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Crítica: Trumbo – Lista Negra

trumbo-cartaz Crítica: Trumbo - Lista NegraTrumbo – Lista Negra

Direção: Jay Roach

Elenco: Bryan Cranston, Diane Lane, Louis CK, Elle Fanning, Dean O’Gorman, Christian Berkel e Helen Mirren

As caças as bruxas na indústria cinematográfica e na sociedade americana na década de 50 restringiram direitos civis básicos da população apenas por suspeitarem de ligação com qualquer movimento que confrontasse os padrões morais americanos. Carreiras e vidas foram destruídas, sem qualquer prova ou fatos, em julgamentos que não valeram nada, que não fosse saciar a sede do famigerado comitê de atividades antiamericanas.

Contundo, se tratando de um filme em que o personagem principal é um famoso e premiado roteirista, Trumbo – Lista Negra soa quase com um exercício de ironia pelo fato de apresentar-se não somente um roteiro desfocado e uma direção no mínimo de mau gosto, como desperdiça uma importante história de grandes reflexos não somente dentro do cinema, mas como no contexto social da época.

Quando conhecemos Dalton Trumbo (Cranston), vemos um homem firme com suas convicções sem jamais demonstrar contraste com sua condição social (até porque não existe uma regra ou voto de pobreza para tal pensamento). Mas antes de qualquer coisa é bom deixar claro que Trumbo era ciente de sua genialidade, mas o egocentrismo acabou prejudicando seus relacionamentos.

Bryan Cranston mostra novamente competência, alternando seus momentos de descontração e de raiva de maneira convincente. Seus gestuais são pensados, mesmo que por vezes, devido à composição visual e figurino soe cartunesco. Como incomoda , por vezes, que Trumbo soe como fosse o último roteirista de Hollywood apenas para servir a necessidade dramática.

Além do tema sociopolítico, também somos inseridos no contexto da velha briga entre Roteiristas x Diretores, assim como o panorama cruel dos bastidores da própria indústria, vista na figura da famosa colunista Hedda Hopper (Mirren). Hopper não apenas personifica a irracional sociedade americana como por vezes necessária para manter aquele show.

Além de uma figura que influencia milhões com suas posições, Hopper acaba sendo o símbolo do comitê, na qual Trumbo se recusou a cooperar em entregar seus colegas. Uma mulher que promovia boicotes a filmes somente por estes serem escritos por profissionais possivelmente ligados ao partido comunista como isso fosse importante para exercer a profissão.

Como podemos perceber pela quantidade de assuntos mencionados acima, o roteiro de John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, parece não seguir a objetividade de seu biografado ao levar o espectador de um lado para o outro em suas abordagens. Começamos com a questão política dentro dos bastidores, passamos (desnecessariamente) pela época da prisão de Trumbo, pelo Macarthismo e a necessidade de ocultar seu nome nos roteiros, pelo conflito familiar…

Obviamente isso não seria problema se a direção conseguisse equilibrar todos os assuntos e contexto com fluidez. Entretanto, isso não acontece, e ironicamente num destes desequilíbrios que o filme consegue por momentos avançar e atrair a atenção do público. Tudo graças também à presença de John Goodman interpretando produtor Frank King. O ator mostra todo seu carisma e presença em cena para tonar seu impaciente personagem num dos pontos altos do filme.

Assim o filme parece assumir um pouco abraço um lado cômico conseguindo render bons momentos, como o fato de ficarmos conhecendo a engenhosidade de Trumbo para continuar escrevendo com a ajuda de amigos escritores (Lembrando que Trumbo ganhou o Oscar duas vezes com nomes fictícios, que acabou se tornando um tapa na cara da mídia que jamais conseguiu identificá-lo durante todos os anos que atuou na clandestinidade).

Entretanto, a direção de Jay Roach ainda se mostra desastrosa, principalmente pela falta de cuidado com a narrativa. A fotografia de Jim Denault é tão sem contraste e clara que sentimos que estamos vendo uma produção para televisão, mesmo que por alguns momentos a direção, como lembrasse que precisava melhorar apresente uma palheta mais quente para evidenciar o contexto, mas mesmo assim feito de artificial.

Outro exemplo da direção descuidada é quando, em determinada cena, a família Trumbo se prepara para passar uma manhã na piscina, para somente momentos antes, descobrirem que o local estava sem condições de uso, devido à ação de pessoas que são contra a presença deles ali (era impossível que em questões de segundos o local estivesse deteriorado como foi mostrado). Ou durante uma reunião, os integrantes olham todos ao mesmo tempo em direção ao interlocutor quando Trumbo faz uma revelação o confrontando (soa artificial e enfraquece o diálogo).

Tal falta de cuidado segue na estrutura, pois as passagens de tempos não são orgânicas, incomodando pela artificialidade. Por momentos percebemos claramente, através da maquiagem e penteados, que o protagonista está proporcionalmente bem mais envelhecido que os outros integrantes, como sua esposa Cleo (Lane).

As caracterizações de outros personagens não ajudam muito e o surgimento de Dean O’Gorman interpretando Kirk Douglas é no mínimo incomoda. Como sempre quisesse chamar a atenção para sua atuação e quem esta retratando, o ator não economiza na postura atlética e sai completamente do personagem, confirmando que nem sempre a verossimilhança ajuda na composição.

Finalizado de maneira convencional, Trumbo decepciona tanto por sua abordagem quanto formato, mesmo para efeito histórico. Trumbo foi premiado em vida por The Brave One de 1957 (com o nome de Richard Rich), e teve oficialmente seu nome incluído nos créditos em Spartacus e Exodus.  Isso sem contar que em 1993 (quase 20 anos depois de sua morte) obteve o reconhecimento pelo roteiro de A Princesa e o Plebeu.

Contudo, acredito que o máximo que ficamos conhecendo de sua verdadeira persona neste filme é justamente através dos créditos finais.

Cotação 2/5

trumbo-final Crítica: Trumbo - Lista Negra

Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

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