Naza
Direção : Yuval Abraham e Rachel Szor
Falar sobre o documentário Naza é reconhecer que podemos facilmente atacar o mensageiro em vez da mensagem, uma vez que pouco se pode afirmar com certeza sobre a veracidade dos militares israelenses que prestam seus depoimentos aos diretores Yuval Abraham e Rachel Szor sobre os métodos de genocídio do povo palestino. No entanto, diante da reação do governo assassino de Benjamin Netanyahu, que abriu uma investigação para identificar esses agentes, a denúncia parece ter atingido seu objetivo. Aqui, poucos me importam as motivações que os levaram a depor sobre seus atos; tampouco me interessa saber se estão arrependidos (duvido muito).
Filmando do alto dos prédios da capital israelense e mantendo oculta a identidade dos militares, os diretores criam uma dolorosa antítese entre a rotina da cidade — o trânsito durante o rush, as obras dos arranha-céus em construção e os moradores em seus afazeres domésticos — e os depoimentos que descrevem a destruição de edifícios e casas palestinas em Gaza. Para complementar essa abordagem, o filme é produzido por Jonathan Glazer (Zona de Interesse), que também explorou esse contraste entre a vida cotidiana e o horror ao retratar uma família nazista nas proximidades de um campo de concentração.
Como obra audiovisual, Naza mantém o público na expectativa de visualizar essa destruição, cujas imagens os diretores reservam para o final. A decisão amplia o impacto dramático do desfecho, mas cobra seu preço narrativo, tornando os depoimentos um tanto repetitivos ao longo dos pouco menos de 90 minutos de duração — algo que não ocorre no doloroso A Voz de Hind Rajab. Mesmo sem mostrar a menina, o filme acompanha seu relato das atrocidades cometidas pelos militares israelenses e seu desespero enquanto aguarda o resgate pelas equipes do Crescente Vermelho Palestino. Ao incorporar imagens de noticiários com entrevistas de Netanyahu, o documentário tampouco precisa fazer muito esforço para expor o cinismo da justificativa de que Israel estaria apenas lutando contra terroristas, uma narrativa que só convence quem é conivente com tais ações.
Mas, novamente, o mais importante é a mensagem, e não propriamente o mensageiro, uma vez que as atrocidades descritas são revoltantes. Não que fosse novidade para o mundo acompanhar a escalada das mortes do povo palestino. Para o governo israelense, porém, essas vidas são reduzidas a danos colaterais em nome da defesa do Estado. O título Naza remete justamente a essa desumanização de vida transformadas em rabiscos num papel sob a justificativa de combater o terrorismo, ataques coordenados são apresentados como produtores de efeitos colaterais que matou mais de 20 mil crianças.
Entre os métodos descritos está a localização de um suposto líder terrorista — que, segundo as justificativas militares, estariam escondidos em hospitais ou conjuntos residenciais (e, sim, há ironia nessa alegação) – seguida da destruição de andares inteiros para eliminar qualquer possibilidade de fuga. Outro procedimento consiste em rastrear celulares de pessoas comuns, inclusive pais de família, suspeitas de ligação com o Hamas, por meio do sistema conhecido como Lavender. Nele, uma inteligência artificial atribui pontuações a indivíduos para estimar a probabilidade de serem colaboradores. Um sistema frio que nada mais é do que uma desculpa técnica para varrer bairros inteiros de Gaza, deixando corpos enterrados sob os escombros e os gritos de desespero de milhares de inocentes.
Enquanto pesquisava para escrever este texto, deparei-me com uma reflexão do crítico Robert Daniels falando sobre a devida atenção a esses fatos porque são relatados pelas vozes dos próprios Israelenses, enquanto os gritos das crianças e das famílias mortas continuam a ecoar.
Rodrigo Rodrigues
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