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Crítica: Animais Fantásticos – Os Crimes de Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald)

Direção: David Yates

Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Jude Law, Johnny Deep, Ezra Miller, Claudia Kim, Callum Turner e Zoe Kravitz

Nota 3/5

Se mantendo capaz de envolver o espectador em um mundo novo, mas sem desviar por completo do universo da saga vista em Harry Potter, assim como feito no primeiro Animais Fantásticos e Onde Habitam, este Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald dirigido por David Yates envolve o espectador neste cenário de fantasia, de criaturas fantásticas, e claro, magia, de maneira orgânica e eficiente ao trazer novamente aqueles elementos que o público espera, como as frases emanando a magia para coisas “triviais”, a presença dos ministérios de bruxos espalhados pelo mundo, a famosa trilha sonora reconhecida dos filmes do próprio Harry… Portanto, mesmo apresentando problemas contundentes em seu roteiro (algo de que falarei a seguir), o filme tem carisma suficiente para evitar que tal elemento torne a obra problemática por completo; principalmente quando a história abrange aspectos sociais e questões políticas.

Assim, o protagonista Newt (Redmayne), atendendo ao pedido de Dumbledore (Law, mantendo uma interessante presença como a versão rejuvenescida do poderoso bruxo), parte às escondidas para a Europa em busca do paradeiro do jovem antes de Greenwald; para isso ele contará com a ajuda de Jacob (Floger), Queenie (Sudol) e Tina (Waterson), ao mesmo tempo em que precisa resolver suas questões pessoais com a amada Leta Lestrange (Kravitz) que irá se casar com seu irmão Theseu (Turner).

O roteiro da própria J. K. Rowling, baseado em seu próprio livro, acaba se tornando vítima da própria responsabilidade em abraçar tramas paralelas e conflitos que, mesmo que vão se encontrando no terceiro ato do filme, causam cansaço – e caso se retirasse um ou dois núcleos, os mesmos não fariam falta alguma (inclusive, tive a percepção que precisava ter me atualizado um pouco mais sobre o primeiro filme pelo fato de não conseguir mais lembrar exatamente da trama anterior, mas enfim…). Tanto que tal inchaço acaba prejudicando o próprio entendimento e identificação do público, onerando a própria montagem que tem que se virar para dar conta de várias frentes que – em determinado momento, inclusive – eu já tinha me esquecido do objetivo principal do filme, devido à necessidade de desenvolver as ações; como, por exemplo, o conflito entre o casal Jacob e Queenie Goldstein, o próprio amor de Newt por Leta, envolvendo o irmão do próprio protagonista, o passado desta mesma Leta relacionado à trama principal envolvendo Credence, o embate psicológico  entre Dumbledore e o vilão Greenwald… Aliás, tudo isso ainda é mais prejudicado em seu terceiro ato quando, de maneira totalmente expositiva, o roteiro criar reviravoltas sem qualquer delicadeza e acaba criando um paradoxo quando Leta tenta explicar a origem de Credence que contradiz (ou fica mal explicado) o segredo contado no final do filme.

Narrativamente falando, logo na seqüência de abertura, a direção comete alguns deslizes devido aos excessos de cortes que acabam prejudicando a mise-en-scene e demonstrando que David Yetes não parece muito saber o que fazer com a câmera  – algo que vai diminuindo com o passar do tempo, mas anda assim não serve como desculpa para um diretor experiente. Tanto que, em determinado momento, o diretor faz uso de planos mais fechados (tentando inutilmente corrigir o problema da composição espacial da sequência citada), assim como planos subjetivos e movimentos que não fazem sentido algum, como visto na cena em que Newt reencontra sua Leta pela primeira vez e a câmera posteriormente se move (mais exatamente balançando) sem serventia ou propósito claro.

Contudo, no restante dos requisitos, o longa se mostra novamente competente ao dimensionar toda aquela atmosfera de magia dentro de um mundo real. Para isso, a reconstituição da Europa dos anos 20 se mostra elogiável pelos detalhes e principalmente pelo figurino de Colleen Atwood que faz mais um trabalho admirável (assim como o primeiro) ao trazer os personagens sempre em trajes elegantes e apostando sempre em tons acinzentados e escuros independentes de serem vilões ou mocinhos; o que ajudado pela palheta de cores também quase sempre cinzenta da fotografia do veterano Philippe Rousselot (Ligações Perigosas) raramente permite que o filme “respire” um colorido engrandecendo a atmosfera e mantendo a lógica do primeiro filme. E quando o faz é sempre de maneira eficaz, como podemos ver no sequência se passada em um circo e é claro no clímax onde o diretor abusa do contraste (neste caso mais responsabilidade da equipe de efeitos especiais) entre o azul e o fogo.

Sendo assim, seria quase que impossível que tantos elementos passassem despercebidos dentro da narrativa e o peso que a mesma traz. Ou seja, como dito anteriormente, Animais Fantásticos jamais nos permite que sejamos jogados para fora daquele universo de magia e fantasia, onde o carisma dos personagens e, principalmente, as alegoria e mensagens que a obra traz, sugerem uma ambição maior para os ditos “trouxas”.

Antes de entrar naquele que talvez seja o aspecto mais importante dos assuntos que o roteiro de J. K. Rowling aborda, vale mencionar novamente o bom trabalho de Eddie Redmayne como Newt: sempre trazendo personagens frágeis em seus gestos e postura, Redmayne exala a doçura de alguém que transborda empatia pelo que o cerca independente de ser visto ou não como esquisito devido as suas habilidades com animais exóticos. Assim, juntamente com o restante do elenco, a obra consegue manter a química entre eles, mesmo que seja inevitável que alguns destes personagem sejam – ou soem – pouco funcionais (pelo menos até agora), como a trama com a jovem Nagini (Kim) servindo de par romântico de Credence.

Ademais, um importante diálogo entre o protagonista e outro personagem resume bem seu estado e resume bem aquilo que o filme traz de mais importante: a luta contra a opressão e respeito à diversidade. Ao dizer a frase “Não existem pessoas estranhas, existem pessoas preconceituosas” ao responder sobre sua personalidade dita estranha, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald reafirma sua veia política ao usar uma plataforma popular (os livros de Rowling, obviamente) e se mostra ainda mais atual em uma época em que cada vez mais somos assolados pelo fantasma do conservadorismo (e neste momento, obviamente, alguém ira gritar contra tal elemento dizendo ser “apenas” um blockbuster –  a mesma lógica se aplica aos novos filmes de Star Wars, por exemplo, rechaçados por parte dos ditos “fãs” por sua inclusão e questões políticas  – como se uma obra cinematográfica não fosse a percepção da nossa realidade).

Assim, nada mais emblemático também, em que numa bela cena com panos gigantescos cobrindo os prédios em Paris, claramente temos uma alegoria para a invasão nazista à capital francesa na Segunda Guerra Mundial e todo o simbolismo que representa ao vermos o fascismo se estabelecendo. Movimento este liderado por alguém que usa o velho discurso travestido de uma luta pela liberdade, sendo que eles vão esquecendo que esta tal “liberdade” que eles pregam, tem como base eliminar (matar) tudo aquilo que vêem como diferente ou “inferior” (leia-se minorias, por exemplo). O que nos traz ao imponente discurso de Greenwald diante de uma platéia sedenta por mudanças, onde o vilão faz uso da influência do carisma e expressões bem calculadas; como o fato de evitar usar em público expressões que desvalorizem os tolos (algo como: “eu não sou preconceituoso, mas…“). Portanto, é elogiável que a obra traga alguma profundidade para o vilão de Johnny Depp; claro que todos os clichês de antagonista estão presente em sua aparência, mas ao defender uma causa para os bruxos (assim como feito por Magneto em X-Men, para os mutantes), conseguimos criar a identificação (mesmo não concordando com seus atos) que rapidamente trazemos para nossa realidade.

Ademais, não é para menos que tal cenário acaba atingindo até mesmo lugares que existem como símbolo do pensamento livre e obviamente contrário ao autoritarismo: Hogwarts. Onde a famosa escola sofre uma espécie de macarthismo que infelizmente presenciamos em 2018. Assim, Animais Fantásticos – Os Crimes de Grindelwald abraça sua vertente em vários outros momentos como na frase “Todos devemos escolher um lado” simbolizando o tempos em que onde tais líderes se levantam e se aproveitando da insatisfação de parte da população para dar base a sua causa – normalmente travestida também de “antes era melhor”. Exemplos não faltam ao filme e além da presença de Greenwald, temos no próprio dilema do casal Jacob e a inocente Queenie que, devido ao fato da proibição de bruxos não se relacionarem com humanos normais, diz que pretende ir para determinado país porque são progressistas e aceitariam o amor do casal sem preconceito!

Trazendo poucas recompensas aos mocinhos com rupturas pessoais, o que de certa maneira – mesmo sabendo que isso é apenas um ganho para futuras continuações – é bem vindo por não apostar no óbvio, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é eficientemente capaz de criar o desejo de retomar aquele universo; sem esquecer que temos uma mensagem a absorver enquanto esperamos por isso.

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

9 comments

  • Dr Jair:

    Filme legal… dá pre ver que foram retiradas algumas partes no corte final, pois algumas cenas tem um salto de tempo “estranho”, mas nada que atrapalhe o caminhar do filme. Vale a pena ir ver.

    • Nicolas Fortes:

      O filme é ruim. Ponto. Na verdade, ele fica bom nos 30 minutos finais, quando chega a parte do cemitério e quando Grindelwald assume o protagonismo. Na verdade, a melhor coisa do filme é o personagem de Depp, mas é pouco, muito pouco.
      Vários personagens jogados na tela apenas pra aparecer. Várias situações envolvendo animais que servem apenas como alívio cômico, várias inconstâncias no roteiro que são inadimissiveis pra qualquer fã da saga original (como assim McGonogall em Hogwarts naquela década? Como assim Dumbledore lecionando Defesa Contra Artes das Trevas?).
      Nem mesmo os novos personagens convencem. Nao dá pra engolir as motivações da Queenie (tá, ela pode estar enfeitiçada, mas foi desnecessário). E definitivamente não dá pra engolir a identidade real de Credence. Qualquer um que conhece a história de vida de Dumbledore sabe que aquilo é impossível ! Ok, Grindelwald também pode estar mentindo, mas pra mim foi um erro escolher esse caminho. Não vou nem citar o drama familiar de Leta, pq foi só enxer linguiça.
      Pra um filme onde apenas o quarto final presta e tem tantos pontos desfavoráveis, realmente foi decepcionante.

    • Rodrigo Rodrigues
      Rodrigo Rodrigues:

      Jair
      Obrigado pelo comentário. Bem, é uma observação interessante, você demonstrou que pode ter ocorrido problemas nas edição.
      Abraço e se possível curta nossa página!

  • Nuno:

    Discordo da critica. No meu ver o filme falha miseravelmente no que se propoe, ja que dificilmente nos identificamos com os protagonistas, além do enredo insosso e picotado acabar por dar sono. Sobrevive apenas e tão somente por conta de ser um spin off de Harry Potter, cujas referencias nos deixam avidos por mais citações às “futuras” aventuras de Harry, o heroi mais chato – e amado – que ja existiu.

  • Kengo:

    curti muito o filme, concordo que é bem melhor que os Harry Potter, que eu adoro

  • Intercontinental:

    esse filme é bem legal bem melhor que o Harry Bost…* rsrsrsrsrsrs

  • Primo:

    JKR é a maior autora mulher de todos os tempos! Harry Potter é a melhor saga que o cinema ja viu, considerando a quantidade de filmes!

  • Rodrigo Rodrigues
    Rodrigo Rodrigues:

    Bem vindo Samaritano
    Dediquei um parágrafo inteiro ao roteiro e seus problemas. Assim como outros aspectos técnicos (também importantes)
    E quanto ao deslumbre, a culpa não é minha, está no filme. Fora que estes “deslumbres” também fazem parte do roteiro!

    Abraços

  • Samaritano:

    O autor preparou o internauta pra ler sobre problemas no roteiro, mas enveredou por deslumbre qt a questoes sociais do filme e acabou esquecendo da parte que interessa mais aos leitores das criticas: os tais dos problemas do roteiro…

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