Resenha: A Ilha Misteriosa (Júlio Verne)

JulioVerneIlhaMisteriosa-207x300 Resenha: A Ilha Misteriosa (Júlio Verne)Título: A Ilha Misteriosa (L’île Mystérieuse)

Autor: Jules Verne

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Editora: Principis

Ano: 1874 (no Brasil: 2021)

Páginas: 416

 

Livro que me introduziu ao gênio Júlio Verne, A Ilha Misteriosa é uma aventura quase perfeita, vivida por cinco amigos fugidos dos EUA durante a guerra civil, que acabam passando alguns anos sozinhos em uma ilha repleta de mistérios, na qual eles – liderados por um homem com grandes e amplos conhecimentos científicos – conseguem sobreviver e até colonizar a ilha, chegando ao ponto de ter maquinários e barcos, mesmo tendo lá chegado apenas com as roupas do corpo.

 

Edição 2021 da Editora Principis

Surpreendido por uma promoção com um box com 6 livros do escritor por um preço muito abaixo da média, fui um dos muitos que aproveitei e adquiri o pacote, já que meus exemplares pertenciam à coleção Viagens Extraordinárias da Editora Fase de 1982 e haviam sofrido um “acidente” que deixou as capas danificadas.

A comparação entre as duas coleções é descabida, já que a antiga era luxuosa e essa nova é obviamente econômica, porém não dá pra deixar de notar a ausência das ilustrações originais francesas, presentes na coleção de 1982 e em outras, mas ausente nessa.

 

O Box adquirido

O preço baixo era um indício de que não se poderia esperar desse pacote um nível à altura daquela coleção que eu já possuía, ou mesmo do patamar de outras obras de editoras maiores. E, de fato, a capa e o papel de baixa qualidade fazem jus ao preço cobrado.

Até aí, nenhum problema.

O problema, de fato, encontra-se no texto (por enquanto só li A Ilha Misteriosa), recheado de erros, sejam eles de tradução, sejam de revisão, e até ocorrência de frases cortadas foram detectadas.

A quantidade de erros encontradas nesse livro foi tão grande que em determinado momento comecei a anotar cada vez que me deparava com um caso. Como comecei a fazer isso apenas depois da página 100, outros passaram sem registro, mas ainda assim anotei 11 erros “graves” que não poderiam jamais passar por uma revisão cuidadosa.

Aliás, eu nunca tinha viso algo parecido em um livro, nem quando trabalhei em uma bilbioteca e tinha acesso a livros de editoras “de fundo de quintal”.

No fim desta resenha, listo os erros encontrados, informando a página na qual eles se encontram, considerando essa edição de Março de 2021.

A arte das capas, inclusive desse Ilha Misteriosa, também merece crítica pela baixa qualidade.

De positivo podemos citar que para o box em questão a Principis pelo menos escolheu acertadamente os 6 principais livros (ou os mais famosos) do escritor.

 

A história mais dissonante de Verne

Diferente da grandiosidade temática das suas outras principais obras, principalmente levando-se em conta que Verne “inventou” o foguete, o submarino e o helicóptero, por exemplo, neste A Ilha Misteriosa a trama é mais minimalista, ficando o cerne da atenção nas inventividades do líder dos colonos, e, claro, nos mistérios que acompanham a jornada deles ao longo de sua aventura naquele local desolado do Pacífico.

Ainda que as intervenções da “força misteriosa” a favor dos colonos soe como um deus ex machina, mesmo com a revelação do final (já que em alguns momentos a “providência” estava no local certo e na hora certa, de forma muito conveniente), a verdade é que as ocorrências foram colocadas ali pelo autor para provocar as intervenções, e não o contrário. Assim, aceitamos de bom grado tudo o que ocorre, sem que nada pareça forçado demais.

 

O brilhantismo de Cyrus Smith

Talvez para contrapor conceitualmente este A Ilha Misteriosa com seus outros livros mais inventivos (20.000 Léguas Submarinas, Robur – O Conquistador e Da Terra à Lua), Verne deixou de lado o personagem gênio construtor (os inventores do submarino, do “helicóptero” e do “foguete”) com recursos e materiais à disposição e mostrou que um humano, dotado apenas de conhecimento científico, poderia transformar a natureza a partir do zero para iniciar uma civilização.

Claro que precisamos descontar o fato de que a ilha provém de quase tudo aos colonos, em termos minerais, vegetais e animais, porém sem o brilhantismo de Smith, nada disso seria aproveitado pelos personagens e o contraponto de Ayrton na ilha vizinha ilustra bem o que provavelmente ocorreria com outras pessoas que chegassem à Ilha Lincoln nas mesmas condições dos protagonistas.

 

Conclusão

A Ilha Misteriosa não é tão famoso como Viagem ao Centro da Terra, 20.000 Léguas Submarinas, Volta do Mundo em 80 Dias e Da Terra à Lua, e nem tão grandioso quanto aqueles, mas nele se ve também a genialidade de Verne, que consegue fazer um libelo à superação e ao desafio aos limites humanos em face das adversidades da vida fora da civilização, de um modo sublime, mesclando aventura, suspense e drama de uma forma como só ele era capaz. As mensagens abolicionistas e os conceitos que pregam ética, caráter, honestidade e, claro, as questões inerentes ao bem comum e as vantagens do trabalho em equipe, completam o pacote de forma coerente e orgânica.

E, por fim, a história diverte e entretem dentro do que se propoe, trazendo quase que um diário dos acontecimentos ocorridos na ilha, e fazendo o link no final com outros dois livros de Verne, anteriores a este.

 

 

Os erros da editora Principis

Abaixo listo os erros encontrados no texto do livro, registrados “apenas” a partir da página 100, de modo que outros ficaram sem registro:

– Na página 119, vemos dois erros. No primeiro, uma fala de Cyrus Smith, em resposta ao repórter Spillet, é finalizada e o que deveria ser o próximo parágrafo vem na mesma linha, quando Harbert emenda uma pergunta sobre o que acabara de ouvir. Logo após sua fala, outra erro: o texto apresenta duas vezes seguidas “Perguntou Harbert”, quando informa o autor da pergunta a Cyrus.

– Na página 139 vemos a descrição de uma parte do Palácio de Granito contendo a palavra “nave”, sendo que o termo se refere a um espaço comum em igrejas e cujo significado, com essa grafia, escapa aos brasileiros. A frase ficou assim: “… uma grande claraboia que permitiria que a luz penetrasse naquela nave que serviria como sala de estar.” A adaptação com certeza podia ter encontrado um termo mais adequado para o recinto descrito.

– Na página 140 a palavra “railroads”, que seria ferrovia ao pé da letra, foi traduzida para… “caminhos de ferro”. Sim, a adaptação não usou o termo correto, “estrada de ferro”, mas sim optou pelo português de Portugal. Novamente a dúvida: por qual motivo?

– Na página 143, as chaminés construídas pelos colonos foram grafadas (duas vezes) com o ‘C’ maiúsculo, provavelmente porque a ferramenta de substituir todas as palavras dessa do texto foi usada com base nas Chaminés que serviram de moradia pros colonos no começo de sua estadia na ilha.

– Na página 150 temos uma questão interessante. O narrador explica ao leitor que o dia 30 de junho seria como o 31 de dezembro no hemisfério norte, para fins de clima e temperatura, porém isso confunde a tradutora, que ao se referir ao dia 1 de julho, deixa passar que “Mas o ano começou com um frio muito intenso”, quando na verdade deveria ser o mês. Vemos que nas edições em inglês, essa frase assim se encontra: “At any rate it commenced by very severe cold”, o que seria algo como “de qualquer forma, ele começou com um frio severo”, ou seja, não há menção a “ano” tendo início, e nem poderia, já que se tratava de 1 de julho.

– Na página 182, temos mais um erro na tradução e o texto que deveria ser “Em menos de quinze minutos, seremos forçados a parar, senhor Cyrus”, ficou “Em menos de quinze, seremos forçados a parar, senhor Cyrus”.

– Na página 243 outra opção incompreensível na adaptação. O que deveria ser “ou morrido de miséria” virou “ou morrido de pobreza”, sendo que o segundo termo se refere mais a bens materiais e dinheiro, o que nada se adequa ao cenário inferido. Aliás, já que se trata de uma adaptação, caberia até um “ou morrido de fome”, que ficaria mais adequado.

– Na página 303 o primeiro parágrafo ficou deveras confuso, com o “ele tinha içado âncora” não encontrando concordância com “os piratas”. Ademais, a adaptação limou do parágrafo uma citação direta a Ayrton e os tiros desferidos contra ele. Lamentável e inquietante (quantos outros casos como esse a tradução terá nos brindado?).

– Na página 402, mais erros na tradução. A frase “O perigo está aí, e um perigo terrível” saiu impressa como “Aqui está o perigo e terrível”.

– Na página 415, a adaptação deixou um termo de difícil compreensão para os leitores do século XXI. Na frase “os colonos se descobriram e murmuraram o nome do capitão”, o “se descobriram” é um termo fora de uso para tirar os chapéus, algo que quase ninguém nos dias atuais consegue entender. Seria uma boa hora da “adaptação” trabalhar a favor da edição, uma pena que não ocorreu. No mais, pelo menos se pode dizer que erro, de fato, aqui não ocorreu.

– Por fim, o último caso também não é um erro ao pé da letra, mas não há resposta para a escolha editorial de ter traduzido todos os nomes de localidades da ilha, e deixar o principal, o Palácio de Granito, com o nome em inglês. Um mistério maior do que o do plot twist do livro.

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Ralph Luiz Solera

Escritor e quadrinhista, pai de uma linda padawan, aprecia tanto Marvel quanto DC, tanto Star Wars quanto Star Trek, tanto o Coyote quanto o Papaléguas. Tem fé na escrita, pois a considera a maior invenção do Homem... depois do hot roll e do Van Halen, claro.

1 thought on “Resenha: A Ilha Misteriosa (Júlio Verne)

  1. caramba, ia comprar esse box, nem vou mais… se em 1 livro tem tudo isso de erro, imagina nos demais

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