Crítica: Matrix Resurrections

Direção: Lana Wachowski

Elenco: Keanu Reeves, Carrie-Anne Moss, Jessica Henwick, Yahya Abdul-Mateen II, Jonathan Groff, Neil Patrick Harris, Priyanka Chopra Jonas, Christina Ricci, Andrew Lewis Caldwell, Chad Stahelski, Lambert Wilson e Jada Pinkett Smith

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Nota 3/5

Quando lançado, o clássico Matrix das irmãs Lilly e Lana Wachowski (na época ainda assinando como “Irmãos Wachowski”) quebrou parâmetros e trouxe inovações ao apresentar um mundo virtual criado pelas máquinas como crítica ao mundo contemporâneo. Inclusive, a obra apresentou metáforas que somente com os anos foram assimiladas (recentemente questionada se Matrix também seria uma metáfora trans – pessoas que não se reconhecem em seus corpos -, Lana Wachowski confirmou a teoria, hoje soando até óbvia).

Passados 22 anos e duas sequências que acrescentam pouco ao brilhante conceito original, voltamos ao universo de Matrix nesse quarto capítulo intitulado Resurrections. E durante essas duas décadas Matrix teve sua essência deturpada ironicamente por seus ideais alçados a símbolos políticos de grupos de extrema direita, anti-feministas e misóginos; o que me leva a crer fielmente que esse novo capítulo tenta servir – entre erros e acertos narrativos – como uma autoafirmação e resgate de seus princípios para uma nova sociedade que ainda tem dificuldade em aceitar as mudanças que ameaçam o establishment. Aliás não podemos esquecer que a própria Lily Wachowski refutou nas redes sociais com um singelo “Fuck You” figuras da própria extrema direita que usaram o conceitos de Matrix a favor de seu fascismo (inclusive uma abjeta figura da política brasileira foi contemplada). Não sendo coincidência que o marido da personagem de  Carrie Anne-Moss no mundo virtual chama-se Chad (nome usado como gíria por grupos de extrema direita/incels para os tais macho alfa).

Iniciado exatamente da mesma maneira que o filme de 1999, Resurrections tenta se atualizar como uma nova versão de programas antigos dentro dessa nova camada de realidade. Realidade essa em que Thomas/Neo (Reeves) é um conceituado programador de games, sendo seu jogo Matrix um sucesso entre os jovens. Inclusive, esse primeiro ato em que Neo vai tomando noção de um nova camada virtual é transformado num inesperado exercício metalinguístico ao trabalhar o conceito do filme (“Spin-off da Warner”, como dito em determinado momento) como algo daquela realidade de uma nova geração que cresceu após o primeiro filme. E seria essa a primeira grande crítica a essa nova realidade? Acredito que sim, pois ao trazer essa nova geração gamer questionando as ideias do filme apenas como algo descartável, a direção reafirma que a ideia não foi cooptada durante essas duas décadas.

Trazendo novos personagens e antigos em novos corpos, eles ajudarão ou tentarão impedir Neo na sua busca. Assim temos já alguns dos problemas mencionados: a necessidade de soar como uma espécie de reboot/continuação ao mesmo tempo. É claro (isso é bem vindo) que a direção segue a história a partir do terceiro filme (paz entre humanos e máquinas após o sacrifício de Neo e morte de Trinity), mas ao inserir vários cenas da trilogia como base narrativa para complementar informações para os novos personagens, o longa acaba por denunciar, ao meu ver, uma auto indulgência e a gigantesca falta que faz Lawrence Fishburne como Morpheus e Hugo Weaving como Smith. E para complicar ainda mais o desenvolvimento da história, alguns assuntos importantes, como o retorno de Neo, são poucos ou mal abordados.

Falando nisso, se a nova versão de  Morpheus, interpretado por Yahya Abdul-Mateen II, surge sempre de maneira chamativa pelos seus gestos e vestimentas, o personagem acaba sempre jogado para fora do centro da trama, contrastando ainda mais com seu antecessor, e a ausência do agente Smith original soa ainda mais incômoda principalmente pelo fato do ator Jonathan Groff em nenhum momento conseguir emular minimamente alguns dos trejeitos e dicção de Weaving (ao contrário do bom trabalho que foi feito pelo ator Ian Bliss em Revolutions, quando o personagem Bane foi assimilado). 

Mas um grande interesse era retornar a aquele universo depois dos primeiros filmes. Como estaria o acordo de paz entre os humanos e as máquinas? Haveria alguma evolução estética e tecnológica? De certo ponto sim. Agora mais segura aos ataques das sentinelas e um auto suficiente reduto dos humanos (sai Zion e entre “IO”, governado por uma das antigas aliadas de Neo numa pesada maquiagem que é funcional mas não convence), se mostra um ainda mais complexo amontoado de construções, ao contraponto que também pouco vemos a cidade das máquinas; sendo assim, a passagem rápida por ambos os casos comprovam a tentativa de Resurrections de soar mais intimista para com o relacionamento de Neo e Trinity.

Apesar desses elementos, um dos pontos mais esperados acaba sendo uma decepção: as sequências de ação! Grande referência no assunto durante os anos seguintes ao filme original (influenciado pelos clássicos chineses de ação), Resurrections infelizmente sequer tenta, um minuto que seja, copiar as sequências antigas com sua cenas apressadamente deselegantes e sem cuidado com a mise en scéne ou enquadramentos; como visto na sequência que se passa no trem com seus cortes rápidos e a perseguição na cidade que parece mais um filme de zumbi. Achando que somente quebrando as paredes com socos é suficiente, a direção em uma dessas cenas ainda retorna com um personagem de Reloaded sem qualquer função narrativa.

Fotografado inteligentemente por Daniele Massaccesi e John Toll, que mudam conceitos pré estabelecidos da trilogia original, a direção traz uma escolha interessante ao usar as cores dentro do universo de Matrix. Se nos filmes anteriores o mundo real e virtual eram filtrados com cores características (azul e verde, respectivamente), em Resurrections elas servem justamente para trabalhar o conceito de binaridade. Assim, no início do longa, dentro da Matrix, o filtro azul (deveria ser verde) predomina indicando que não há mais regras estabelecidas, confirmado quando a personagem Bugs (Henwick) diz que não aceita que sua personalidade seja vista apenas por padrões binários (leia-se orientação sexual). Outro bom exemplo é em uma determinada sequência em que vão libertar Trinity, vemos a dualidade remetidas na cores azul e vermelho (cores das pílulas) representando a dúvida da personagem em se libertar ou não; e podemos citar também o bom uso da contraluz na perseguição final na cidade deixando ainda mais ameaçadores os pedestres comandados pela Matrix no encalço dos protagonistas.

Além do que, se o arquiteto usava as idealizações materiais de Matrix para manter os humanos controlados, aqui o fato de temos uma figura como o Analista (Harris), acaba surgindo como um atrativo de que se os humanos vislumbram seus objetivos (que nunca alcançará) onde controle é mais eficiente; no caso um analogia do conceito da meritocracia. Aliás, Resurrections jamais se acovarda diante de seus desafios conceituais, pois fora o dito anteriormente sobre retomar as rédeas de seus ideais, continua a bater no moralismo da sociedade que insiste no prazer de ser dominada (“Desistimos de sermos livres?”)

Portanto, o relacionamento entre Neo e Trinity é transformado na força motriz da obra de maneira quase divina, e somos cooptados pelo relacionamento entre os dois rapidamente. Neo não deseja mais lutar, sua presença é conscientemente prejudicial à paz devido à sua busca. E a química entre Keanu Reeves e Carrie Anne-Moss prova que tal elemento para nos identificarmos com eles é fundamental, assim um simples plano pode tomar proporções ainda maiores; como visto no momento em que se discute o que é real ou não, e um telão atrás de Neo mostra a Trinity do passado, indicando que o que ele sentiu pela amada sempre foi o mais importante. E nada mais belo e singelo ao repararmos a maturidade representada nos primeiros fios brancos que surgem nos personagens consolidando de vez os sentimentos através do tempo. 

Portanto, ao trazer Trinity para o centro da trama – antes ocupada por um homem -, Lana Wachowski completa sua própria transformação diante da sociedade. Mas a luta para essa sociedade que achava antigamente mais fácil controlar as mulheres ou que temem um mundo “pintado com as cores do arco-íris” não é fácil. E mesmo com seus equívocos narrativos, Matrix Resurrections conseguiu em seu final manipular minha emoções, comprovando que o cinema ainda precisa da autenticidade do seu criador(a) e não exatamente entregar um produto numa caixa padronizada.

Assim, quando Trinity olha o pôr do sol e admira sua beleza, uma nova chance foi dada ao que está sendo representado na tela e não há negociação para tais sentimentos voltarem para cápsulas aprisionadas pelo opressão que os cercam.

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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

19 thoughts on “Crítica: Matrix Resurrections

  1. o filme ta longe de ser a catastrofe que o fandom ta fazendo… acho que misturam tudo, decepção por ver a Trinity poderosa, hate pela diretora trans, etc… concordo que é o pior da franquia, mas dizer que o filme nao presta é hate puro

  2. me espanta que vcs vejam qualidades num filme tao ruim, a intenção de fazer algo nao pode ser levada em conta na critica e sim o resultado do que foi feito e o resultado foi horrivel

  3. bilheteria nao é sinonimo de qualidade, mas essas flopagens homericas sao um sinal de que algo esta errado sem duvida

  4. vamo continuar a historia com coerencia em relacao a trilogia original? naaaaaao, vamo desconstruir pq a modinha agora é essa, vamo mudar tudo que foi feito antes, Matrix agora é romance nao é mais ação, e o que da energia agora é o amor nao é mais a bioenergia do corpo humano, e a Trinity tem que ser a Co-Escolhida tb pq afinal ne tamos em tempos de lacração, empoderamento, etc (nada contra empoderamento feminino, claro, mas tudo contra como fazem isso arruinando coisas estabelecidas)… resultado: fracasso de publico e critica, bilheteria pifia, prejuizo, engavetamento da sequencia, franquia maculada… galerinha executiva NAO aprende com o que fizeram em Last Jedi da Disney, nao tem jeito, vao toma preju por muito tempo ate entender que as coisas se sao desconstruidas, a fanbase nao apoia

    1. alguma coisa tinham que mudar senao fica igual o de antes e ai iam reclamar do mesmo jeito igual reclamaram do ep 7 de Star Wars… mas concordo que hj em dia parece que a ordem é sempre destruir um pouco o que ja ta estabelecido isso da muita raiva

  5. muito bom parabens gostei bastante do filme galera hj em dia so reclama de tudo ta doido eu heim

  6. nao convenceu nao, Rodrigo… vc pode ate ter visto virtudes tecnicas no filme mas no fim das contas ele é bem chato, bem inferior ao resto da saga, e ate as lutas que antes eram espetaculares agora sao bobocas, olha vou te falar que decepcao viu

    1. Complementando: Lawrence Fishburne deu entrevista dizendo que nao entende pq nao foi chamado… e de fato o novo Morpheus é um mala sem alça e um inutil ne… Trinity é a nova escolhida? Voa e tem poderes… passou a ser super-saiajin tb do nada… Neo agora é jedi ou x-men: abre as mãos e cria campos de força ao invés de usar as habilidades que tinha antes. As maquinas toparam o acordo em M3, mas em M4 descobrimos que elas nao o cumpriram depois. Fala serio… Merovingian é um mendigo (tentativa de homenagear o personagem que nem foi importante e saiu patetica). O vilaozinho la é enfadonho. Nao mete respeito nem em criança. Mas mesmo assim é poderosao e sabe-se la pq aceita as exigencias de Neo e Trinity (se ela quiser ficar eu fico)… misterios do roteirismo. Os sets sao pauperrimos pra um filme dessa magnitude. E concordo que as Wacholskis nunca foram grandes. Matrix 1 foi um achado, mas elas nunca mais repetiram o nivel.

  7. bom, o filme amarrou bem as explicacoes do pq Neo ta vivo e ainda existe Matrix… ficou aceitavel (mas enfraquece a trilogia original)
    qt ao filme em si, estranho demais, escuro demais, prolixo demais (e mesmo assim muita coisa vc nao entende)… nem sombra do filme original e muito abaixo do Reloaded e Revolutions (que ja nao eram nada fantastico)

  8. achei que foi uma sacada legal a ideia da Lana em como continuar a franquia, porem pra minha nao surpresa, o resultado foi bem fraco, como tem sido todos os filmes das Wacholskis que so fizeram UM filme excelente na carreira: Matrix hehehe

  9. cenas de ação pessimas, fotografia pessima (tudo escuro demais ou contra a luz do sol, piegas e cliche), conceito bacana e ideias interessantes… resultado: filme legal, nada alem disso

  10. eu gostei do filme, nao vejo tantos problemas nao… tb nao da pra querer outro filme revolucionario como o de 1999 ne gente… devagar com o andor que o santo é de barro

  11. assisti no lançamento, fui cheio de expectativa e odiei o filme, só se sustenta pela nostalgia, é uma droga, cheio de problemas e os personagens estão super zoados, o que fizeram com aquele Neo que aprendemos a amar? fala serio esses executivos que decidem mudar as historias dos filmes que a gente é fã

    1. Meia Cura
      Bem vindo.
      Jamais crie expectativas com um filme, nenhum!

  12. 1 > 10
    2 > 8
    3 > 5
    4 > 4
    como podem ver as coisas so foram piorando em Matrix… e os fãs de SW ainda reclamam kkkkkkkkk

    1. Star Wars:

      4 > 9
      5 > 10
      6 >8
      1 > 3
      2 > 5
      3 > 7
      7 > 9
      8 > 5
      9 > 3

      altos e baixos… mas os dois ultimos filmes sao de doer

  13. bom filme, eu curti… adoro o primeiro, e esse me fez sentir emocoes que eu tinha sentido la em 99 qd assisti o primeiro

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