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Crítica: Lumière! A Aventura Começa

lumiere_poster Crítica: Lumière! A Aventura ComeçaLumière! A Aventura Começa

Direção: Thierry Frémaux

Sempre que alguém diz que prefere um blockbuster a um “filme cult”, a primeira pergunta que faço é: qual a diferença ou juízo de valor que separam os dois? Devemos lembrar que, independente da narrativa, a ação do cinema basicamente é feita de personagens dentro de imagens em movimento. Portanto, não podemos separar em duas categorias antagônicas como se não usassem, em suas bases, as mesmas regras e fundamentos (independente se mal ou bem utilizados).

Mostrando uma pequena parte das mais de 1.440 gravações dos irmãos Lumière durante os anos de 1896 até 1905 aproximadamente, o documentário Lumière! A Aventura Começa do diretor Thierry Frémaux (no caso “composto” e não “dirigido”), é uma homenagem e principalmente uma aula sobre cinema que todos aqueles que amam a sétima arte precisam ver, por mais entendido no assunto ou que já tenha o conhecimento prévio das imagens mostradas. O filme é estruturado nas gravações e de maneira bem didática, onde o “diretor”, em off, vai apontando pequenos detalhes e o contexto histórico que se tornaram alguns dos fundamentos básicos de um filme, numa viagem inesquecível pelas sensações de um mundo sendo redescoberto aos olhos do cinema. Elogiável, portanto, que a direção jamais tente se sobrepor às imagens ou mesmo criar qualquer áurea pedante, pois tudo acaba soando como uma reverência as obras dos Lumière, e claro à sétima arte.

Contudo, e finalizando o raciocínio iniciado no primeiro parágrafo, todos os tipos de filmes, sem exceção, originam de uma ideia básica de dois franceses que no final do século 19 não apenas criaram um mecanismo chamado cinematógrafo (baseado num modelo de Thomas Edson), que inicialmente foi visto com descrédito, mas uma expressão artística que mudou para sempre a história da humanidade. Uma forma de “mostrar o mundo ao mundo” de uma maneira nunca antes vista: fotografias que, aceleradas a certa velocidade, dava a impressão de movimento ao serem exibidas – tanto que no início deste documentário, a direção faz uma pequena brincadeira ao acelerar as imagens da tela para simular o mecanismo do aparelho e o movimento. Fora que, se atentarmos, em apenas 20 anos o cinema sofreu inúmeras revoluções (experimentações) dando a dimensão do seu poderio e velocidade nunca antes vista na história das artes. Um poder de controlar o tempo, fazer com que o público fique a mercê e passivo à sua própria vontade. Uma arte audaciosa em constante mudança que “tornaria o invisível em visível”, “realizaria o impossível” e que se tornaria uma “aventura apaixonante”, como disse a escritora Emmanuelle Toulet. Ou como tão bem disse Jean Paul Sartre: “Quando nos demos conta da sua existência, fazia tempo que havia se tornado nossa necessidade principal“.

Devido ao seu pioneirismo, os irmãos Lumière acabaram não somente inventando uma nova e revolucionária expressão artística que se alastrou rapidamente pelo mundo, que antecipou (e consequentemente influenciou) alguns dos maiores nomes da história do cinema que, dentro de suas obras, revolucionaram o também o próprio cinema em si – George Méliès, inclusive, estava presente numas destas sessões que diretamente o influenciou a criar os efeitos que também mudariam a história daquela arte, como visto em Viagem a Lua de 1902. Inclusive, quando vemos um dos seus auxiliares filmando no Japão, não estamos apenas diante de homens apresentado a cultura nipônica através das artes marciais, mas também do embrião que inspirou ninguém menos que Akira Kurosawa a fazer seus filmes. Como é impressionante também que, um dos filmes seja praticamente a “cópia” da cena dos marinheiros no bote do Encouraçado Potemkin de Eisenstein (1925) que revolucionou o cinema devido ao conceito de montagem encabeçado pelo diretor russo – assim como é igualmente assustador a semelhança do plano de um navio chegando, antecipando em um século a cena de Titanic de James Cameron em 1997.lumiere_meio Crítica: Lumière! A Aventura Começa

(E, como exercício de curiosidade, as experiências de filme apresentando as rotinas acabaram que “criaram” o conceito de “remake”, uma vez que os Lumière filmavam as cenas novamente quase exatamente do mesmo local, a ponto de parecer o mesmo filme, como visto na famosa cena da saída da fábrica)

Também é notável, devido a limitação técnica, que as gravações não durassem mais que 50 segundos, e ainda assim não impedissem de observarmos o nascimento das técnicas cinematográficas como conhecemos. Mas isso não foi o principal impacto, até porque a linguagem era pouco compreendida até pelos próprios criadores, e sim o fato do poder que as imagens teriam no público a partir dali. Como sempre menciono nas críticas, alguns aspectos técnicos que aprendo, saliento que tal elemento por mais que o espectador comum não tenha ciência da sua existência, ele é passivo e sente o poder da imagem. Ou seja, se você sentiu algo com determinada imagem, foi por alguma decisão dos realizadores baseada nestes conceitos que foram sendo experimentados durante as décadas seguintes. Como a famosa cena do trem chegando à estação em que parte do público achou que o trem realmente estaria atravessando a tela, ou o fato de reparar nos detalhes como o balançar das folhas ao vento que, num mundo ainda baseado na fotografia, se sentiram maravilhados devido a uma sensação que hoje para nós, soa banal (Se ponha no lugar daquelas pessoas e tentem imaginar o choque em ver imagens em movimento). Seria proporcionalmente ou até mais, por que neste caso temos o exercício do cinema já aplicado na mente, como estivéssemos lendo os jornais com as fotos se movendo como feito no universo de Harry Potter; e sendo curioso também como as pessoas envolvidas nas filmagens foram se adaptando com o tempo às atuações, como toda as particularidades que novas tecnologias trazem, como o fato de alguns “atores” representarem seus cotidianos de maneira exagerada.

Entretanto, é com relação à capacidade e maneira de transmitir as imagens que o documentário nos surpreende com a genialidade dos operadores responsáveis pelas imagens e da importância de conceitos que hoje parecem simples, como o posicionamento da câmera, a questão da profundidade de campo, os enquadramentos etc. Está tudo ali e visto na sua mais pura e bela forma deixando qualquer pessoa que ame o cinema com uma sensação única e lágrimas por ver que a base artística para suas lembranças, memória e sentimentos causados pelo filmes da sua vida vindo à tona. Portanto, não acredito ser coincidência que por varias vezes os enquadramentos de um veículo atravessando a rua e uma inusitada procissão de carrinhos de bebês contenham a mesma rima visual da famosa cena do trem na estação.

Assim, é igualmente mágico ver outros conceitos básicos do poder de uma câmera se movimentando (e não somente parada “pegando” o movimento), como a descoberta do travelling e uma panorâmica na chegada de um barco em Istambul e como um enquadramento pode criar uma sensação de profundidade que até hoje se mantêm como padrão ao apostar em linhas diagonais na tela (e assim fica o exercício para todo o filme que o espectador for ver daqui em diante). Ou como nos belíssimo planos mostrando Paris do início do século XX do alto da própria Torre Eiffel, e até cenas servindo como um “noticiário” em seus primórdios ao mostrar as ruas francesas alagadas e as dificuldades dos transeuntes em atravessá-las. Ademais, vale a pena ressaltar a cena mostrando Berlim e a movimentação das pessoas e veículos numa composição de cena que de tão bela, pelo seu realismo e sincronismo natural das pessoas que, passado mais de 120 anos, raríssimos diretores conseguiriam controlar e consequentemente capturar tal atmosfera pulsante nos dias de hoje.

Mas nada mais contrastante que, numa das filmagens ocorridas no Egito, demonstrarem a Esfinge sendo observada por locais, mas simbolicamente soar o encontro de uma relíquia da humanidade de quase cinco mil anos e um movimento artístico ainda dando seus primeiros passos diante da eternidade que a escultura já alcançou na história. Contudo, a beleza das imagens de países ditos como exóticos na mente europeia, não deixaram de fazer uma denúncia política (como toda arte faz) ao vermos mulheres jogando moedas para os habitantes como uma prova cruel do colonialismo inglês. E assim, de certa maneira, antecipando também, o uso desta nova arte para propagação de diversas ideologias e governos, principalmente pelo fato de termos a primeira guerra mundial se aproximando.

Sem se mostrar repetitivo em nenhum momento, Lumière! A Aventura Começa não chega exatamente a um final, mas da uma pequena amostra do potencial visual que o cinema tem. Assim quando vemos uma imagem de um aquário e seus múltiplos reflexos e formas causados pela água e uma cena colorida manualmente de uma dançaria e o belo sincronismo de seus movimentos, aquela arte esta ali como dissesse: “Isso é somente a ponta do que eu ainda posso oferecer ao mundo”.  Até porque não tínhamos a ideia da avalanche de sensações, pensamentos, formas, conhecimentos, medos, amores e mundos que viriam.

Nota 5/5

lumiere_fina Crítica: Lumière! A Aventura Começa

Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

2 comments

  • Rodrigo Rodrigues
    Rodrigo Rodrigues:

    Ana Julia1999
    Bem vinda
    Realmente o filme é maravilhoso e deveria estar disponível a todos os amantes do cinema.
    Fique atentar para quando o filme estiver disponível em Streaming ou download.
    Abraços e continue conosco

  • anajúlia1999:

    Deve ser maravilhoso assistir isso… pena que na minha cidade não vai passar…

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