Crítica: Viúva Negra (Black Widow)

Direção: Cate Shortland

Elenco: Scarlett Johansson, Florence Pugh, David Harbour, Ray Winstone, Ever Anderson, Violet McGraw, O-T Fagbenle, Olga Kurylenko e William Hurt

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Nota 3/5

Assim como uma brincadeira juvenil, Viúva Negra possui elementos suficientes para manter certa atenção, mas é algo que aos pouco vai se tornando vacilante em sua tarefa de trazer ao público o primeiro filme solo da espiã russa integrante dos Vingadores. Mesmo com o atraso no lançamento devido à pandemia e a fato da personagem ser a única dentre os protagonistas ainda sem um filme somente dela, acredito que ela merecia algo melhor. Além de cronologicamente deslocado entre um filme de origem e diante dos acontecimentos que culminaram na batalha contra Thanos em Vingadores: Ultimato, o roteiro de Eric Pearson é um amontoado de clichês extraídos de filmes do gênero de espionagem, principalmente de Jason Bourne – o que denota o erro de se inspirar sempre em um universo masculino. Não que a personagem ou até mesmo a atriz tenham culpa, pois dentro desse universo de filmes baseado em HQs seria injustiça colocar o peso todo em cima dela, mas é inevitável a percepção de “dispensável” (lembrando que é algo recorrente ao gênero); sendo uma pena que Scarlett Johansson tenha uma despedida tão fria do papel icônico.

Voando entre países europeus como uma itinerante em busca de respostas, Viúva Negra/Natasha Romanoff (Johansson) precisa descobrir o paradeiro de Dreykov (Winstone), o responsável pelo projeto em que ela, sua irmã Yelena (Pugh, uma boa atriz, diga-se de passagem) e outras tantas mulheres pelo mundo foram submetidas às experiências para se tornarem assassinas, enquanto é perseguida pela soldada Taskmaster (Kurylenko); ao mesmo tempo em que enfrenta uma busca em vão para preencher o vazio por sua infância ao descobrir a verdade sobre seus pais Alexei (Harbour) e Melina (Weisz).

Uma busca por suas origens é suficiente para se criar arcos dramáticos que pudéssemos estabelecer algum tipo de identificação com as irmãs e seu conflitos sobre o passado e a exploração que sofreram; portanto, chega a ser elogiável que no início do longa a diretora Cate Shortland tente imprimir algum conflito e passe diversas informações (através de um tom mais fantasioso) da infância perdida para sempre e o desperdício da dedicação emocional que as jovens tiverem no local em que moravam, restando apenas as lembranças. Contudo, parte dessa dedicação vai sendo cooptada totalmente pela necessidade de atender expectativas como um filme de super-herói e seus esquemas narrativos; inclusive até mesmo a trilha sonora me chamou atenção para isso criando um possível paralelo. Se inicialmente ouvimos ao fundo a música American Pie (sucesso de Don McLean na década de 70) – algo até surpreendente -, logo depois somos compelidos a ouvir uma lenta versão óbvia de Smells like Teen Spirit do Nirvana.

Mas devaneios musicais à parte, a verdade é que Viúva Negra passa o restante de seus 135 minutos entre superficialidades da protagonista na busca por sentimentos que o filme sequer consegue trabalhar direito, com frases do tipo “não perca sua essência” que, assim como risos, interjeições infantis e outras frases de efeitos por personagens desinteressantes e caricaturais, são colocadas em meio a espetáculos digitais. Se, por exemplo, o personagem Guardião Vermelho de Harbour é vítima absurdamente fácil do estereótipo russo, passando a trama toda servindo apenas para o alívio cômico, Rachel Weisz também não consegue fazer muita coisa com sua personagem ao demonstrar sua inteligência ao criar mecanismo para subtrair a capacidade do livre-arbítrio de um porco.

Claro que vale a pena mencionar alguns cenas, como a sequência de resgate do Guardião Vermelho de uma prisão, onde a fotografia cria um inesperado contraste entre o interior reduzido e avermelhado do local com o branco das montanhas de neve; assim como o fato do grandioso clímax final ter um pouco de preocupação com a mise-en-scène (organização dos elementos em cena) ao visualizarmos a grande plataforma espacial se movendo nos céus após a batalha, o que acaba causando um impacto relevante.

Ao término de tudo, Viúva Negra acaba sendo (algo comum ao gênero; já disse isso antes não?) uma escada para uma nova etapa de acontecimento com outros personagens e histórias devido às famigeradas cenas pós-créditos. E se anteriormente isso era algo que criava no mínimo algum tipo de interesse (mesmo que com uma sensação de desperdício por nos dedicarmos a algo que serviu apenas como um placebo), aqui parece tudo ainda mais perda de tempo, considerando o destino da personagem em Vingadores: Ultimato. Entretanto, saindo um pouco da análise fílmica, é interessante comentar que, como um exercício de metalinguagem, a atriz demonstrou coragem imensa e está processando a Disney por quebra de contrato pela exibição do longa em streaming depois de um curto lançamento nos cinemas. E talvez esteja aí a maior contribuição do filme!

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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

5 thoughts on “Crítica: Viúva Negra (Black Widow)

  1. Discordo. Imperio Contra-Ataca e As Duas Torres (Senhor dos Aneis) tb foram meros capitulos de uma historia maior? Tb foram escada pra uma nova etapa??? Ou só vale a crítica pros filmes de herois? Nao podem contar uma historia legal sobre um personagem, mesmo que ela seja menor que a historia geral por trás? So pq é um flashback de uma saga maior nao tem valor? Desculpe, mas discordo.

    1. Thiago
      Bem vindo.

      Ótimo em discordar. Sem problema algum. Isso engrandece o debate.

      Interessante seu exemplo citados, contudo, a meu ver, a(s) maior (es) diferenças é que essas sagas foram propositalmente pensadas e filmadas com um único filme (no caso dos senhor dos Anéis porque SW isso somente aconteceu a partir do segundo capítulo). Todos os elementos narrativos e histórias são coesos dentro daquele espaço, ao contrário dos filmes de Super-Heróis que precisam de uns vinte filmes para fechar uma saga, como feito, por exemplo, com os Vingadores ; e mesmo que digam que foi tudo pensado, nenhuma arco de estória consegue se manter sem grandes percalços durante tanto tempo com filme que se parecem cada vez mais um com outro.

      Mas jamais direi que não se pode contar uma historia legal, pelo contrário, tem filmes que gosto da história (O primeiro Homem de Ferro e Capitão América, Guardiões da Galáxia, Guerra Civil e Ultimato)

      Mas especificamente o filme da VN apresenta elementos narrativos falhos como expliquei: roteiro repetitivo, personagens pouco desenvolvidos e historia deslocada. Não teria problema em ser uma historia menor, mas nesse caso , ao meu ver, não conseguiram fazer.

      Abraços

    2. Mesmo a saga Marvel tendo mais de 20 filmes, a maioria tem história fechada… e vc consegue assistir sem necessariamstente ter que ter visto os anteriores. Por exemplo, pega o Homem Formiga, vc assiste numa boa. Os dois ultimos Vingadores (Guerra Infinita e Ultimato). Se pegar o Guardioes da Galaxia e Guerra Civil, sao historias autonomas, mesmo fazendo parte do UCM. E por ai vai.

  2. filme caça niquel, feito pra tirar o ultimo bagaço da fruta Scarlett Johansson na Marvel… meio que deu certo, pois o filme é legalzinho mesmo. Agora, numa escala Marvel, está entre os piores, ao lado dos primeiros Thor e do Homem de Ferro 3 e Vingadores Era de Ultron.

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