Crítica: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Direção: Chloé Zhao
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Zac Wishart, James Lintern , Joe Alwyn, Justine Mitchell, Eva Wishart, Effie Linnen, David Wilmot, Louisa Harland, Elliot Baxter, Faith Delaney e Emily Watson.
Fugindo das amarras nocivas dos estúdios de seu último filme (Eternos) e ao tentar trazer profundidade para um público-alvo que não faz questão de nada além de se alimentar do mesmo tipo de conteúdo, a diretora chinesa Chloé Zhao procura transcender o limite da perda e a importância da arte neste magnífico Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet no original). A obra comprova que Nomadland não foi um acaso. Não procurarei atrelar a discussão da obra apenas a questões atemporais, até porque o roteiro da própria diretora em conjunto com a escritora Maggie O’Farrell — baseado no romance desta — insere elementos capazes de suscitar reflexões para além do conceito histórico de Shakespeare e do poder de criação de uma de suas peças mais famosas: Hamlet.
Quando conhecemos Agnes (Buckley), com um plano que vai do céu ao seu corpo encolhido entre as raízes das árvores, a diretora deixa claro que aquela mulher é uma força da natureza, uma aura mística herege incompreensível para a crença católica regente, representada na figura da sempre ótima Emily Watson. Os elementos naturais a cercam, e a liberdade simbolizada na ave de rapina que a acompanha é um sinal da nossa simbiose diante do universo, sinalizando uma atmosfera quase mágica. É também um sinal de que tudo é efêmero.
Ao conhecer Will (Mescal), dois mundos colidem para a formação de um universo particular. Clichês à parte sobre a vida imitar a arte, aqui a sentença ganha força no sentido inverso, pois Agnes é a força motriz do filme. A sociedade é cruel com as mulheres; Will viaja para Londres a trabalho enquanto Agnes dá à luz envolvida numa conexão espiritual com a floresta e, quando isso não acontece, seus instintos e visões a alertam para o perigo. Jessie Buckley tem uma presença absolutamente fantástica; cada segundo de seu desempenho é notado, seja pela voz e expressão firmes, seja pela segurança em controlar o ambiente ao redor. Segurança essa que se misturam com explosões de amor pelos filhos e à rotina daquele mundo que vai sendo sugado por uma força que suas crenças não conseguem mais conter. O sopro de vida muda lentamente de ares e seus pensamentos, antes permeados de vida e perspectivas, tornam-se espaços vazios nos cômodos da casa já destruída por dentro, juntamente com o relacionamento com o marido.
Chloé Zhao é sutil ao conduzir essa contemplação de maneira delicada em seus planos, mas sem jamais deixar de causar impacto nos contrastes e em como a atmosfera do casal muda com as ações entre a vida e a morte. Se inicialmente a despedida de Will é feita num ambiente de ternura, com Agnes e as filhas envolvidas em tarefas relacionadas à sua própria natureza, isso muda no final com gestos forçados e uma atmosfera de luto. Não é à toa que a fotografia de Lukasz Zal (Ida, Guerra Fria e Zona de Interesse) equilibra tão bem universos distintos, como, por exemplo, ao trazer planos com lentes largas para representar a amplitude da floresta em contrapartida ao ambiente caseiro com planos que vão se fechando. E se mencionei os planos mais estáticos da diretora (ou da fotografia), é bem-vindo que os movimentos de câmera sejam feitos lateralmente, como um fantasma à espreita, observando sem jamais interferir diretamente.
Estes elementos são exaltados pelo design de som, criando uma levemente atmosfera sombria e de urgência, como um organismo vivo construindo um novo universo quando o filme desvia um pouco o foco para os sentimentos de Will. Aliás, ao focar o conflito paterno em suas escrituras iluminadas pela luz de velas, torna-se representativo para o arco de Agnes que ela seja sugada para esse mundo — um mundo simbolizado também pela atmosfera de luzes frias de uma Londres suja e sombria, atormentada pela crise sanitária devido à peste. Não é por acaso que todo o trabalho técnico seja elogiado também pelo figurino, que tem um papel simbolicamente importante no filme.
Ao surgir em um vestido vermelho, cuja tonalidade traz uma mistura com a terra da floresta, Agnes representa a explosão de vida. Ao mesmo tempo, é doloroso vê-la perdendo sua alma quando precisa assumir cores mais escuras devido ao luto, somente retornando à sua cor original posteriormente, mas não sendo mais capaz de refletir o significado inicial, ainda que o amor esteja sufocado ali. Aliás, é notável a preocupação da direção em mostrar as mãos de Agnes sempre sujas de terra, com suas unhas marcadas pelo constante contato com a natureza, contrastando com o trabalho manual de Will voltado à criação da vida através das palavras. Assim como o próprio Will tem seu visual condizente com sua fase ainda em construção do mito literário, cuja imagem clássica elisabetana é representada na figura repressiva do pai.
Devastador em seu terceiro ato, o filme mostra que a única resposta possível de Will para Agnes seria através de sua arte. Uma vez que o personagem foi habilmente construído pelo roteiro para soar à margem das dores da esposa, a diretora Chloé Zhao subverte um pouco das maiores criações da literatura ocidental, demonstrando coesão na sua narrativa e não poupando o espectador das dores do casal. Com planos evocando e concluindo a tal visão fantasma que se torna divina, a peça torna-se um registro para toda a eternidade, uma redenção possível; um sorriso que, por mais doloroso que seja, é ainda uma compreensão de que a arte se torna a maior aliada na percepção da vida.
O espectador dentro do cinema está ali, estendendo a mão junto daquelas pessoas, com Agnes, e olhando diretamente nos olhos marejados (ou manchados) de William Shakespeare, que tentou, dentro dos seus limites, representar o universo mágico da esposa, mesmo que seja apenas cenográfico. Todavia, tanto para Agnes quanto para Will, sua obra saiu do domínio deles e se tornou eterna.
Rodrigo Rodrigues
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