Maxiverso

Crítica: Ponto Cego (Blindspotting)

Direção: Carlos Estrada Lopez

ElencoDaveed Diggs, Rafael Casal, Janina Gavankar, Jasmine Jones, Wayne Knight,Kevin Caroll e Tina Campbell Marshal

Nota 5/5

Faltando poucos dias para o fim de sua condicional, Collins (Diggs) trabalha em uma empresa de mudança durante o dia. Mas, ao voltar para casa, ele testemunha um crime contra um homem negro que o faz repensar sobre como deve denunciar (ou não), ao mesmo tempo em que precisa lidar com assuntos corriqueiros do dia a dia . Obviamente rotinas permeadas de preconceito, indiferença e injustiças que fazem Collins um homem com semblante tranquilo, mas ciente que mais cedo ou mais tarde deverá enfrentar seus medos.

Se há alguma justiça a ser feita dentro do cinema para as premiações, Ponto Cego do diretor estreante Carlos Lopez Estrada deverá repetir, no mínimo, o caminho trilhado por Corra! ano passado. E se o filme do diretor Jordan Peele usou o terror como metáfora e pano de fundo para escancarar o preconceito da sociedade, Estrada aposta em parte no humor como base para reabrir a ferida que nunca cessa da violência e injustiça contra a comunidade negra. Mostrando total controle narrativo de sua obra, o diretor transita de maneira extremamente orgânica entre situações onde o humor ácido flui de maneira funcional com outros de maior tensão. Reparem por exemplo em toda construção da sequência em que Collin se envolve em um briga; onde o diretor começa criando uma rima devido ao uso da trilha sonora que iniciou o longa com o protagonista na prisão (no caso a ópera de Verdi) sendo aqui repetida para depois quase em passe de mágica estarmos envolvidos naquela discussão permeada de violência (para no final retornarmos ao humor, por assim dizer, devido a bebida que iniciou a agressão).

Usando por várias vezes o recurso da tela dividida sempre para apresentar os contrastes, tanto pessoal quanto social, como em um determinado momento que vemos de uma lado casas luxuosas e de outro a pobreza de um bairro de Oakland, a direção abre espaço para outras discussões. Ademais, a apropriação imobiliária também é alvo de críticas do diretor de maneira tocante, uma vez que normalmente as antigas residências destruídas e que darão lugar a novos moradores, são permeadas de lembranças dos antigos moradores da comunidades que ficarão apenas registradas em álbum de fotografias. Pessoas nunca ouvidas, nunca vistas e sempre tidas como inferiores, não sendo coincidência que, ao se preparar para mais um destas mudanças, a nova proprietária é vista de um ângulo superior em contraste a posição de Collins (Inclusive, durante as primeira cenas, há uma predominância de uma luz azulada que me remeteu quase como uma pequena referência a Moonlight. Contudo, não é errado dizer que o diretor Carlos Lopez Estrada tem seus momentos de inspiração em Scorsese/Tarantino quando usa o vermelho projetado sobre a face de Collins indicando uma violência acontecendo – seja ela um crime em si ou o próprio simbolismo que o sinal fechado traz para ele).

Trazendo sequências cheias de simbolismos que não somente apontam o preconceito na cara do espectador, mas servindo como um tapa, Ponto Cego apresenta também umas das mais emblemáticas e fortes cenas dentro do cinema do ano. É exemplar, como todo o longa, que em um de seus sonhos, o protagonista nos apresenta um pesadelo que faz parte da realidade de toda comunidade negra, onde a autoridade inicialmente sem rosto assume o papel de policial, juiz e executor sempre nas sombras (brilhantemente engrandecido pelo fato da trilha criar a rima da batida do martelo se confundido com tiros , ao mesmo tempo trazendo em cena um júri acorrentado diante da “lei”). E como não poderia deixar de ser, o plano que remete às mortes destes, não somente pelo impacto causado, mas pela representatividade e denúncia contida nela, serve perfeitamente como ecos que ressoam na mente do espectador, e que para muitos será apenas um mural com fotos e velas acesas em uma rua pouco movimentada, com transeuntes ignorando a dor de parentes e amigos, como se fosse algo corriqueiro (o que de certa maneira infelizmente é). Além do mais, mesmo sempre invocando o humor e o colorido, é interessante que situações sejam feitas de maneira sutil, como o fato de que estas mesmas pessoas (brancas), por exemplo, tentam demonstrar algum tipo de senso de justiça social dando ”festas mistas” com três negros!

Ademais, é contundente pelos detalhes que nem a mídia escapa da crítica do diretor, pois é interessante reconhecermos a maneira que a imprensa trata os suspeitos ao mostrar um policial envolvido sempre de uniforme (e o respeito que a farda traz) em contraponto a vítima com roupa de presidiário e não em roupas civis. E se a narrativa já é algo que devemos aplaudir, o roteiro de Rafael Casal e Daveed Diggs constrói um belo cenário para personagens dentro de um cenário social complexo e obviamente crítico sobre a questão racial. Até porque, não é por acaso, que o próprio Rafael Casal atue no longa como o âncora (não necessariamente moral) do protagonista, onde seu personagem Miles (será inspirado em 8 Miles de Eminem?) traz uma complexidade que casa perfeitamente com o filme e sua temática. Sempre imprevisível e amigável, Miles é a uma espécie de discussão em pessoa. Casado com uma mulher negra, vivendo em bairro negro e inserido em toda aquela cultura, ele se torna um elemento de apoio e destruição para Collins por, mesmo que ele nunca tenha consciência disso, jamais ser visto como um pelas autoridades (ou seja, por mais que tente, a culpa sempre caíra sobre o amigo). E se neste panorama cultural – é importante frisar – cada frase dos diálogos emana a força necessária e a acidez mencionada anteriormente; pois ao ouvirmos “Ninguém te interpreta mal” sabemos que o tratamento dado a Collins sempre será baseado na suspeita (aliás, se torna genial que em alguns momentos estes mesmo diálogos sejam declamados quase com um rap, engrandecendo aquela atmosfera).

E se até quase seu final, Ponto Cego já se tornou representativo, a direção nos entrega um clímax brilhantemente intenso pela sua importância e condução servindo como um alento contra aquilo que todos aqueles conflitos representam. Assim, a tensão que se mantém durante todo o momento, acaba servindo como metáfora para o medo que estas pessoas sentem; e não podemos nos cegar para estes mesmos dramas na sociedade em que crianças se habituam à violência policial… e que estamos condicionados a ver como “pontos cegos”.

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Ponto Cego (Blindspotting)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

4 comments

  • Bellator:

    tecnicamente defendo o filme, muito bom, so achei que ele pesa a mao um pouco em alguns momentos, e como o clima geral do filme nao eh pra tanto, acaba parecendo um melodrama em alguns momentos em que devia ser apenas triste ou dramático, uma pena

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Bellator
      Bem vinda
      Não problema em gostar de m filme tecnicamente e recrimina-lo moralmente. E acho que a grande qualidade do filme e poder juntar os gêneros de maneira coesa.
      Mas sua opinião é válida sim
      Abraço e sem possível curta nossa página

  • LePen:

    que atuação do Daveed Diggs heim… que ator!

  • Abud:

    bom filme, bem tocante inclusive, mesmo eu sendo branco consegui sentir o que passa um negro, como o mundo é injusto… e pra muita gente é “mimimi” isso

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