Crítica: Ataque dos Cães (The Power of the Dog)

Direção: Jane Campion

Elenco: Benedict Cumberbatch, Jesse Plemons, Kirsten Dunst, Kodi Smit-McPhee, Thomasin McKenzie, Geneviève Lemon,  Peter Carroll, Keith Carradine e Frances Conroy

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Nota 4/5

Em um certo momento deste filme, ouvimos um personagem – constantemente ameaçado pelo seu comportamento – ouvir que seu algoz é “apenas um homem, somente mais um”, retratando, assim, toda sua resignação diante um padrão de comportamento perpetuado diariamente na sociedade, até os dias atuais.

Isso ajuda a tornar Ataque dos Cães, da diretora Jane Campion (O Piano) um conto sobre a opressão masculina em uma época ainda mais intolerante diante do controle do machismo; e nesse cenário, a diretora vai aos poucos construindo relacionamentos de pessoas sempre em conflito e sempre solitárias. Roteirizado a partir da novela de mesmo nome de Thomas Savage, a diretora já supera um grande desafio: manter uma atmosfera constantemente incômoda enquanto vai moldando os personagens através de seus comportamentos diante do público, sem deixar abertamente claro suas intenções iniciais.

Ambientada em 1925 no estado americano de Montana, a história nos faz conhecer os irmãos Phil (Cumberbatch) e George Burbank (Plemons), ricos herdeiros do ramo de gado e que, após a decisão do segundo em se casar com a viúva Rose (Dunst), causa um conflito com Phil; ainda mais sendo a futura cunhada mãe de Peter (McPhee), um jovem de trejeitos e comportamento delicados. 

Kirsten Dunst está irretocável ao expor os vícios de Rose com uma vulnerabilidade crescente, sendo essa dinâmica um elo fundamental para o longa, uma vez que o relacionamento com o filho é um gatilho importante para a frieza , preconceito de Phil e o medo gerado nela (a cena ao piano em que é confrontada pelo cunhado é um belo exemplo de sentimento consciente). Evitando cair em estereótipos, Kodi Smit-McPhee tem sua ótima atuação baseada na surpresa e coragem de suas ações e sua magreza ainda torna o personagem ainda mais incômodo; dedicado à mãe, Peter sabe dos perigos que seu relacionamento com Phil traz, mas jamais deixa de considerar seus objetivos. Enquanto isso, Jesse Plemons é um exemplo de solidão (“estou tão feliz por não me sentir mais sozinho”), ao mesmo tempo que sua relação velada com o irmão é combustível para evitá-lo ainda mais. 

Dito isso, Benedict Cumberbatch  se torna o mais multifacetado desse conjunto (numa composição elogiável por também evitar seu forte sotaque). Nunca sabemos realmente suas intenções e seus atos sempre soam como um risco. Sempre exalando ironia e rancor mesmo diante de uma formação acadêmica incomum para o tipo de pessoa que deseja ser, Phil transparece imaturidade e a típica insegurança masculina através de seus comportamentos que visam justamente ocultar seus refúgios (físicos ou não) seja através do estilo cowboy clássico, seja em como lidar com o gado, enrolar um cigarro ou sequer tomar banho. Sempre tendo as lembranças de um falecido amigo como referência, Phil é uma síntese de como o oprimido pode virar opressor; e o filme oferece diversas oportunidades de irmos encaixando as peças e irmos moldando seus anseios, medos e traumas passados (seja através da possível repressão do ambiente familiar ou até mesmo situações que possam envolver abusos). 

Elegantemente dirigido por Campion, Ataque dos Cães possui econômicos movimentos de câmeras e quando se permite movê-las de maneira mais acintosa – usando um travelling, por exemplo -, é justamente no clímax envolvendo seus personagens e completando as passagens de tempo com cortes quase imperceptíveis, como no momento em que o bando de Phil é servido por Rose, para depois vermos que ela, ao entrar na cozinha, o faz depois que já escureceu.

Exaltando a presença dos sentimentos difusos (ajudado pela trilha sonora com tons dissonantes e desconfortáveis), outra boa e eficiente decisão da diretora é no momento que Phil escreve uma carta: a câmera foca no documento, retorna ao olhar dele durante alguns segundos (misto de raiva e crueldade através do olhar do ator) para retornar à carta e expor os sentimentos ali expostos de maneira mais conflitante.

Aliás, focando de maneira eficiente essas dualidades através da luz de velas e do luar, o belíssimo trabalho de fotografia de Ari Wegner é contemplado com as belas paisagens locais exaltados com os belos planos (apesar da história se passar em Montana, as filmagens se deram na Nova Zelândia, terra natal da Campion); e a direção de artes também faz um belo trabalho ao recriar Montana entre o rústico do velho oeste e a modernidade que acabou de chegar com o novo século, onde a mansão dos Burbank é inserida dentro de uma vastidão e isolamento comum a aquelas pessoas. 

Trazendo elementos de pista e recompensa – elemento mostrado durante o filme que ganha outra importância mais à frente – , com contornos surpreendentes em seus desfecho, Ataque dos Cães deixa o espectador numa situação de desconforto de  homens hipocritamente desmistificados que herdaram amores e lembranças, mas por escolhas decidem transmitir a frustração, inveja e homofobia, que podem custar caro.

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FB_IMG_1634308426192-120x120 Crítica: Ataque dos Cães (The Power of the Dog)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

13 thoughts on “Crítica: Ataque dos Cães (The Power of the Dog)

  1. sem duvida o filme tem muitas virtudes… mas vamo la: se alguem tiver que resumir a historia, falaria o que? qual é afinal a historia desse filme??? dificil… e qd fica dificil vc explicar pra alguem qual a historia de um filme ou serie, é pq ela nao cumpriu sua principal missao: contar uma historia coesa e entendivel

  2. concordo com a critica, bom filme mesmo… e vai faturar o Oscar principal, acho… estarei na torcida hehehe, adoro Oscar, o premio é uma das poucas votacoes que gosto de acompanhar (a outra sao as eleicoes deste ano que se Deus quiser nos livrará de Bolsonaro e impedirá a volta do Lula)

  3. entendo um filme como um conjunto de variantes que convergem para um resultado que é a soma das partes… nao adiantam atuações excelentes e uma historia insossa… por mais que o drama pessoal dos dois personagens principais tenha o peso pessoal pra cada um, nao sustentam uma historia de far west inteira, nao conseguem levar tudo nas costas… e onde vcs viram virtudes no fato de nunca sabermos como Phil vai agir eu vejo so incoerencias, fora o fato de que os dois irmaos nao trocam uma palavra mesmo sendo socios e vivendo juntos a vida toda, aí do nada umdia um deles chega e diz: eu casei… nao me convence, mas se vs curtiram, parabens

  4. Interessante a critica. O filme foca mesmo no lance da masculinidade não apenas colocando os diferentes comportamentos como somente mais uma característica, mas tornando isso algo decisivo para o desenrolar de toda a trama. Assim, o filme nos leva para o passado visando conversar com o presente sobre o que é ser homem. E faz isso muito bem com uma ambientação adequada, boas atuações e sabendo lidar com o tema que aborda. Gostei.

    1. Marcnesium
      Bem vindo
      Obrigado por ler a crítica e ter despertado esse interesse e levado a pensar sobre o assunto. Muito bom!
      Abraço

  5. parabens pela critica, tb prevejo uma boa noite de Oscar pros produtores desse filme, alem da diretora e do Benedict

    1. DB Cooper
      Obrigado pelo elogio, mesmo! Sim, é bem possível que tenha Oscar na área para o filme.
      Abraço

  6. confesso que pelo nome nao tinha me interessado mas por sorte li essa critica muito boa por sinal e agora verei o filme

    1. Bem vinda
      Que bom ter despertado esse interesse através do texto. Significa muito para gente.
      Obrigado e espero que goste do filme

  7. otimo filme, que triste constatar que a Dunst envelheceu rsrsrs pq mostra que eu ja to velho tb kkk

    1. Josi
      Bem vinda
      Tempo passa para todos. Mas ela esta ficando melhor com a idade, não acha?

      Obrigado pelo comentário.

  8. Vejo ai algumas estatuetas douradas…tipo roteiro adaptado, melhor ator (Benedict Cumberbatch), fotografia e quem sabe até direção para a a Jane Campion, que já tinha ganhado no passado com O Piano. Melhor filme ? Não creio que mereça, mas com um ano fraco, quem sabe, ainda espero ver Belfast(do Kenneth Branagh) para dar uma opinião melhor.

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