Crítica: Top Gun – Maverick

Direção: Joseph Kosinsky

Elenco: Tom Cruise, Jennifer Connelly, Miles Teller, Jon Hamm, Charles Parnell, Bashir Salahuddin, Monica Barbaro, Lewis Pullman, Jay Ellis, anny Ramirez, Glen Powell e Val Kilmer.

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Imortalizado com um produto dos anos 80 dirigido por Tony Scott (no qual o filme atual é dedicado), Top Gun, no final das contas, serviu como uma romântica propaganda armamentista americana durante a guerra fria ao som de uma trilha sonora incrível, encabeçada por Take My Breath Away; e levou uma profusão de jovens a se alistarem na marinha por conta das acrobacias aéreas vistas no filme.

A pergunta que cabe é se existe a necessidade ou não dessa continuação e como abranger uma obra cujos conflitos eram resumidos a embates de testosterona patrióticos a 3.000 pés de altura? Ou o quanto dependerá disso no novo longa?

Inserindo o subtítulo Maverick  – conotando o lado mais pessoal da obra -, o novo filme dirigido por Joseph Kosinsky acerta narrativamente nas ações (físicas ou pessoais) do protagonista ao apostar numa série de referências (para o bem ou para mal) dos conflitos, servindo de pano de fundo para as acrobacias dentro de uma narrativa pulsante e sincera, encabeçada pelo carisma inabalável e pela versatilidade de Tom Cruise; o que – comparando com o nível das produções atuais – e até bem vinda. Evitando a todo o momento correr riscos, o filme se resume a copiar seu legado, parecendo algo novo.

Se antes vimos uma disputa EUA x União Soviética, aqui, mesmo que a questão do egoísmo e a patriotada americano se mantenham, a obra aborda um inimigo genérico (quem será?) que “descumpriu um tratado da OTAN” ao possuir ogivas nucleares. Parece que os produtores não quiserem complicações políticas em nenhuma parte do mundo para não prejudicar a bilheteria, mas sendo lançando após o conflito na Ucrânia e achando que OTAN seria um selo de lisura, acabou sendo um exercício ainda mais inútil. A “imparcialidade” cobra sempre seu preço!

Iniciado já com referências ao filme anterior (trilha sonora, protagonista de moto…) o filme cria logo em seguida um contraste ao trazê-lo pilotando um supersônico em vez dos velhos aviões conhecidos. Mas 30 anos depois dos acontecimentos do primeiro filme, vemos um Pete “Maverick” Mitchell (Cruise) ainda como piloto de testes e decepcionando seus superiores por não ter conseguido chegar a um posto maior dentro da Marinha; o que é um ponto positivo dramaticamente por não sabermos exatamente quais os caminhos que o personagem possa ter tomado nesse intervalo. Aliás, o roteiro martela sempre que possível que a obra é uma metáfora para o próprio protagonista e ator (“Eu não vou desistir, não hoje”, “O tempo é seu maior inimigo”).

Trazendo um conflito com o filho do ex-parceiro Goose (morto no filme anterior), o filme insere algo a mais que propriamente a discussão de quem pilota mais rápido! Até mesmo com o par romântico do protagonista, visto na figura materna de Penny (Connelly), o filme acaba acertando o evitar rejuvenescer “muito” Cruise através de sua parceira, como de costume (Cruise tem 59 anos enquanto Connelly já chegou aos 51). No entanto, – mais um controvérsia -, tal elemento pode servir como uma cortina de fumaça, pois é bem provável que o fato da atriz Kelly McGillis não retomar ao seu papel nesse filme se deva à situação da atriz, hoje com 64 anos, não “atender” os padrões estéticos da indústria, como a mesma já disse em entrevistas.

Fora isso, o roteiro tenta repetir as mesmas dinâmicas do filme anterior em personagens que pouco acrescentam à trama; e já seria algo bem difícil trazer dimensionalidade para uma turma de 12 aspirantes a pilotos de elite (de modo que entram os estereótipos como a latina, o nerd, o valentão…) e fica ainda mais complicado fazer o personagem Hangman (Powell) como nada mais do que uma cópia de Iceman (Kilmer) do filme de 86. Assim, portanto, é bem vida a presença de Milles Teller como Rooster (novamente num papel de confronto com uma figura “paterna”), de Wiplash, num bigode indefectível, o jovem ator faz de seu personagem sempre um ponto de confronto para Maverick e seus fantasmas do passado.

O que nos traz para o encontro e ponto alto do filme para mim: o esperado revival entre Cruise e o próprio Val Kilmer. O que já seria emocionante pelos contornos nostálgicos inerentes do reencontro dos antigos rivais (e hoje amigos), a cena se torna até mais emblemática e tocante devido à fragilidade do estado de saúde de Kilmer – o ator fez uma traqueostomia devido a um câncer na garganta. Não sendo a toa que a própria direção brinca com essa aura de rivalidade com o público demonstrando na química entre os dois (“Quem foi o melhor?”, “Não vamos estraga isso”).

Fotografado pelo Chileno Claudio Miranda, Top Gun – Maverick busca sua identidade primeiro através de emular os mesmo planos do anterior. Seja a imagem das naves chegando num porta aviões com o pôr do sol ao fundo ou na palheta quente evocando a sexualidade dos corpos suados (devemos lembrar que o filme de 86 continha uma espécie de “comercial homoerótico”; como tão bem disse a escritora Pauline Kael à época do lançamento do filme… e revendo, não fica difícil constatar tal elemento). Sendo assim, quando o filme tenta acrescentar algo, chegamos a uma mudança de cenários, como o fato do clímax se passar num área gelada. Ou, por exemplo, mesmo não sendo nada sutil, que mostre o protagonista velejando; em ambos os casos como uma metáfora para fora de sua zona de conforto diante do seu relacionamento respectivamente com Rooster e Penny.

Com as câmeras posicionadas dentro das aeronaves e centralizadas dentro das cabines, as sequências das perseguições demonstram quanto é importante que o ator esteja ciente do contexto da cena. Se facilmente poderia ter sido feita por CGI num fundo verde, é notável ver que o esforço dos atores é real – Tom Cruise nem precisaria agradecer ao público antes do filme dizendo que realmente usaram caças de verdade (ele realmente tem licença para pilotar). Isso tudo também graças ao ótimo trabalho de mixagem de som, engrandecendo as cenas através das respirações dos atores e das trocas de manetes (algo assim) quando os aviões mudam de direção. São detalhes que fazem a diferença na percepção sensorial do espectador, e não apenas um monte de barulho jogado aleatoriamente no filme.

Se em um ou outro momento a profusão de pilotos pode prejudicar a atenção do público, sempre ficamos presos nos movimentos das naves em perseguição (o que não deixa de ser uma cópia descarada – e não é pouco – do ataque à Estrela da Morte em Star Wars, com pitadas de Missão Impossível, que podem destoar um pouco do personagem; não do ator – lógico).

Mas enfim, ao seu final Top Gun – Maverick deixa sua marca, voando em altitudes seguras como base para voos mais arriscados sem medo de seu legado. O que por si, já é curioso!

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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

12 thoughts on “Crítica: Top Gun – Maverick

  1. filme como tem que ser: historia que linka com o filme antigo, sem cumprir agenda social, ou seja, roteiro e direção como querem o roteirista e o diretor, sem executivo de estudio vir pentelhar pra mudar historia e adequar alguma coisa ao politicamente correto, sem ter machismo e ao mesmo tempo sem ter lacração, tudo na medida certa, obrigado Tom Cruise, vc entregou o que a gente queria

  2. O viés progressista que a Disney vem tentando tornar padrão sofreu um duro golpe com esse filme… não que ele enalteça de algum jeito a masculinidade tóxica nem o mundo hétero, mas ele sem dúvida incomoda as minorias pq é o filme clássico de ação dos anos 80/90, com o galã invencível, heróico, que arranca suspiros das moças enquanto exibe mostras de poder bélico e confiança. É feito pra isso, inclusive. E, por sorte, é um bom filme, bem feito, então deixa pouca margem pros SJW (lacrosfera) cair matando em cima. Pelo menos dessa vez podemos apreciar nosso cinema pipoca de ação “normal” sem a galerinha militante vir encher o s*co. Só quero ver um bom filme de ação, gente, não quero um estudo filosófico sobre a inclusão social nas forças armadas e no mundo moderno. Vão se digladiar nas críticas da animação do Buzz hahaha lá tem beijo homo, vcs poderão brigar a vontade lá! Enjoy.

  3. excelente filme, nao ligue pra quem fala mal (se é que alguém fala mal desse filme) vá conferir por conta própria!

  4. Nostalgia nota mil, com enredo próprio e personalidade própria. Gostei. Abre as portas para uma franquia? Nao duvido! Basta ver o que o Cruise fez em Missaão Impossivel!

  5. adorei o filme, eu gosto muito do primeiro filme, é um dos que eu mais gostava qd era jovem, esse aqui foi uma boa continuação, mas é uma pena que o Maverick não seja um capitão reconhecido, ele devia ter sido mostrado como um oficial aposentado acho que seria melhor

  6. Parabenizo o Maxiverso e o crítico por terem se atido às questões técnicas do filme e não entrado na polêmica relativa às questões de gênero… o filme estava virando uma bandeira para os lacradores e em resposta para os extremistas… ainda bem que a maioria dos sites não entrou nessa e analisou o filme como tem que ser analisado: nos aspectos fílmicos mesmo. Se é bom, tem que ser elogiado, mesmo que seja alguma representação dos egos de Cruise ou de uma produção “hétero” demais.

  7. um filme que nao cabe mais nos dias de hj… so serve para comemorar a heteronormatividade do mundo! o que um filme desses me acrescenta em termos sociais? nada! passo longe, deixo pros heterotopzeiras apreciarem essa propaganda contra as minorias de gênero… façam bom proveito!

    1. sabia que pelo menos um lacrador ia aparecer pra reclamar kkkkkkkkkk

  8. Mistura de sequências novas com refilmagens mas o filme tem um roteiro amarradinho, cenas de ação espetaculares e muita nostalgia, em um resultado que vale e muito o preço do ingresso no Brasil de 2022. Os clichês estão lá, mas como algum sábio já disse, todos os clichês são verdadeiros – e em Maverick eles recebem um olhar carinhoso, de quem vê o próprio passado sabendo que a hora de virar a página e passar para o próximo capítulo da carreira está chegando, mas isso não só vai ser feito nos próprios termos com ainda tem um tempinho até lá.

  9. O mais incrível, que as esperas e adiamentos do filme, colocaram ele como possível…”Bomba do ano”, mas até os críticos mais raçudos, acabaram elogiando o filme . No fim, tem a trilha da Lady Gaga, que de longe não chega nem arranhar a música Take my Breath Away do Berlin, mas já está sendo executada em vários lugares e nas rádios.
    Alguns fatos interessantes, a voz do Val Kilmer, foi criada digitalmente, a personagem Penny (Jennifer Connely) foi citada no primeiro de 1985, uma antiga namorada filha de um almirante. E como no primeiro, a nação hostil não é mostrada qual seria, mas eu imaginei ali…o Irã dos Iatolás…pois foi o único país que os americanos venderam F-14 Tomcat e está as voltas com um polêmico programa nunclear secreto.

    1. teve um site que ainda assim tentou ver um lado ruim no filme e criticou seu excesso de masculinidade hétero kkk brincadeira uma coisa dessas

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