disclosure

Direção: Steven Spielberg

Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo, Wyatt Russell, Henry Lloyd-Hughes, Elizabeth Marvel, Michael Gaston, Jim Parrack, Gabby Beans, Tommy Martinez, Swanmy Sampaio, Mckenna Bridger, Noah Robbins e Elliot Villar.

Por se tratar de um filme de Steven Spielberg, analisar Dia D passa necessariamente por duas vertentes: uma narrativa autobiográfica do próprio diretor e a abordagem de um tema — os extraterrestres — que ele trabalhou diversas vezes em sua filmografia. Não é coincidência que seus três últimos filmes (Jogador Nº 1, Amor, Sublime Amor e Os Fabelmans) tratem, direta ou indiretamente, do cineasta, de suas marcas registradas e de tudo aquilo que o influenciou a se tornar um dos maiores realizadores de todos os tempos. Em Dia D, sua principal qualidade está no fato de que o diretor, já próximo dos 80 anos de idade, ainda imprime com naturalidade um controle narrativo que parece não exigir esforço algum, dando espaço para entendermos que, enquanto espécie, ainda precisamos compreender a empatia como algo fundamental para nossa sobrevivência. Todavia, se Dia D se apresenta como um filme de Steven Spielberg, isso também traz um elemento que prejudica a obra: seu roteiro.

Escrito em parceria com David Koepp — colaboração que já rendeu obras como Jurassic Park (1993), adaptação do livro de Michael Crichton, e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal —, não deixa de ser significativo que o segundo seja considerado o mais fraco da franquia do arqueólogo. Afinal, quando precisou entregar maior substância dramática à história, o filme enfraqueceu. É mais ou menos o que acontece em Dia D, que apresenta alguns escopos interessantes, mas claramente não possui capacidade ou conhecimento suficientes para desenvolvê-los, soando, em certos momentos, pueril demais para um tema tão complexo.

dia_d_ Crítica: Dia DNão que isso seja uma necessidade nas obras do diretor, até porque Spielberg sempre procurou envolver emocionalmente o espectador quando abordava elementos fantásticos. Mas aqui, o roteiro de Koepp introduz tópicos sobre os quais precisava assumir a responsabilidade de se aprofundar. A humanidade está prestes a confirmar — e divulgar — a existência de alienígenas por meio de provas em vídeo roubadas pelo Dr. Kellner (O’Connor), que trabalha para um grupo de desertores liderado pelo personagem de Colman Domingo, enquanto são perseguidos por uma ONG comandada por Colin Firth. Paralelamente, a jornalista Fairchild (Blunt) recebe uma espécie de chamado que a faz adquirir a habilidade não apenas de falar várias línguas, mas também de compreender o que se passa na mente das pessoas, precisando entrar em contato com o grupo do Dr. Kellner. É interessante, portanto, que essa capacidade seja utilizada para confortar indivíduos e fazê-los entender que tudo possui uma razão de ser, reforçando a necessidade da piedade e da empatia como valores humanos.

Esse sentimento é potencializado pela incapacidade das nações de trabalharem em prol do bem comum em um mundo cada vez mais interconectado pelas telas dos celulares, que acabam distanciando as pessoas de sentimentos básicos. E, embora isso não pareça inocente, como sugerido no início do texto, quando o roteiro adentra o terreno da incomunicabilidade e, principalmente, das implicações religiosas da existência alienígena, fica evidente que ele oferece pouco além de fragilidade e instabilidade conceitual. A presença de Jane Blankenship (Hewson) como uma ex-freira que acompanha o Dr. Kellner, assim como a figura de sua madre superiora (Marvel), é a chave para a discussão entre fé e a confirmação da vida extraterrestre. Contudo, o que mais transparece nesses questionamentos é uma limitação quase ingênua diante de assuntos tratados de forma muito mais robusta em obras-primas como A Chegada e Contato.

Dito isso, e mesmo que o uso de animais em CGI cause certo incômodo, Spielberg demonstra domínio e vitalidade no controle de sua câmera, algo já observado no remake de Amor, Sublime Amor (2021). O diretor mantém o ritmo, chegando ao ponto de iniciar o longa in media res (no meio da ação), criando também brincadeiras visuais e transmitindo informações por meio da mise-en-scène, como no corte entre a chuva de granizo e os cereais, ou nas imagens de personagens atravessando o enquadramento de outros, denunciando a dinâmica existente entre eles. Além disso, a fotografia de Janusz Kaminski demonstra uma sintonia com o estilo de Spielberg que somente alguém responsável por parcerias em obras como A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan poderia alcançar. E isso não ocorre apenas porque o filme é constantemente preenchido pela tradicional contraluz característica do diretor, mas também pela forma como brinca com elementos capazes de gerar ameaça. Um bom exemplo é o momento em que o Dr. Kellner, preso em um quarto, observa uma presença se aproximando pela janela, como se estivéssemos à espera de uma abdução.

Trata-se de uma ligação temática evidente com Contatos Imediatos do Terceiro Grau, e não por acaso. Dessa forma, é autorreferencial que Dia D funcione como uma espécie de visão macro daquele clássico, ao acompanhar alguém incumbido de uma missão — aqui, a personagem de Emily Blunt, em contraste com Richard Dreyfuss no filme de 1977. Não que Contatos Imediatos não apresente grande escala em seu desfecho, mas ali os acontecimentos permanecem mais concentrados em uma realidade local, refletindo a experiência de seu protagonista. Já em Dia D, por Fairchild ser uma jornalista, sua missão assume uma dimensão mais ampla, servindo como elo entre a verdade e o público global — algo que boa parte da imprensa mundial deixou de fazer.

Ademais, Spielberg também demonstra energia nas sequências de ação, como na perseguição automobilística envolvendo um trem, sem que a narrativa precise gritar com o espectador por meio de cortes excessivos. Isso ocorre porque o diretor transforma sua linguagem em algo que não busca chamar atenção para si mesmo e, justamente por isso, torna-se essencial: seus planos duram o tempo necessário para não se tornarem nem longos nem curtos demais, preservando a clareza dos acontecimentos em cena. Ao trazer os tradicionais elementos infantis como ponto de vista, Dia D ainda permite — por intermédio da trilha sonora de John Williams — que seu clímax alcance impacto emocional, abrindo margem para que as questões levantadas sejam respondidas por cada espectador de acordo com suas interpretações e crenças. Isso acaba funcionando mais como uma força temática do que propriamente como mérito do roteiro.

De qualquer forma, talvez precisemos abrir nossas mentes, compreender aquilo que nos torna especiais no universo — mas não únicos, pois isso seria um desperdício de espaço — e, acima de tudo, desenvolver a capacidade de ouvir.

The following two tabs change content below.
FB_IMG_1634308426192-120x120 Crítica: Dia D

Rodrigo Rodrigues

"Todo filme é político na medida em que política é toda forma de relação humana em que o poder está implicado" (Costa-Gavras)
FB_IMG_1634308426192-120x120 Crítica: Dia D

Latest posts by Rodrigo Rodrigues (see all)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *