu pai está preso desde seu sumiço. Lá dentro, a guerreira Quorra (Olivia Wilde), Kevin e Sam procuram escapar de um universo que, embora magnífico, é muito mais avançado e perigoso do que Kevin tinha imaginado.

Tron: Legacy, lançado em 3D em dezembro de 2010, teve uma recepção muito melhor que o seu antecessor. O custo foi de U$170 milhões e a arrecadação mundial por volta dos U$ 400 milhões (houve uma certa crítica de que o 3D não funcionou de forma correta para as cenas mais escuras e a Disney esperava arrecadar mais de U$ 500 milhões com o filme). Um novo game e uma história em quadrinhos foram desenvolvidos posteriormente. Também houve a nova animação no Disney Channel, Tron: Uprising, lançada em 2012, um prequel de Tron: Legacy, infelizmente cancelada na primeira temporada, com vozes de Elijah Wood, Lance Henriksen e Mandy Moore. Olivia Wilde emprestou sua voz para a personagem Quorra, a mesma do filme.

Sobre o futuro da franquia ainda existem muitas dúvidas. O diretor Joseph Kosinski, chegou a desenvolver uma sequência para Tron: Legacy, que se chamaria Tron: Ascension, mostrando as consequências do final do filme. O mesmo chegou a entrar em pré-produção, e os roteiristas Adam Horowitz e Edward Kitsis já tinham desenvolvido um novo roteiro. Em 2015, a Disney mandou cancelar o projeto. Em 2018, o ator , Garrett Hedlund, revelou que a motivação da Disney para cancelar foi “Quando o próximo Tron deveria começar – ele já tinha sido autorizado, e estávamos prontos para filmar – a Disney teve problemas com os resultados de Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível. Acho que chegaram a pedir centenas de razões para fazer o terceiro filme.”

Em março de 2017, em entrevista ao Collider, Kosinski resolveu contar um pouco sobre o andamento do roteiro e da produção de Tron: Ascension antes do cancelamento: “Tínhamos 80% do roteiro pronto. Estava bom. Nós estávamos a oito ou nove meses do início das filmagens, que é uma boa distância do começo da produção, mas eu acho que o roteiro estava muito bom. Estava animado com o conceito: seria um filme de invasão vindo de dentro da máquina, diferente de tudo o que já vimos. Nós fizemos uma referência a isso no final de O Legado, quando Quorra (Olivia Wilde) saiu da máquina, mas a ideia de Ascension seria fazer um filme em que o primeiro ato se passaria no mundo real, o segundo ato no mundo de Tron, ou múltiplos mundos de Tron, e o terceiro ato totalmente no mundo real. Eu acho que isso abre, expande o conceito de Tron de uma forma que seria empolgante de se ver no cinema. Mas também há um estudo de personagens interessante sobre Quorra, uma estranha em uma terra estranha, que está tentando descobrir a que lugar realmente pertence após ter vivido alguns anos no mundo real, onde ela se encaixa […] Acho que a ideia é boa, é só uma questão de encontrar o tempo certo e o lugar certo e de esperar as estrelas se alinharem como elas fazem para produzirmos filmes“, completou o diretor.

Boatos de dentro da Disney dizem que a empresa ainda estaria interessado na franquia Tron, e que o projeto ainda está na geladeira, mas não definitivamente cancelado. Ficamos no aguardo!

Avaliação
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Ricardo Melo

Profissional de TI com mais de 10 anos de vivência em informática. Tem como hobby assistir seriados de TV, ir ao cinema e namorar!!! Fã de rock'n'roll, música eletrônica setentista, ficção-científica e estudos relacionados a astronáutica. Quis ser astronauta, mas moro no Brasil... Os anos 80 foram meu playground!

2 comments

  • Dra Brinquedos:

    roteiro ingenuo (coisa da epoca)… continuacao fraca… uma pena

    • Ricardo Melo
      Ricardo Melo:

      Só o primeiro filme, até concordo, já o segundo não, achei que foram bem corajosos.

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