Análise: 40 anos de Caçadores da Arca Perdida… a jornada do herói Indiana Jones – Parte 1

Lá se vão 40 anos que um filme de aventuras trouxe para as telas um novo tipo de herói e acabou se tornando o que é considerado o maior filme de aventuras de todos os tempos, gerando uma nova franquia lucrativa e uma série de continuações, tudo saído da cabeça de dois jovens cineastas prodígios e gênios: George Lucas e Steven Spielberg, que não coincidentemente mudaram – juntos – o cinema e a cultura ocidental (hoje, cultura “mundial”), com duas obras icônicas, Star Wars e Tubarão, respectivamente, como você pode ver clicando aqui.

Da mente desses dois revolucionários, nasceu o filme Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark) em 1981.

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A gênese do nascimento de um herói

LucasSpielberg1 Análise: 40 anos de Caçadores da Arca Perdida... a jornada do herói Indiana Jones - Parte 1
George Lucas e Steven Spielberg, os midas de Hollywood

O cineasta George Lucas era muito fã de seriados cinematográficos antigos de aventura e ficção-científica das matinés de domingo. Em 1973, após dirigir o filme Loucuras de Verão (American Grafitti), um grande sucesso de bilheteria que lhe permitiu inclusive emplacar o projeto de Star Wars, baseado em seriados como Buck Rodgers e Flash Gordon. Mas ele procurou por novas ideias a serem levadas para as telas de cinema, inspiradas nos seriados de matiné de aventuras com as produções da Republic Pictures (Deusa de Jóba), quadrinhos de Doc Savage e livros como “As Minas do Rei Salomão” (que também gerou filmes de sucesso), na qual um mocinho sempre se envolvia em aventuras em terras exóticas, geralmente junto com uma linda mocinha atrás de fortuna e glória, enfrentando vários perigos, seja vilões, piratas, tribos selvagens ou animais perigosos.

Lucas então concebeu a ideia de criar seu próprio filme contando as aventuras de um herói semelhante, pois ele queria resgatar as emoções destas matinés de domingo que ele tanto amava quando criança. Com isto na cabeça, ele concebeu o que seria As Aventuras de Indiana Smith, um professor de arqueologia, que nas horas vagas corre o mundo atrás de relíquias valiosas. O nome “Indiana” ele tirou de seu cão da raça malamute do Alasca.

Lucas estava ainda muito envolvido com a produção do primeiro Star Wars e em 1975 convidou o diretor e roteirista Philip Kaufman, para criar uma história para um futuro filme de aventura. Nas discussões semanais entre Lucas e Kaufman, lembrando-se de uma história que ouvira de seu dentista quando era criança, este sugeriu a ideia que o personagem fosse atrás da Arca da Aliança, o objeto sagrado do Antigo Testamento da Bíblia, onde Moises guardou as tábuas dos 10 Mandamentos que Deus ditou a ele. A Arca ficou em poder do povo hebreu, e depois foi levada a Jerusalém, onde um grande templo, construído pelo Rei Salomão, guardou a mesma para veneração por séculos até a relíquia sumir e desaparecer possivelmente durante a conquista de Jerusalém por Nabucodonosor II.

Lucas gostou da ideia e esperava que Kaufman escrevesse e dirigisse o filme, mas quando foi oferecido a ele a direção de Os Eleitos (The Right Stuff), ele deixou o projeto do herói arqueólogo. Lucas então, atarefado com Star Wars, guardou a história para o futuro (para nossa sorte).

Em 1977, Star Wars (conhecido hoje como Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança), foi finalmente lançado. Temendo o fracasso da produção nas bilheterias, após passar por vários problemas durante as filmagens, George Lucas se refugiou no Havaí, para esperar a poeira passar. Junto com ele estava o também diretor Steven Spielberg, que também estava relaxando após a realização de seu último filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Enquanto estavam passeando na praia e discutindo novos projetos, Spielberg disse a ele que depois de Louca Escapada (Sugarland Express), seu segundo filme, a United Artists pediu que ele fizesse um novo longa para eles. “Eu gostaria de fazer um filme de James Bond”, foi a resposta entusiasmada de Spielberg. Mas o estúdio se recusou a fazer isso, já que as aventuras de 007 eram (ainda são) um privilégio britânico por trás das câmeras, tanto quanto na frente das lentes. Então Lucas disse que tinha uma ideia muito melhor que James Bond. Lucas perguntou a ele se conhecia a história da “Arca Perdida”, e Spielberg entendeu que era a Arca de Noé, mas Lucas explicou sobre a Arca da Aliança e falou do filme que pretendia fazer sobre isto. Lucas pretendia que o herói das aventuras poderia estar em outros filmes passados no período dos anos 30 e 40, na qual o personagem principal estaria envolvido em aventuras mortais e também em eventos “sobrenaturais”. E tudo isso em um período em que as aventuras podiam acontecer, uma época romântica sem tecnologia avançada, em que o que importava era a esperteza do indivíduo contra o inimigo. Estes filmes seriam chamados de “Caçadores” mais um título acrescentado do que estariam procurando e poderiam ser lançados em sequência como uma série de cinema.

Ao ouvir tudo que Lucas disse, Spielberg ficou bastante entusiasmado, pois também cresceu vendo estes seriados de matinés e a chance de ressuscitá-los para uma nova geração de cinéfilos era tentadora além da expectativa. “Essa é uma ótima história George, eu adoraria fazer isso“, disse ele. Lucas então o informou que o filme provavelmente seria dirigido por Philip Kaufman, que o ajudou com o enredo. Mas George prometeu a Spielberg que se Kaufman não estivesse interessado, ele seria sua próxima escolha. Seis meses depois, Spielberg recebeu um telefonema de Lucas: “Você ainda está interessado naquele filme de que lhe falei no Havaí? Porque Phil não o fará agora!

Spielberg aceitou e os dois diretores começaram o trabalho de pré-produção enquanto estavam envolvidos com outros filmes. Lucas estava trabalhando com Francis Ford Coppola e Akira Kurosawa, enquanto ao mesmo tempo desenvolvia Star Wars – Episódio V – O Império Contra Ataca, a tão esperada sequência de Star Wars. Por outro lado, Spielberg dirigia 1941 – Uma Guerra Muito Louca, uma comédia com John Belushi (que no fim foi um dos maiores fracassos da carreira do diretor).

O roteiro

Lucas disse para Spielberg durante a pré-produção: “Isto será uma homenagem aos filmes B. Eles costumavam fazer quatro deles por semana, em cada estúdio, por quinze anos, dos anos 30 aos 40“, disse Lucas. Para se inspirar, eles assistiram a todos os quinze episódios de Don Winslow of the Navy e chegaram à conclusão de que pequenas coisas conseguiam resistir ao teste do tempo. O público da década de 1980 havia se tornado mais sofisticado do que há quarenta anos e nunca engoliriam algumas daquelas situações. O que eles teriam que fazer era usar esses seriados como ponto de partida e criar algo original em cima.

Lucas sugeriu que Spielberg deveria encontrar um roteirista de sua escolha, então ele decidiu encontrar a pessoa que colocaria suas ideias aventureiras no papel. Spielberg propôs Lawrence Kasdan, cujo roteiro que Spielberg estava produzindo para ser lançado em 1981, Brincou com Fogo… Acabou Fisgado! (Continental Divide) o tinha impressionado, e Lucas concordou.

Em janeiro de 1978, Lucas, Spielberg e Kasdan se encontraram na casa de Jane Bay, a secretária de Lucas, em Los Angeles para discutir em detalhes a história do filme. O personagem principal do filme se chamaria Indiana Smith em homenagem à amada cadela de Lucas, Indiana, que costumava sentar-se com ele durante as sessões de escrita. Spielberg não gostou do nome Smith, temia que lembrasse ao público Nevada Smith, personagem interpretado por Steve McQueen em um filme de 1966. Lucas então sugeriu o nome de Jones, que foi prontamente aceito. Outra situação que precisava ser resolvida era a personalidade de Indiana. Lucas o imaginou como um playboy que usaria suas expedições para financiar seu estilo de vida. Na verdade, ele fez Kasdan escrever uma cena em que Marcus Brody visita Indy em sua casa e encontra Indy vestindo um smoking enquanto uma bela loira do tipo Jean Harlow é vista bebendo champanhe na sala de estar. Spielberg e Kasdan achavam que os dois lados de Indy, professor e aventureiro, eram complicados o suficiente. Adicionar um lado playboy tornaria as coisas ainda mais complicadas, algo que não era necessário. Por outro lado, Spielberg teve a ideia de tornar Indy um alcoólatra, tipo Fred C. Dobbs, personagem de Humphrey Bogart em O Tesouro de Sierra Madre. Lucas não gostou da ideia porque queria que ele fosse um modelo para as crianças. “Ele tem que ser uma pessoa que possamos admirar. Estamos servindo de modelo para as crianças, então temos que ter cuidado. Precisamos de alguém que seja honesto, verdadeiro e confiável.” Então, eles se comprometeram com esse ideal e Indy não se tornou nem um playboy, nem um alcoólatra.

Após cinco dias consecutivos com trabalho de 9 horas, os três homens completaram o enredo. Lucas dividiu a história em 60 cenas, cada uma com duas páginas, e esboçou seis cliffhangers. Um perigo aparecia a cada vinte páginas ou mais. Como nas antigas séries, o herói entrava em uma situação mortal a cada dez minutos, apenas “que desta vez o público não teria que esperar uma semana para descobrir onde a escotilha de escape está escondida”, como escreveu Richard Schickel na revista Time . O truque era que o perigo seria o mais real possível e exigiria a esperteza do herói para superá-lo.

Em agosto de 1978, Kasdan terminou seu primeiro rascunho e o entregou em mãos a Lucas. Quando se encontraram, Lucas pegou o roteiro, colocou-o de lado, disse a Kasdan que o leria mais tarde naquela noite e o convidou para almoçar. Durante o almoço no restaurante, Lucas convidou Kasdan para escrever o roteiro de O Império Contra-Ataca. Infelizmente, Leigh Brackett, a roteirista do filme faleceu logo após entregar seu primeiro rascunho e Lucas queria que alguém fizesse as revisões. “Você não acha que deveria ler Caçadores primeiro?” foi a resposta de Kasdan. “Bem, eu tenho um pressentimento sobre as pessoas. Claro, se eu odiar Caçadores, vou revisar esta oferta”, disse Lucas. Na manhã seguinte, Lucas ligou para Kasdan e disse que estava em êxtase com o script de Caçadores e muito ansioso para que ele trabalhasse em Império Contra-Ataca.

O roteiro de Lawrence Kasdan satisfez Spielberg e Lucas. Foi uma grande história que se passava em várias partes do mundo, incluindo Peru, Estados Unidos, Xangai, Nepal, Egito e Grécia. Em seu esforço para encontrar e obter a Arca, Indy teria que enfrentar nazistas, armadilhas, nativos furiosos, espadachins árabes, dardos envenenados, superarmas, aeronaves experimentais, poderes místicos e… cobras, muitas cobras. Mas o detalhe era que o herói odiava…cobras! Lucas adorou todas as coisas do roteiro.

Equipe e Pré-produção

Em um dos primeiros encontros com Lucas, Spielberg expressou interesse em trabalhar com Frank Marshall, um jovem produtor que trabalhou em muitos filmes de pequeno orçamento e que ele esperava ajudá-lo a fazer o longa em que trabalhavam dentro do prazo e do orçamento estipulado. Lucas então ligou para ele para marcar uma reunião em sua casa. Mais tarde naquele dia, Spielberg, Lucas, Kasdan e Marshall se conheceram e Lucas o apresentou como o produtor do filme. Uma hora depois, todos apertaram as mãos e Lucas disse: “Estamos fazendo história no cinema”. Uma equipe de produção começou a se formar.

Lucas, junto com um velho colega, Howard Kazanjian, seriam os produtores executivos. “Precisávamos muito de alguém que não fosse um cara legal. É difícil ser um cara duro nessa situação. Howard pode fazer isso”, foi a explicação de Lucas. Spielberg então contratou Douglas Slocombe como diretor de fotografia e Michael Kahn como editor. Spielberg havia trabalhado com Slocombe por duas semanas durante a produção de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e estava interessado em trabalhar com ele em um filme completo. Michael Kahn editou os dois filmes anteriores de Spielberg e desde então se tornou um de seus colaboradores habituais. Lucas sugeriu Robert Watts, que trabalhou em Star Wars e O Império Contra-Ataca como produtor associado. As funções de designer de produção foram atribuídas a Norman Reynolds, que junto com Watts foi trazido a bordo em novembro de 1979 para discutir a logística.

Um mês depois, eles saíram para fazer um reconhecimento de locações. As filmagens deveriam começar na primavera de 1980.

Dale Pollock, o biógrafo de George Lucas, em seu livro Skywalking, escreveu que Lucas inicialmente queria financiar o filme sozinho, mas não podia porque estava enfrentando problemas de fluxo de caixa. Tom Pollock, advogado de Lucas em Hollywood, e Charles Weber, chefe financeiro da Lucasfilm, ofereceram o roteiro a todos os grandes estúdios, enquanto Lucas e Spielberg redigiam um contrato de uma página entre eles. Weber enviou uma carta padronizada com o roteiro a todos os estúdios. O que eles queriam na verdade era um estúdio para colocar todo o dinheiro, assumir todos os riscos e dar a eles as melhores condições que alguém já teve. Os chefes do estúdio ficaram indignados com o que ficou conhecido como o “acordo matador” de Lucas, mas todos ligaram em uma hora e disseram que queriam falar com eles.

acordo Análise: 40 anos de Caçadores da Arca Perdida... a jornada do herói Indiana Jones - Parte 1

O presidente da Paramount Pictures, Michael Eisner, disse que era um negócio impossível. Mas Eisner nunca tinha lido um roteiro melhor do que aquele e a ideia de recusar um filme da dupla dinâmica de Hollywood o incomodava. Para equilibrar suas demandas, Eisner queria os direitos de sequência de Caçadores e fortes penalidades contra Lucas se o filme ultrapassasse o orçamento e o cronograma. Eisner foi punido sob os termos de que a Paramount distribuiria Caçadores para sempre, mas eles não teriam o direito de produzir qualquer sequência sem o envolvimento de Lucas.

Quando Pollock continua sua descrição do negócio, ele menciona que por causa da falta de confiança de Lucas nos estúdios de Hollywood, ele se recusou a honrar qualquer coisa além de um contrato assinado, deixando a Paramount se perguntando se ele faria parte do projeto ou não. “Tudo o que ele disse foi ‘Confie em mim'”. Então, tínhamos Spielberg, que havia gasto muito dinheiro para fazer 1941, com George dizendo: confie em mim e nós teremos como garantir o dinheiro para a conclusão de um filme que poderia custar US$ 50 milhões. Não era um acordo padrão, para dizer o mínimo “, disse Eisner.

A Paramount estava em pânico e George Lucas estava gostando disso. Por quê? Porque, durante a produção de Star Wars, Lucas quase teve um colapso nervoso devido à pressão que sentiu. O estúdio, nos últimos dias de filmagem, ameaçou tirar o filme das mãos dele, cortar o negativo e mandar direto para os cinemas. Agora era a vez de Hollywood e seus executivos de estúdio experimentarem um pouco do seu próprio remédio!

O contrato que eles finalmente assinaram ditava uma taxa de direção de US$ 1 milhão para Spielberg, US$ 1 milhão de taxa de produção para Lucas e outro US$ 1 milhão para a Lucasfilm como produtora. Spielberg também tinha garantida uma porcentagem dos lucros brutos, o dinheiro que a Paramount receberia dos proprietários de cinema, enquanto Lucas teria que esperar pelo lucro líquido.

Eisner aceitara tudo, exceto a recusa de Lucas. Em um esforço para encontrar uma solução, ele ligou para Bill Huyck e Gloria Katz, que fizeram um filme para a Paramount e eram amigos de longa data de Lucas. “Você estragou tudo, George quer ser confiável”, disseram a Eisner. No dia seguinte, Eisner ligou para Weber e aceitou os termos. “Eu simplesmente decidi ir até o fim. E uma vez que disse ‘Eu confio em você’, foi o filme mais profissionalmente produzido que eu já vi. Nem um centavo além do orçamento, conduzido de forma totalmente tranquila e nunca uma briga. Quando ele disse, eu acreditei “, disse Eisner poucos anos depois.

O orçamento do filme foi definido em US$ 20 milhões e deveria ser rodado em um prazo de 85 dias. Spielberg, depois de toda a publicidade negativa que recebera por superar o orçamento e a programação de Tubarão, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e especialmente 1941, estava determinado a entregar seu próximo filme a tempo. Por isso ele, junto com Lucas e Marshall, fez uma agenda secreta de 73 dias enquanto ao mesmo tempo cortavam algumas cenas. Por exemplo, a cena na base nazista onde Indy encontra superarmas desapareceu e uma asa voadora experimental foi reduzida de cinco para dois motores, enquanto toda a sequência de Xangai foi deletada. Ron Cobb, um dos artistas de produção do filme, gostou de elaborar Toht, dando-lhe um braço mecânico parecido com o do Strangelove com uma metralhadora disparando através de seu dedo indicador, mas isso também foi descartado.

Foi decidido que a produção seria baseada, como Star Wars, na Inglaterra. Os estúdios Elstree, fora de Londres, serviram bem a Lucas durante a realização de seu filme. Os estúdios Elstree com seus sete palcos e sua extensão de 27 acres o tornavam ideal para Caçadores. Como John Baxter corretamente notou: “Estas eram premissas históricas”. Muitos homens famosos do cinema passaram por lá. Homens como Alfred Hitchock, David Lean, Michael Powell e Ronald Reagan. Além disso, eles sabiam que lá encontrariam uma máquina bem lubrificada de técnicos e artistas que trabalhavam juntos desde 1976. Ao trabalhar em filmes como Guerra nas Estrelas, O Império Contra-Ataca e Superman, eles se acostumaram a locais difíceis, cenários espetaculares e efeitos especiais excêntricos.

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Maquete que Spielberg mandou construir para estudar os ângulos de filmagem.

Para planejar seu filme da melhor maneira possível, Spielberg contratou quatro ilustradores e deu a cada um deles partes do roteiro. Com base nisso e em alguns rascunhos que Spielberg fez para si, os quatro artistas conseguiram fazer um storyboard de cerca de 80% do filme, quase 6.000 imagens. Spielberg manteve cerca de 60% disso. E não foi só isso. Ele fez com que o departamento de arte, em Elstree, construísse maquetes para cada conjunto. A miniatura do agora famoso local de escavação ocupava uma sala inteira. Isso foi muito valioso para Spielberg porque o ajudou a manter o custo baixo e encontrar os ângulos certos para fotografar suas cenas.

O Elenco

a. O arqueólogo Indiana Jones:

jim-steranko Análise: 40 anos de Caçadores da Arca Perdida... a jornada do herói Indiana Jones - Parte 1
Desenhos de Jim Steranko, imaginando o herói.

Nos primeiros encontros Lucas descreveu seu herói para o renomado quadrinista Jim Steranko e ele propôs quatro esquetes dele, que eram muito interessantes e, ao mesmo tempo, capturavam o espírito do filme. Para o papel de Indiana Jones, Lucas queria um ator relativamente ou totalmente desconhecido que pudesse ser definido para três filmes, já que ele havia criado duas histórias adicionais caso o primeiro tivesse sucesso.

Durante as audições, ninguém recebeu um roteiro. No início, Spielberg encontraria os atores e conversaria com eles. A maioria das audições estava acontecendo na cozinha da Lucasfilm. Para deixá-los à vontade, ele pedia aos atores que o ajudassem a fazer biscoitos ou bolo ou o que fosse. Todos os atores que entravam as nove da manhã, ajudavam na cozinhar e todos os atores que entravam das duas às sete da tarde ajudavam a comer. A notícia se espalhou e todos os atores ligaram para seus agentes e disseram: “Só quero ir depois das duas.” Todo mundo queria comer; ninguém queria trabalhar. Parados ao redor estavam Howard Kazanjian, Frank Marshall e a jovem assistente de Spielberg, Kathleen Kennedy (futura Senhora Marshall e atual Presidente da Lucasfilm), e alguém pegava uma câmera e tirava algumas fotos do ator. Em uma segunda reunião, Spielberg ocasionalmente escrevia uma pequena cena e fazia duas pessoas jogarem uma contra a outra. Conforme a equipe de produção chegasse às suas escolhas finais, eles filmariam os atores.

Após inúmeras audições, Mike Fenton, o diretor de elenco, sentiu que Jeff Bridges era o mais adequado para o papel, mas a esposa de George Lucas, Marcia, ficou encantada por um ator de TV desconhecido chamado Tom Selleck. Spielberg e Lucas concordaram e contataram o agente de Selleck, William Morris, para lhe oferecer o papel. Infelizmente, Selleck havia retornado recentemente do Havaí fazendo o episódio piloto de uma série da CBS, Magnum PI, que teve ótimas avaliações e a CBS recusou-se a dispensá-lo de seu contrato, ou mesmo adiar a produção até a temporada seguinte, para que ele pudesse fazer Caçadores. A ironia para Selleck é que quando as filmagens de Magnum começaram, uma greve de atores de Hollywood interrompeu as filmagens, enquanto Caçadores, com sede em Londres, estava livre para continuar. Ele teria lidado com ambas as atribuições.

Teste de Tom Selleck como Indiana Jones e Sean Young como Marion:

Com Selleck indisponível para fazer o papel, a produção teve que encontrar outro ator, enquanto as filmagens estavam programadas para começar em algumas semanas. Uma tarde, enquanto Spielberg estava assistindo a uma exibição de The Empire Strikes Back, ele achou que Harrison Ford era o homem que estava procurando e imediatamente ligou para Lucas. “Ele está bem debaixo de nossos narizes”, disse Spielberg. Depois de pensar um pouco, Lucas respondeu: “Eu sei o que você vai dizer”. “Quem?” perguntou Spielberg. “Harrison Ford“, foi a resposta de Lucas. Ele concordou e no dia seguinte abordou o ator.

Ford tinha ouvido falar que iam fazer um filme de aventura e achou que já haviam encontrado um ator principal. Ele ficou muito surpreso quando lhe foi oferecido o papel e não se ofendeu por ser a segunda escolha. Ford reconheceu “uma parte realmente boa no que poderia ser um filme realmente bom“, mas antes de assinar qualquer coisa, ele queria encontrar Spielberg para conversar com ele. Então, depois de ler o roteiro, ele levou Melissa Mathison, sua então namorada, e seu filho Willard, para a casa de Spielberg. Lá eles jogaram fliperama e videogame e conversaram sobre o filme. Ford viu o entusiasmo de Spielberg e pensou que seria divertido trabalhar com ele e decidiu assinar o papel que encerraria uma busca de seis meses.

indiana-jones Análise: 40 anos de Caçadores da Arca Perdida... a jornada do herói Indiana Jones - Parte 1
Indiana Jones (Harrison Ford)

Spielberg deu a Ford a chance de se envolver mais na produção do filme. Durante o voo de Los Angeles a Londres, eles repassaram o roteiro linha por linha e, no momento em que saíram do avião, cerca de 10 horas depois, haviam elaborado toda a história. “Harrison é um protagonista muito original. Não houve ninguém como ele por 30 ou 40 anos, e ele conduz o filme maravilhosamente. Harrison era mais do que apenas um ator interpretando um papel, ele era um colaborador e realmente estava envolvido em um muitas tomadas de decisão sobre o filme. E isso não foi por contrato, foi porque eu senti uma mente muito boa para a história e uma pessoa realmente inteligente e liguei para ele várias vezes “, disse Spielberg.

Desde o início Lucas imaginou Indy com um chicote de 3 metros na mão, uma arma que, desde o Zorro, poucos heróis de ação usavam. Ford, que em seus primeiros dias em Hollywood trabalhou como carpinteiro, quebrou o pulso direito ao cair de uma escada em sua casa de Valerie Harper. Seu pulso nunca tinha se recuperado totalmente quando ele começou a chicotear, então ele começou a trabalhar seu pulso para fora. O coordenador de dublês do filme, Glenn Randall, que já havia usado um chicote antes, foi convidado para treinar Ford. Randall visitou Ford em sua casa algumas vezes para dar-lhe instruções e, a partir daí, o ator passou a praticar por conta própria. E ele fez isso tão bem que, quando as filmagens começaram, ele já tinha se tornado tão proficiente com o chicote que ele foi incorporado a várias cenas. “Eu me ataquei sobre a cabeça e os ombros por pelo menos um par de semanas antes de realmente descobrir a coisa”. Tal dedicação ganhou a admiração não só de Randall, mas de muitos outros dublês também, porque o chicote de 3 metros que ele estava usando poderia ser bastante letal nas mãos de não iniciados!

b. Marion Ravenwood:

Para o papel de Marion Ravenwood, namorada de Indy, Spielberg queria Amy Irving, com quem ele teve um caso na época. Irving não estava disponível, então Spielberg recorreu a Debra Winger, mas ela não estava interessada. Finalmente, ele deu o papel para a atriz de teatro nova-iorquina Karen Allen, que o impressionou durante os testes com seu profissionalismo. De acordo com o roteiro, Marion Ravenwood foi criada por seu pai, um professor de arqueologia que passava a maior parte do tempo em expedições ao redor do mundo levando sua filha com ele. Após a morte de seu pai, Marion estava morando no Nepal, administrando um bar sozinha. Por não ter passado muito tempo com mulheres e sempre tentando sobreviver, ela adotou uma atitude mais masculina. Então, quando Spielberg foi a Nova York com Frank Marshall para encontrar Allen, uma das primeiras coisas que perguntou foi: “Você consegue cuspir bem?” No início, quando Allen leu o roteiro, parecia haver algumas inconsistências no personagem que ela precisava esclarecer. Assim, Spielberg e ela se sentaram e examinaram a peça parte por parte, assim como ele fez com Ford, e mudaram o que acharam pertinente.

c. Rene Belloq:

No que diz respeito a Rene Belloq, o arqueólogo francês rival de Indy, Spielberg queria um vilão de “champanhe” para se opor ao seu herói bebedor de cerveja. Ele achava que por mais que Indy usasse sua força e inteligência para derrotar o vilão, esse personagem era mais astuto, controlado e muito mais legal. Entre os candidatos ao papel estava o italiano Giancarlo Giannini, que quase assinou para o papel. Antes que qualquer coisa estivesse no papel, Spielberg decidiu dar o papel ao ator britânico Paul Freeman depois que ele o viu em um filme da BBC chamado Death of a Princess. Freeman, de passagem por Hollywood, voltando de Belize, onde participava de um filme chamado The Dogs of War, apareceu na Lucasfilm para encontrar Spielberg e Lucas e foi escalado na hora.

d. Resto do elenco:

O resto do elenco foi composto principalmente por atores britânicos. Ronald Lacey recebeu o papel de Toht, um agente nazista sempre vestido de preto que ri toda vez que está prestes a torturar alguém. O amigo de Indy, Marcus Brody, seria interpretado por Denholm Elliott, enquanto o papel de Sallah, o melhor escavador do Egito, foi dado a John Rhys-Davies. Spielberg ofereceu o papel a Danny DeVito, mas seu agente queria mais do que a produção estava disposta a pagar, então Davies de 6 pés e 20 polegadas acabou com um papel escrito para um homem de 5 pés e 22 polegadas de altura. O ator galês foi até seu diretor e disse: “O que você espera que eu faça – uma cirurgia nos joelhos?” Mas Spielberg o tranquilizou dizendo que queria interpretar esse personagem como uma combinação entre Falstaff, um personagem de William Shakespeare de Henrique IV, e Rodriguez, o personagem que Davies interpretou em uma série de TV chamada Shogun.

Desde que o roteiro foi concluído, ele se tornou um dos segredos mais bem guardados de Hollywood. Essa foi uma política estabelecida pela Lucasfilm em todos os projetos seguintes, desde as filmagens de O Império Contra-Ataca. Ninguém na Elstree sabia muito sobre o filme. Mesmo quando a escolha do elenco foi concluído, a maioria dos atores não conhecia o enredo do filme. Freeman, uma vez que apareceria nas primeiras cenas filmadas, conhecia o enredo, embora a maioria não conhecesse, nem mesmo Karen Allen. Bill Hootkins também não tinha visto mais do que suas próprias falas, mas desde que ele leu a parte em que o Major Eaton da Inteligência Militar dos Estados Unidos, que informa Indy e Brody, sem saber, ele tinha lido a parte que continha a história inteira, ou pelo menos o cerne do filme. Na noite de seu casting, ele ligou para um amigo para anunciar: “Estou no novo filme de Spielberg“. “É sobre o que?” perguntou seu amigo. “É a Bíblia“, respondeu Hootkins, “com os nazistas!

Continua no próximo capítulo deste especial

[RM – The Raider.net]

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Ricardo Melo

Profissional de TI com mais de 10 anos de vivência em informática. Tem como hobby assistir seriados de TV, ir ao cinema e namorar!!! Fã de rock'n'roll, música eletrônica setentista, ficção-científica e estudos relacionados a astronáutica. Quis ser astronauta, mas moro no Brasil... Os anos 80 foram meu playground!

29 thoughts on “Análise: 40 anos de Caçadores da Arca Perdida… a jornada do herói Indiana Jones – Parte 1

  1. Ricardo, teremos o filme 5 que é o último do Ford, e depois? O que vai acontecer? Vi comentarios aqui sugerindo continuar a franquia com filhos do Indy ou de outro modo, mas vc sabe se ja tem algo planejado sobre isso?

    1. Veja bem, será o último filme do Ford como Indy, ele já está machucado filmando o filme…creio que não aguentará mais um, então encerra aqui….mas o IP (Propriedade Intelectual) do personagem, é muito grande, ainda vende milhões em livros, quadrinhos, bonecos, etc. A Disney pagou caro para ter a Lucafilm e assim como está explorando Star Wars em outras mídias, existe a possibilidade de termos …spin offs, ou uma animação ou até o retorno do Indy, agora com um ator mais jovem, creio que isto veremos daqui uns …poucos anos….

    2. de certo teremos prequels como outro ator, como foi as serie do jovem Indiana Jones… e games e animaçoes… agora, filmes, ainda é uma incognita

  2. Indiana Jones tem que ser uma franquia infinita tipo James Bond… mas ao invés de trocar o ator eu acho que tinha que por um filho dele, depois um primo, tio, sei la… e ir continuando, pra sempre

    1. Filho dele …foi um fiasco…Shia LaBouf não conseguiu nem se manter na franquia Transformers…

    2. acho que tinham essa ideia, mas o ator cagou tudo… a unica saida que vejo é ter reboot mesmo ou entao inventarem agora uma filha e seguir com ela… sei la, uma filha que ele teve com a atriz do Templo Perdido por exemplo

    3. Pode ser que o ator Boyd Holbrook, esteja fazendo o MUTT no Indy 5, mas isto são apenas boatos…o ator já trabalhou com o diretor Mangold no Logan.

  3. meu primeiro filme no cinema com meu irmao mais velho me deixou lembranças que carrego ate hj e ler esse texto me trouxe de volta algumas daquelas lembranças obrigado por me proporcionar isso

    1. Sim, é um filme inesquecível, que nos traz de volta lembranças bacanas de nossas vidas, é claro, de quem viveu tudo isto.

  4. muito bom o texto que apresenta fatos de bastidores muito interessantes para o fã do personagem, alem de fatos históricos e corporativos, cabia fácil em uma reportagem especial de video ou até em um livro sobre o filme, meus parabens

    1. Obrigado, era pra ser um texto simples…mas o pessoal aqui…ama Indiana Jones…não deu…

  5. esse filme é pura emoção e nostalgia… parabens pelo artigo e pela pesquisa!!! ficou excelente! vi sua postagem la no Facebook e vim ler aqui, sensacional! ansiosa pela segunda parte

    1. Obrigado, nós que agradecemos . Serão 4 partes….

  6. e o lance de que o filme original era Caçadores e depois enfiaram o Indiana Jones no titulo pra franquiarizar ele

    1. Exato, inclusive eles estavam pensando na franquia como “Raiders…e o título” (ou Caçadores …de alguma coisa..), mas logo que o filme estourou, viram que o personagem era muito maior que o próprio filme, então Indiana Jones, passou a ter em todos os títulos, e posteriormente o Lucas mandou acrescentar Indiana Jones no título de Caçadores.

  7. a foto da maquete que vc colocou aqui e diz que foi so pra estudo, entao fizeram a maquete so pra ele olhar e decidir o angulo de filmagem? nao foi usada como cenario como em Imperio Contra Ataca que fizeram mesas de pó branco simulando neve pros AT-AT?

    1. Isto Jaws, era apenas para ele verificar o melhor ângulo para filmagens. Ele pediu…o pessoal fez…hoje tudo é feito no CGI mesmo.

  8. cara, sensacional esse especial seu… deu ate vontade de tirar o DVD de Caçadores e assistir de nvo, to ansioso pela parte 2

    1. Crew, semanalmente, você mais um pouco desta grande produção do cinema.

    1. Hello Sakis, we will credit the text for The Raider.net.
      Sorry, do not worry.

  9. eu li a critica de vcs durante a semana e tive um pressentimento que iam fazer um especial sobre o velho Indy, ate favoritei o site e fico contente que acertei… vou iniciar agora a leitura sobre meu filme favorito, obrigado por isso Maxiverso

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