Crítica: Homem-Aranha: Um Novo Dia

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Diretor: Destin Daniel Cretton

Elenco: Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Tramell Tillman, Michael Mando, Mark Ruffalo, Liza Colón-Zayas, Eman Esfandi, Zabryna Guevara, Marvin Jones III e Zarra Kaahn

Seria inocência minha achar que a nova aventura do Homem-Aranha poderia torna-se algo de novo dentro do universo cinematográfico da Marvel como obra com personalidade própria. Não que não tenha, mas sendo um dos pilares para a nova fase do estúdio no cinema, é impossível que a obra não soe nada mais que uma emenda para eventos maiores – algo que está sendo feito há quase vinte anos pelo estúdio. E, relendo meu texto, por exemplo, de Longe de Casa (2019), confirmo tal afirmação escrita há seis anos ainda se mantém. Mas não por brilhantismo meu, longe disso, e sim por ser previsível que a Marvel use seus filmes de maneira repetitiva como alavancar para outros vindouros. Além do mais, não soa nada de novo que esse Homem-Aranha: Um Novo Dia, dirigido por Destin Daniel Cretton, deixe a sensação de ficar rodando as ações do protagonista em volta de metáforas para seus respectivos amadurecimentos e dilemas pessoais – e olha que esse já é o nono filme solo do personagem desde a retomada, em 2002, quando ainda era licenciado pela Sony, e são poucas as vezes que esses temas não se repetem.

É válido trazer à tona essas discussões? Sim, sempre é.

Mas também é notório que, além de apresentadas de maneira pedestre, suas possíveis cargas dramáticas, quase sempre um recomeço com toada adolescente sobre o peso da sua identidade e responsabilidades — vindo dos filmes anteriores —, são negligenciadas porque o objetivo nunca foi esse, e sim ocupar um espaço de maneira insípida dentro da tela entre as sequências de ação, com referências explícitas às HQs (o que não tem problema algum; isso demonstra respeito à história do personagem, mas, a partir do momento em que isso se torna não natural dentro da narrativa — somente para dizer que estava lá —, acaba tornando-se algo não orgânico).

Assim sendo, se os próprios realizadores ignoram isso, por que hei de me importar? Para ter uma ideia, assim que começa esse Um Novo Dia, Peter Parker/Homem-Aranha, a primeira coisa que faz é se apresentar (“Meu nome é Peter Parker“) e, depois disso, são planos atrás de planos remetendo a imagens icônicas do personagem, para depois enfrentar um vilão aleatório (aqui interpretado por Michael Mando como Escorpião). E vai assim durante um bom tempo.

O roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers procura trabalhar o isolamento de Peter e, por seus principais amigos não lembrarem mais dele (devido aos acontecimentos do filme anterior, dos quais eu já não tinha a menor lembrança) e à perda da Tia May (Tomei), acaba tendo na detetive Jean DeWolff (Liza Colón) um pouco de alento quase familiar. Mas um novo personagem com poder de controle mental coloca em risco Mary Jane (Zendaya), fazendo Peter procurar ajuda em Frank/Justiceiro (Bernthal mais caricato do que nunca, rosnando a cada frase). Ao mesmo tempo em que precisa lidar com mudanças que alteram seu comportamento e poderes por meio de um inibidor genético, para isso pede conselhos a Bruce Banner (cumprindo a cota de Os Vingadores do filme, porque a Viúva Negra de Florence Pugh é subaproveitada), que usa um aparelho que o impede de se transformar em Hulk; nesse ponto, Um Novo Dia até procura usar esse momento como uma das ditas analogias para o amadurecimento, mas o fato de as teias do aracnídeo terem um novo mecanismo soa mais como puberdade do que qualquer outra coisa. Mas, ainda assim, não deixa de ser curioso como o diretor usou esse elemento.

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Aliás, aqui, o fato de o roteiro incluir um inibidor genético — e, claro, a presença da personagem controladora de mentes — não torna difícil fazer a ligação com um famoso grupo de super-heróis que não estava sob a tutela da Marvel no início dos anos 2000, comprovando que a estrutura do filme serve mais como ponto de partida para filmes futuros com esse tal grupo do que propriamente para desenvolver a si mesmo.

Entretanto, vale ressaltar que, depois desse tempo todo em que assumiu o colante do herói, Tom Holland demonstra sensibilidade e entrega em seu Peter Parker, mesmo que o roteiro obrigue o personagem a se entregar à imaturidade que já devia ter abandonado há bom tempo. Todavia, a direção acerta ao trazer o Homem-Aranha em um momento mais pé no chão, literalmente, ao criar situações em que o personagem transita por locais naturalmente, e não somente subindo pelas paredes (e, se as piadinhas fora de hora não ajudam, sua dinâmica com Zendaya se mantém intacta. Até porque a atriz — e esposa do ator — tem brechas para desenvolver mais sua personagem e por Mary Jane não reconhecer seu antigo amor, acaba criando um conflito mais sólido para a trama).

Além do mais, salta aos olhos a tecnologia fazendo o herói balançar pelos prédios numa fluidez cada vez mais real – e natural. As coreografias das sequências de ação evitam uma confusão espacial, e conseguimos acompanhar com interesse a mise-en-scène sem dificuldade, como na sequência em que o herói enfrenta uma equipe de ninjas. Assim, como vale reparar nos detalhes do vento mexendo no uniforme (sem os exageros tecnológicos dos anteriores, conferindo mais humanidade ao herói), também no fato de somente ouvirmos o som das teias sendo lançadas uma atrás da outra, como na cena em que ele atravessa a cidade com Mary Jane — numa das raras boas decisões sonoras, ao não atrapalhar a cena com uma trilha expositiva dizendo o que o público deve sentir. Ou da câmera sendo jogada junto ao personagem no topo de um prédio, invertendo o eixo e usando câmera subjetiva (o que pode soar mais como um capricho exibicionista do diretor, mas funciona).

Ademais, a fotografia do diretor Brett Pawlak acerta ao usar uma paleta de cores escurecidas, ressaltando o tom mais sombrio e refletindo o estado da narrativa, cujas cores ainda são quentes, mas pelas sombras, tendem refletir a ambiguidade e dúvida internas do personagem. Vale ressaltar também a cidade de Nova Iorque como um elemento à parte e seus tons como, por exemplo, na luz de um letreiro refletindo no rosto de Mary Jane indicando um perigo ou quando o herói balança ao pôr do sol.

Homem-Aranha: Um Novo Dia é um peixe pequeno dentro de um aquário maior. Tem sua mensagem particular sobre o amadurecimento e as dúvidas sobre o isolamento diante da responsabilidade que traz. Parte do público pode querer captar isso ou não. Mas não sei se vale a pena mencionar isso.

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Rodrigo Rodrigues

"Todo filme é político na medida em que política é toda forma de relação humana em que o poder está implicado" (Costa-Gavras)
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