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Crítica: Pantera Negra (Black Panther)

panter_poster Crítica: Pantera Negra (Black Panther)Pantera Negra

Direção: Ryan Coogler

Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Sterling K. Brown, Andy Serkis, Angela Bassett, John Kani e Martin Freeman.

Pantera Negra é um filme protagonizado por um negro, com um elenco quase 100 % negro, dirigido por um negro, roteirizado por um negro e seu custo gira em torno de 250 milhões de dólares. A representatividade de um filme como este vai além de números, apesar que tais informações são mais que importantes dentro de um universo de heróis masculinos e brancos. Assim quando surgem obras como Mulher Maravilha ou uma franquia como Star Wars sendo protagonizada por um mulher e um negro, ratificamos que o poder de identificação e capacidade de dar voz a minorias dentro do cinema nunca se fez tão presente quando falamos numa obra com este alcance. E o fato de atingir uma grande parcela do público e discutir assuntos de cunho sociopolítico, torna o filme do herói africano não somente um marco, mas (espera-se) um novo paradigma de um movimento.

O filme inicia com um breve prólogo num tom de fábula representando o poder do continente africano com relação às origens no planeta e já emitindo uma forte mensagem ao ter o plano do globo terrestre focado no continente africano e não americano, para em seguida sermos apresentados à cidade de Wakanda, uma metrópole avançada e tecnológica, escondida nas montanhas, cuja fonte de poder é baseada na extração do poderoso metal Vibranium que fornece uma tecnologia quase extraterrestre em diversas áreas de atuação.

Pantera Negra não é exatamente um filme de origens (uma vez que o personagem e suas motivações foram mostradas em Capitão América: Guerra Civil e o filme se posiciona logo depois de tais fatos), mas um complemento para as ações vistas anteriormente. Assim, após a morte de seu pai T’Chaka (Kani), o herdeiro T’Challa (Boseman) assume o seu lugar e precisa defender a cidade de invasores liderados por Klaue em busca do valioso metal (um Serkis fora do tom e valendo apenas pela cena cantando ”What is Love”), ao mesmo tempo que precisa lidar com o misterioso Killmonger (Jordan).

O roteiro de Joe Robert e do próprio diretor Ryan Coogler (que vai consolidando seu lugar depois do chocante Fruitvale Station: A Última Parada  e do inesperado e eficiente Creed (ambos com o próprio Michael B. Jordan) ainda que apele para diálogos expositivos (”Mostre quem você é”) e criando certas barrigas durante o segundo ato, ao ponto de tornar alguma resoluções apressadas e abruptas como a questão envolvendo Killmonger (e seu passado envolvendo T’Challa e principalmente Zuri , interpretado por Forest Whitaker), tem em suas mensagens implícitas a importância de pluralidade e as ditas discussões políticas e sociais.

Aliás, o elenco é fundamental (óbvio) para que a identificação tenha o alcance desejado. Chadwick Boseman se torna um personagem tão importante quanto, por exemplo, é visto no Capitão América de Chris Evans e no Homem de Ferro de Robert Downey Jr. E aqui, mesmo inevitavelmente (e com razão)  remeta a uma espécie de “Bruce Wayne”, o mesmo difere do Homem-Morcego por suas motivações e contexto. Auxiliado, por exemplo, por uma doce e forte Lupita Nyong’o como a guerreira Nakia, Daniel Kaluuya (visto recentemente no excelente Corra!), uma intrépida Letitia Wright (irmã e responsável pelo suporte tecnológico), e a rainha mãe vivida por Angela Bassett, temos nestas escolhas uma representatividade raramente imaginada dentro de um grande produção com este alcance (até porque o único personagem mocinho branco, o agente interpretado por Martin Freeman, mesmo dentro de sua importância, é visto mais como um alívio cômico).pantera-meio Crítica: Pantera Negra (Black Panther)

Inclusive, é através do antagonista Killmonger de Michael B.Jordan que temos o arco maior sobre tais questões. Visto como um cão de guerra que atua em nome do EUA para desestabilizar nações (algo bem comum no mundo real), ele personifica a posição de um excluído que vem a tona reclamar pelo seus direitos, um dos milhares de indivíduos vitimados pelas campanhas eugênicas do governo e as devidas ações policiais em comunidades pobres. O ator repete um papel feito anteriormente em Creed, onde sua raiva é um combustível para lutar contra as desigualdades diárias e a opressão, onde seu personagem vai aos poucos  servindo à estória como exemplo do oprimido virar opressor de maneira lúdica – e ainda sim conseguindo manter sua dualidade dentro da narrativa.

E até mesmo a própria Wakanda – e suas riquezas tecnológicas e sociais – é transformada pela direção numa metáfora para as discussões sobre diversos subtextos de desigualdade racial. Como a questão dos refugiados e a inércia dos países ricos em achar que, ao tratar elementos de altruísmo, poderão de alguma maneira fazer perder seu estilo de vida e apresentam medo de uma mistura étnica, sem levar em conta que um dia a conta da exploração secular seria cobrada. Um país que deixou de se sensibilizar pela causas dos seus irmãos pelo mundo e suas necessidades de lutar contra a opressão dos colonizadores e apropriação cultural.

Narrativamente falando, infelizmente, a obra ainda soa contaminada por características comuns ao gênero em alguns momentos importantes. O que de certa maneira parece inútil comentar, mas por questões de aprendizado sempre é bom mencionar, como a falta de mise-en-scene clara nas cenas de perseguição de carros, e as lutas soando um pouco genéricas. Mas ainda assim a direção tenta por alguns momentos, com alguns movimentos de câmera, sair do mesmo, como o uso de zoom in e out na sequência passada dentro de um cassino coreano (saída de um filme do 007) ou quando num determinado momento da coroação do rei, a câmera primeiramente nos mostre um ângulo invertido remetendo àquela situação – e até incluindo um travelling no início do filme, provavelmente inspirado em Cidade de Deus.

Contudo, o design de produção faz um trabalho elogiável ao traduzir com ainda mais beleza e eficiência a junção do moderno e do rústico. Portanto, a capital de Wakanda remete a uma espécie de Coruscant contextualmente mais alegre e pulsante, com seus trilhos suspensos, prédio aglomerados e comércio de rua diversificado e colorido, como desejaríamos que fosse na África atual. Uma espécie de “Eldorado Hightech Tribal” onde, num mesmo plano, misturam-se naves com tecnologia avançada, pilotadas por controle remoto, com cavalos correndo nas savanas. Ademais, ao manter certa uma inventiva lógica visual – como o fato de animais serem cobertos com armaduras durante uma batalha e as mantas se tornarem escudos – é interessante ver o tratamento dado, por exemplo, a caverna onde se encontra o esconderijo do herói e as minas do tal Vibranium, com suas paredes revestidas de gravuras e painéis coloridos (remetendo à cultura local) e também a predominância do roxo resultando num aspecto visual agradável.

E para tais elementos, devemos exaltar (mais uma vez) o trabalho de fotografia de Rachel Morrison. A diretora que se tornou a primeira mulher a ser indicada ao Oscar em 2018 com Mudbound: Lágrimas sobre Mississipi, e já tinha realizado outro grande trabalho no próprio Fruitvale Station: A Última Parada, é eficaz ao exaltar através de sua palheta de cores quentes e luzes o colorido daquela atmosfera e roupas, como podemos ver na sequência passada na cachoeira em que o protagonista assume os poderes do Pantera Negra, onde num belo plano visto de baixo para cima, temos a amplitude e diversidade do povo africano – mesmo que seja visível que o CGI soe artificial em alguns momentos, como na própria cena da cachoeira (algo que não acontece, por exemplo, nas cenas se passando nos sonhos em que o aspecto onírico é bem ambientalizado, não soando tão artificial para aquele contexto).

Aliás, o figurino é outro ponto a ser comentado por ressaltar também as culturas locais com seu adornos, vestidos, cordões, guirlandas e arcos que diferem as diversas castas dos povos locais. Onde, por exemplo, a chefe da guarda (interpretada por uma ótima e imprevisível Danai Gurira, quase irreconhecível sem os dreads de sua Michonne de The Walking Dead) é uma espécie Grace Jones moderna saída de Conan – O Destruidor . Mas nada mais representativo para o contexto do filme que, durante o teste de um dos uniformes do herói, o manequim (branco), vai assumindo a cor negra característica num forte simbolismo trazido pela direção – algo que jamais iríamos ver, por exemplo, num filme de outro super-herói.

Naturalmente pautando a abordagem política e social durante toda sua projeção, o longa se sobressai ao criar as analogias sociais que mais do que tardiamente eram necessárias serem apontadas. E mesmo que, para um elite branca (mais acostumadas a criar muros que pontes) o pequeno país de Wakanda possa parecer pobre, sem valor e pejorativamente chamado de terceiro mundo, sabemos o que o poder do Pantera Negra é capaz de fazer. Um poder onde a capacidade de existir para pessoas que nunca se sentiram representadas é mais que uma mensagem, é sim um símbolo e ponto de partida de mudanças para todos.

Nota 4/5

pantera-final Crítica: Pantera Negra (Black Panther)

Avaliação
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RodrigoRodrigues-144x144 Crítica: Pantera Negra (Black Panther)

Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

11 comments

  • Pau Kuri (@paula_kuri):

    Ótima interpretação! É importante dizer que toda essa produção expõe fortemente uma cosmovisão, ou seja, uma forma de enxergar o mundo nas diversas áreas da vida; e que todo o roteiro foi projetado para convencer o público da mesma. Vale a pena assistir? Sim! O gráfico do filme é de cair o queixo, as cenas de ação são muito eletrizantes, os rituais simbolizando as tradições tribais africanas nos transportam para uma realidade totalmente diferente da nossa. As atuações dos atores estão sensacionais, eles incorporaram os papéis de forma magistral, mas entre tantas estrelas, há um nome que roubou corações: Michael B. Jordan (muito talentoso, eu compartilho seu novo projeto, Fahrenheit 451, aqui: https://br.hbomax.tv/movie/TTL711416/Fahrenheit-451 os detalhes), na pele de Killmonger, um vilão impossível de odiar, realmente muito cruel sem traços caricatos e exagerados. A forma como a tecnologia foi perfeitamente agregada à cultura africana foi simplesmente incrível. Os efeitos visuais e a agregação do moderno com o antigo foi, sem dúvida, fantástico. Um dos melhores e mais criativos filmes que já li no cinema.

  • Artur Gabriel:

    O filme é bom sim, mas pelamorde Deus aquele CGI do Pantera na sequencia da cachoeira, parece aquelas cenas dos games de PlayStation entre as fases, aquilo nao deu pra aceitar, depois do que vimos nos filmes recentes da Marvel, como o ultimo filme do Thor, com os efeitos impecaveis na batalha com o Hulk, nao da pra aceitar o CGI desse filme… lamentavel

  • Thiago Carzodo:

    eu peguei um asco da atriz que faz a Michonne em TWD por causa do que ela fez na ComiCon CCXP que ela nao deixava o fã chegar perto pra tirar foto, mesmo cobrando 300 pila… pior que ela é boa atriz, bonita, pena que é um c o c o zinho

    • Paulo Vieira:

      Também não curto ela muito, justamente por causa de seus atos.

  • Inah José:

    o que sao barrigas de roteiro? tem um exemplo disso nesse filme pra eu entender?

  • Terra Nostra:

    Achei um bom filme. Tecnicamente muito bom. Mas saí com um gostinho amargo, pois queria mais ação, mais coisa de “super herói”. Falha minha, claro, pois o filme nao tem que se adaptar às minhas expectativas. Achei interessante que, apesar de ser um filme “preto”, com toda a carga de representatividade que tem, inclusive com o lance de Wakanda não se enquadrar na visão submundista que os EUA tem da África, ocorre que Wakanda é um EUA na África rs… eles são segregadores, não gostam de forasteiros, nota-se um ar xenofóbico e preconceituoso. Isso balança e equilibra as coisas, claro, da uma cara real ao país fictício e não deixa com que eles sejam 100% virtuosos, lindos, perfeitinhos. Nesse sentido, portanto, ficou muito bom. E mesmo com os haters boicotando o filme pela representatividade, ele está indo muito bem, obrigado.

  • Gilberto:

    Não curti o filme. Quase dormi no começo. Bravo pela enaltação da cultura negra e das mulheres. A trama é fraca. Essa história de Star Trek misturado com Vikings fica forçado demais. É alta tecnologia pra todo lado num sistema patriarcal onde os caras decidem na porrada que é o rei da parada? hehehehehe é uma sociedade muuuiiitttooo avançada mesmo.

  • Alan Bitencourt:

    Finalmente um filme realmente bom na Marvel, eu não sou de avaliar um filme só por uma crítica, mas nesse caso é válido, porque eu já estou cansado de vê os mesmos filmes de sempre da Marvel, vários eu não quis assisti, porque são a mesma coisa, mesmo que mude os heróis e e pelo que parece o filme está no mesmo nível do Capitão América 2 que é o melhor filme da Marvel eu não vejo a hora de assisti.

    • James Dean:

      É impossível falar sobre esse longa sem mencionar as coprotagonistas do filme — chamá-las de coadjuvantes seria reduzir sua importância na trama. A guarda pessoal do rei, as Dora Milaje, comandadas por Okoye, fariam os 300 de Esparta ronronar e dormir em posição fetal no cantinho do penhasco.

  • Edson C:

    Um dos melhores filmes que a Marvel já fez, definitivamente um filme envolvente, empolgante, sensacional…

  • Denis Marques:

    Pra mim Pantera Negra é o James Bond da Marvel, um filme atual, político e necessário que acerta em cheio ao criar uma trama mirabolante, repleta de reviravoltas e mensagens valiosas em seu subtexto. É o filme mais sério e mais profundo da Marvel, cheio de alma e momentos épicos que deixarão qualquer cinéfilo boquiaberto, principalmente se comparado aos outros filmes de heróis.

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