Análise: a obra máxima do terror é The Thing?

Análise do filme de 1982 que foi um fracasso monumental nos cinemas (de público e crítica), e praticamente sepultou a carreira mainstream de alto nível de John Carpenter – ainda em seu início – mas depois do lançamento em home vídeo, foi redescoberto e passou a ser admirado por fãs e críticos e obteve status de cult e, quem diria, obra-prima do terror (para alguns, do cinema em geral).

Com a costumeira mudança de títulos na tradução do inglês para o português, dessa vez nem dá pra criticar o resultado, já que o “sem sal” The Thing (A Coisa) virou o bacanudo Enigma de Outro Mundo aqui no Brasil (e isso faz algumas pessoas confundirem-no com o trash chamado The Stuff (1985), que saiu no Brasil com o nome A Coisa, e passava frequentemente no SBT…).

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A Coisa

TheThingFilme7Cartaz-201x300 Análise: a obra máxima do terror é The Thing?O filme de 1982 (veja o trailer aqui) mostra uma base americana de pesquisas na Antarctica que vê um helicóptero norueguês perseguindo e atirando em um cachorro que se refugia dentro do Posto Avançado nº 31.

Depois de terem trocado tiros com os noruegueses, alguns dos americanos vão até a base deles para tentar descobrir o motivo daquela perseguição, e voltam com impressões terríveis do local (destruído e com cadáveres) e com os restos queimados de uma criatura difícil de se identificar.

Entre o interesse científico inicial e a constatação de que a criatura era de origem extraterrena, ainda estava viva e era hostil, os pesquisadores se vêem às voltas com uma situação de terror absoluto quando percebem que pelo menos um deles poderia estar infectado pelo alienígena e não ser mais quem aparentava.

Depois disso, todos passam a lutar pela vida em um clima de claustrofobia e paranoia como nunca antes visto no cinema, conduzido de forma magistral por Carpenter e embalado pela trilha sonora fantástica dele e do mestre Ennio Morricone.

 

Origens

TheThingFilme2WhoGoesThere Análise: a obra máxima do terror é The Thing?O clássico de terror sci-fi de 82 era, na visão de Carpenter, uma refilmagem de O Monstro do Ártico (The Thing from Another World – 1951), que pode ser encontrado facilmente na Internet atualmente.

O filme de 51 por sí também não foi material original, mas uma adaptação da novela Who Goes There? (1938) de John W. Campbell Jr. (leia aqui em inglês), cujo título em português seria algo como “Quem vai lá?”.

Como curiosidade, vale citar que em 2018 foi encontrado um manuscrito extenso de Campbell, que é uma versão “completa” do conto, na qual a história dos personagens e a ambientação na base são expandidas. É como se Campbell tivesse enxugado seu livro e o publicado na forma de um conto comprido nas revistas literárias da época.

O livro completo foi publicado com o nome original criado por seu autor: Frozen Hell (“Inferno Gelado”, em tradução livre). A descoberta do livro completo inclusive resultou em um anúncio da Universal sobre um remake, dessa vez baseado no texto maior.

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filme original de 1951

Quanto ao filme de 51, é importante frisar que ele dispensou todo o suspense e as questões psicológicas encontrados no conto, adaptando todo o clima da trama para questões políticas inerentes à Guerra Fria, até por exigência de um de seus acionistas majoritários (que infligiu uma verdadeira política anticomunista às obras da produtora RKO na época) sendo portanto um perfeito exemplar da Era McCarthy estadunidense, com sua caça às bruxas relacionada ao comunismo.

O filme, apenas mediano (bastante por conta do orçamento apertado), não conseguiu muito sucesso no lançamento, até porque deu azar de concorrer, no mesmo ano, com um clássico sci-fi, o memorável O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still) que apesar de conter as mesmas analogias geopolíticas, teve uma produção infinitamente mais robusta e de excelência técnica, uma trilha sonora espetacular do genial Bernard Herrmann, e cujos resultados em bilheteria ajudaram o gênero a conseguir produções cada vez melhores, até que a obra-prima Planeta Proibido (Forbidden Planet – 1956) foi lançada e tirou a ficção científica do segundo escalão do cinema, alçando o gênero à primeira prateleira de Hollywood.

 

Produção

Com a ficção científica cada vez mais em alta desde o lançamento de Planeta Proibido, os orçamentos cada vez mais polpudos no gênero foram atraindo produtores, diretores e atores de primeira linha até que Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança revolucionou o cinema (e o mundo) em 1977.

Paralelo a isso, o terror também vinha galgando status em Hollywood nos últimos anos, com algumas produções chegando ao grande circuito… até que Alien – O Oitavo Passageiro (Alien – 1979) de Ridley Scott, unindo os dois gêneros, conseguiu ser o primeiro filme de ficção científica e terror “para maiores” a abocanhar Oscars e ter um lucro de quase 10 vezes o custo de sua produção, algo raro até então para os gêneros (o caso de Star Wars era uma exceção absoluta no sci-fi e no terror isso nunca tinha acontecido).

Star Wars já tinha colocado o sci-fi no centro das mesas das produtoras e agora o sucesso de Alien, da Fox, abriu os olhos dos outros estúdios também para o terror mainstream.

A Universal não perdeu tempo e no ano seguinte já engatilhava duas obras grandes, para abarcar todos os públicos possíveis, direcionando uma produção para o sci-fi “família” do jovem talentoso Steven Spielberg, no projeto que culminaria em E. T. – O Extraterrestre, um dos maiores filmes já feitos e, para a sua superprodução de terror, contratou o promissor John Carpenter, que vinha de bons sucessos B com Halloween (1978) e Fuga de Nova Iorque (Escape from New York – 1981).

Para seu terror, a Universal municiou Carpenter com uma bela equipe técnica, composto de pessoas que já eram bem conceituadas na época, mas que com o passar dos anos tiveram sua competência totalmente comprovada em outras obras, posteriores.

Os destaques ficaram por conta de Dean Cundey e sua fotografia claustrofóbica e de atmosfera lúgubre; Rob Bottin e seus efeitos especiais que na época foram considerados inacreditáveis e até hoje, décadas depois, ainda são perfeitos; e, claro, o mestre Ennio Morricone, que compôs uma trilha sonora fantástica ao lado de Carpenter, na maior prova de que “menos é mais”, entregando uma trilha minimalista ao extremo, e riquíssima em significado e ambientação. Uma trilha, como dizem, “de gelar a alma”.

Já Carpenter, que chegou embalado por dois sucessos comerciais, mostrou em Enigma de Outro Mundo que era um diretor muito competente quando tinha material técnico e humano de qualidade.

Com um roteiro e uma produção dignos, tirou o máximo do roteiro, entregando um filme tecnicamente perfeito, a despeito de preferência pessoal ou gênero, o que sempre invoca o gosto amargo do fracasso da época do lançamento, e de como isso mudou sua carreira, já que ele perdeu contratos e produções acertadas para os anos seguintes, e alguém que poderia ter recebido blockbusters para dirigir nos anos (décadas?) vindouros acabou tendo que recomeçar quase do zero, tendo ficado relegado aos filmes B pelo resto da vida.

Em entrevistas, o próprio Carpenter mostra amargura quando fala disso, sempre lembrando que se o reconhecimento de fãs e críticos de hoje tivesse ocorrido em 1982, ele obviamente teria tido uma carreira – e uma vida – diferentes.

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The Thing from Another World na TV em Halloween

Uma curiosidade sobre a ligação de Carpenter com o projeto é que em seu primeiro filme de sucesso, Halloween, podemos ver alguns frames do Monstro do Ártico, quando os personagens da casa aterrorizada pelo serial killer são mostrados em uma sala com uma televisão ligada.

Carpenter era fã do livro e do filme antigo, e sempre teve intenção de fazer um remake do longa de 1951!

 

Filmagens

Com base em storyboards muito bem detalhados, as filmagens começaram em Agosto de 1981 no Alasca, e depois migraram para estúdios, onde o frio precisou ser reproduzido por meio de refrigeração. Posteriormente, algumas refilmagens forçaram o retorno a locações externas.

As filmagens no Alasca tiveram problemas com frio extremo (que trincava as lentes das câmeras), e terminaram com nevascas intensas e se fortalecendo ainda mais na época, o que não permitiu muitas refilmagens nem estouro de agenda.

Detalhe para as cenas do acampamento norueguês, que estão no início do filme, mas que foram na verdade filmadas no fim da produção, quando explodiram os cenários reais do acampamento americano, cujos destroços fumegantes foram depois usados para representar a base europeia.

Interessante que bastante material filmado foi depois descartado na pós-produção, para acelerar o ritmo do filme na edição do corte final. Esse material era composto, na maioria, de personagens conversando ou de jumpscares que constavam no roteiro, mas que Carpenter depois desistiu de usar para evitar que o filme se mostrasse com clichês de terror comuns. Ainda teve cenas previstas no roteiro cortadas sem sequer serem filmadas, por falta de verba.

O famoso final teve várias versões diferentes filmadas, para que a decisão de qual seria o escolhido pudesse ser feita mais tarde (com o aval do estúdio, claro).

Na versão mais pedida pela Universal, MacReady seria resgatado e um exame de sangue posterior provaria que ele era humano, e testes de audiência mostraram que era mais aceito do que o final original pensado por Carpenter, mas em cima da hora o diretor convenceu a Universal (bastante a contragosto) a manter seu encerramento dúbio e em aberto, e em contrapartida incluiu um urro no momento da explosão do último alien, a pedido dos produtores, para que pelo menos o público tivesse certeza de que aquela criatura teria sido morta.

 

Suspense Hitchcockiano

O mestre do suspense já havia ensinado: susto e surpresa são diferentes de suspense. Inclusive é famosa sua explanação sobre a bomba embaixo da mesa, quando ele diz que se o filme mostra que tem uma bomba embaixo de uma mesa, e onde estão os personagens, você sente o suspense relativo à possível detonação do explosivo, mas se o filme não mostra a bomba, e ocorre a explosão, o que o filme entregou foi uma surpresa e não suspense.

Carpenter aprendeu a lição com maestria, e em Enigma de Outro Mundo ele nos entrega um suspense angustiante, digno de Alfred Hitchcock – sem exagero – criando um clima crescente de tensão, que é amplificado nas poucas aparições (revelações) do alien, onde o horror e o gore só apimentam ainda mais a continuidade da história, nos deixando ainda mais tensos e angustiados com o passar do tempo.

Somos apresentados ao problema com que os personagens lidam, e é criada a aura de medo a respeito de “onde a criatura vai aparecer” ou “quem ela vai atacar” e, claro “quem já foi assimilado”, de modo que a todo instante algo de ruim pode ocorrer, o que deixa a plateia sempre apreensiva e não há absolutamente nenhum momento de alívio, nenhuma gag ou cena mais leve para os espectadores darem uma respirada.

A aparência indefinida da criatura ajuda muito, assim como o conceito de que cada parte é “um pedaço do todo”, semi-independente e semi-autônomo, de modo que cada assimilado age “por conta própria”, inclusive evitando mostrar sua verdadeira natureza mesmo nos momentos em que enfrentam o monstro, quando um assimilado está vendo, na verdade, os humanos combatendo seus pares.

Assim, o clima na equipe desde a revelação da face usurpadora do alien é de total desconfiança e paranoia, onde ninguém confia em ninguém e todos evitam ficar a sós com outro membro da equipe. E os espectadores, que também não sabem quem ali é humano ou réplica, estão sempre no limite da tensão.

Hoje em dia você já viu isso em centenas de outros filmes? Sim. Na época isso já tinha sido feito? Não dessa maneira.

O filme, inclusive, ignora o contexto geopolítico do longa de 1951 e emula o clima psicologicamente denso e sufocante do livro, retratando questões de perda de individualidade, isolamento social e perda de humanidade que eram comuns nas expressões artísticas dos anos 80, pelo contexto social vivido pelos EUA na ocasião.

Apesar de muitos analisarem as analogias pelo viés da AIDS, Carpenter já declarou que não tinha essa intenção quando refinou o roteiro de Bill Lancaster e acertou os detalhes do enredo.

E para alguns que dizem que “o filme esconde o alien até o final”, obviamente tal afirmação não procede, já que – ao contrário – Carpenter opta por mostrar várias passagens de embate com a criatura, amparado pelo espetacular trabalho de Bottin, dando inclusive closes e entregando takes longos das transmutações das massas de carne e membros ensanguentados e grotescos.

O que vemos no final não é “o alien”, portanto, mas sim uma forma corporal concebida naquele momento, devido à aglutinação das massas de Blair-Coisa, Garry-Coisa e Nauls-Coisa, com formatos díspares que demonstram a “memória” celular da criatura, também de outros organismos assimilados anteriormente.

 

H. P. Lovecraft

O terror visceral e monstruoso que vemos em Enigma de Outro Mundo – e na cultura pop em geral – deriva da mente incrível de Howard Phillips Lovecraft, o inventor do gênero horror cósmico, da qual tudo o que vem depois nesse sentido deriva.

E da qual o filme de Carpenter é mais um a beber na fonte com toda a sede do mundo.

Inclusive porque a segunda obra mais famosa de Lovecraft (depois do Chamado de CthulhuThe Call of Cthulhu, de 1928) é Nas Montanhas da Loucura (In The Mountain of Madness – 1936), na qual um grupo de exploradores acha, na Antarctica, resquícios de uma civilização antiga e… extraterrestre.

O conto semeou a “Teoria do Astronauta Antigo” que propiciou fama e fortuna a escritores picaretas e produtores de mockumentaries (pseudo-documentários embasados em pseudo-ciência).

Na prequência de 2011, no final do filme, aliás, temos um alien aparecendo em um formato lovecraftiano clássico, em uma clara homenagem aos conceitos criados pelo escritor e replicados em praticamente um século desde então.

 

Trama

Para quem não conhece, o filme mostra o desenrolar dos acontecimentos em uma base de pesquisa americana na Antarctica, que precisa lidar com um organismo extraterrestre que “assimila” outros organismos, para depois replicá-los em formato, tamanho e essência (inclusive com memórias), com o objetivo de se reproduzir.

Os membros da estação passam a tentar de algum modo combater o alienígena, tento que lidar ao mesmo tempo com a desconfiança completa contra todos seus companheiros, já que ninguém mais tem certeza quem é humano e quem não é.

Para saber mais detalhes da história, leia aqui nossa crítica de Enigma de Outro Mundo.

 

Recepção

Como já dito antes, Enigma de Outro Mundo foi produzido pela Universal ao mesmo tempo que nada mais nada menos que E. T. – O Extraterrestre, um dos maiores filmes da História (inclusive em bilheteria), o que foi uma concorrência muito injusta com o longa de Carpenter.

De um lado, uma das criaturas fictícias mais fofinhas e carismáticas já inventadas pela humanidade, e do outro, o grotesco alien assassino visceral e sanguinolento do terror gore mainstream mais explícito já feito até então.

Em um dos filmes o público via ternura, amizade, superação, amor e emoção de derrubar lágrimas em uma época obscura e cínica, de Guerra Fria e pós-Vietnã, na qual obviamente os anseios do grande público eram por algo otimista e aventuresco.

No outro filme, via-se medo, depressão, paranoia, tensão e horror em doses cavalares, e estômagos embrulhados. Tudo o que as plateias alvo do longa (tratava-se de um filme para o grande público, como sempre frisamos) provavelmente queriam evitar.

Para “ajudar”, o final ambíguo e em aberto foi a pá de cal para os espectadores, ao não entregar o final feliz sempre tão esperado por todos.

Advinha o que aconteceu?

Enquanto E. T. quebrou recordes de bilheteria e se tornou o filme mais visto de todos os tempos na época, Enigma de Outro Mundo amargou um fracasso colossal e arrecadou míseros US$ 14 milhões. Menos de 5% do concorrente. E, considerando os custos diretos e indiretos de produção e marketing, o saldo foi um prejuízo de US$ 1 milhão, já que o orçamento final bateu nos US$ 15 milhões. Um fiasco completo.

Os críticos destruíram o filme de uma maneira tão sólida, que pouca gente além do fandom de sci-fi hardcore e do terror gore se aventurou em conferir o lançamento de Carpenter. Avaliações como “repulsivo”, “asqueroso”, “excessivamente violento”, “gratuitamente explícito”, “vagabundo” e “horrível” foram comuns.

As principais revistas e jornais classificaram o filme como um erro terrível da Universal, uma direção catastrófica de Carpenter e uma história anacrônica e pessimista além da conta.

Claro que os críticos almofadinhas do grande circuito do cinema não estavam preparados para um filme daqueles, que apesar de ter uma produção de primeira qualidade, trazia visual e grafismo de um típico filme B com o qual Carpenter estava habituado.

Nunca antes o grande circuito (tanto o cinema quanto os críticos e o público) tinha visto cenas como aquelas… não é de se espantar que todos ficaram horrorizados e rejeitaram plenamente o filme.

No Brasil, mesmo nos anos 90, era comum em cada reprise no Corujão da Globo, vermos a sinopse na programação semanal do Estadão ou da Folha informando que se tratava “[…] de uma refilmagem vagabundérrima do Monstro do Ártico […]” e que o mesmo “não valia a pena”.

Aliás, até hoje tenho curiosidade em saber o autor daquela sinopse que por anos me fazia rir de falta de noção do crítico, algo que lembra muito o saudoso José Haroldo Pereira que classificou na revista Manchete o filme O Império Contra-Ataca (1979) como sem pique para levar a saga Star Wars ao Século XXI” e personagens como Yoda, Han Solo e Luke Skywalker como “desinteressantes!

 

Redescoberta

Hoje em dia o filme possui uma legião de fãs, e críticos como Roberto Sadovski (Revista Set, UOL) consideram Enigma de Outro Mundo como “o melhor filme já feito”, para se ter ideia da mudança na análise que o tempo propiciou.

O filme, desde essa “redescoberta” propiciada pelas locadoras dos anos 90 e 2000, ganhou o status cult que hoje possui (e se reafirma ano após ano).

Nos anos 90, novas críticas e avaliações começaram a reclassificar o filme. Veículos grandes de mídia, incluindo Entertainment Weekly, Film.com, IGN, Esquire, Boston Globe, Rolling Stones Magazine, publicaram críticas classificando Enigma de Outro Mundo como um terror ou uma ficção científica de alta qualidade, alguns até classificando como um dos melhores dos dois gêneros (sci-fi e terror) em todos os tempos.

Os agregadores de críticas como Rotten Tomatoes e Metacritic foram registrando críticas positivas até os indicadores atuais, bastante altos, mesmo considerando as péssimas impressões iniciais.

Além do séquito de admiradores que só aumenta, é comum vermos profissionais artísticos em geral, mas principalmente do cinema, que se mostram também fãs do longa, de modo que o número de referências em outros filmes – e até homenagens explícitas – podem ser encontrados aos montes em séries, filmes, animes, quadrinhos, músicas, clipes, etc.

Um episódio inteiro (S01E08) de Arquivo X é basicamente retratado no posto americano na Antarctica.

Veja abaixo a cena do teste de sangue, emulada no filme Os 8 Odiados:

Essa influência foi expressada abertamente por diretores como J. J. Abrams, Eli Roth, Quentin Tarantino, Guillermo del Toro e Neill Blomkamp, dentre outros.

O filme foi lançado com um corte alternativo para a TV (com o qual Carpenter não concorda ou aprova) no fim dos anos 80. Já nos anos 90, foi lançado em DVD com bastante sucesso, de modo que uma nova edição em HD DVD saiu nos anos 2000, com vários extras.

Em 2016 o filme saiu em Blu-Ray, com comentários e documentário sobre a produção, além de entrevistas e featurettes. Em 2017 novo lançamento, dessa vez em 4K, com base nos negativos originais do filme, em uma produção que contou com a participação do próprio Carpenter. A trilha sonora teve lançamentos de sucesso em vinil, cassete, CD e EP.

Essa redescoberta propiciou ao filme algumas sequências e projetos de remakes e reboots, como podemos ver a seguir.

 

Sequências, remakes e reboots

TheThingFilme4Quadrinhos-196x300 Análise: a obra máxima do terror é The Thing?Depois que o filme foi redescoberto e virou cult, sua “nova” fama atraiu a atenção não só de fãs, mas de produtores de conteúdo de diversas mídias. Os quadrinhos foram os primeiros a se incluir no “Thingverse”, quando a Dark Horse Comics (famosa por publicar quadrinhos de franquias de cinema como Alien, Predador, etc.) publicou em 1991/1992 The Thing from Another World (minissérie em duas partes), que se passa no dia seguinte ao final do filme.

O sucesso da boa publicação gerou as continuações The Thing from Another World: Climate of Fear (1992 – quatro partes), o péssimo The Thing from Another World: Eternal Vows (1993 – quatro partes) e o razoável The Thing from Another World: Questionable Research (1993 – quatro partes).

A primeira dessas continuações em quadrinhos foi até apresentada à Universal como base para uma adaptação de roteiro para uma sequência do filme, porém o projeto nunca foi adiante.

Anos depois, Carpenter declarou em entrevista que considerava essa sequência “bastante digna” do filme, e que consideraria adaptá-la para um novo longa, o que permite concluir que ele concorda com os acontecimentos ali mostrados pertinentes à realidade de MacReady e Childs, após o final do seu filme.

ETheThingFilme5Game-300x201 Análise: a obra máxima do terror é The Thing?m 2002, com Carpenter participando da produção como consultor criativo, foi lançado pela Sony o game para PC, Playstation e X-Box, chamado The Thing, da Computer Artworks / Black Label Games, que também continua os eventos do filme de 1982.

No game, militares chegam ao que restou da base americana, recuperam o protótipo de nave de Blair-Coisa, as fitas cassete de MacReady (que entra nas fases finais do game) e o corpo de Childs e se vêem às voltas com uma parte do extraterrestre que sobreviveu.

Em 2005 foi iniciado um projeto de minissérie que continuaria o filme de 1982 e seria exibido no canal SyFy, porém o mesmo foi abortado e virou o projeto de um remake.

Em 2010, a Morgan Creek adquiriu os direitos para esse remake, porém em uma mostra rara de bom senso, os produtores se sensibilizaram com o status cult do filme (e apelos do fandom) e mudaram o projeto, fazendo então não uma refilmagem, mas sim uma prequência, que mostra os acontecimentos da base norueguesa que precedem o início do filme de Carpenter.

Lançado em 2011, A Coisa (The Thing) tem um elenco de prestígio, encabeçado por Mary Elizabeth Winstead, Joel Edgerton e Eric Christian Olsen, e um roteiro que respeita o clássico de 1982 e a ele faz reverências, porém o resultado foi bastante genérico e mediano, um filme de terror clichê sem suspense algum, que não obteve bons resultados e – desta vez de forma acertada – não foi bem considerado sob os aspectos técnicos, inclusive por conta de uma direção insossa de Matthijs van Heijningen Jr. e efeitos especiais ruins (ironia do destino: o modernoso CGI tomando uma surra dos efeitos práticos de 40 anos atrás).

TheThingFilme6JogoTabuleiro-300x200 Análise: a obra máxima do terror é The Thing?Em 2017 foram lançados os jogos de tabuleiro Who Goes There? (editora Certifiable Games) e The Thing: Infection at Outpost 31 (editora Project Raygun), e em 2022 foi lançado The Thing: The Boardgame (lançado no Brasil pela editora Conclave).

Os três jogos são bastante temáticos e fiéis na retratação do filme de 1982, mas sem dúvida o último é o mais aclamado, por conseguir reproduzir tematicamente os contágios e assimilações e permitir o clima de paranoia e tensão do filme, além de ter uma produção espetacular (caixa, tabuleiro, miniaturas, cartas…). Clique aqui para ver nossa análise do jogo.

Os três, no entanto, não continuam a história do filme, se limitando a reproduzí-lo para os jogadores atuarem como se estivessem na trama do longa.

Em 2020 foi anunciado que a Blumhouse Pictures estaria produzindo um reboot da história (inicialmente, mais uma vez, o projeto era de remake). Depois de nova chiadeira dos fãs, a produtora anunciou que na verdade se tratava da adaptação de Frozen Hell, o livro completo da qual o Who Goes There? havia sido extraído e publicado originalmente.

Desde 2021 não há mais notícias da produção, porém ainda naquele ano Carpenter disse em uma entrevista que estava “envolvido” na produção, e em 2022 ele ainda declarou que gostaria de filmar uma continuação de Enigma, o que já levou o fandom a questionar se uma coisa estaria ligada a outra… estaria a Blumhouse e Carpenter tentando alterar de novo o projeto, transformando-o numa sequência do clássico?

Aguardemos.

 

O Final em aberto e dúbio

Todo o material “novo”, o VHS e o DVD apresentaram Enigma de Outro Mundo a mais uma geração de espectadores, e com eles, muitas teorias sobre o final do filme passaram a ser debatidas pelo fandom. Isso porque, como se não bastasse o filme como um todo, o final é um dos mais incríveis já entregues por um filme, e até hoje suscita discussões.

Basicamente, os amantes do filme classificam as possibilidades do final em 3 possibilidades, sendo duas as mais críveis, a de que Childs estava infectado (teoria da respiração), a de que MacReady estava infectado (teoria da gasolina na garrafa), mas Carpenter sempre evitou responder diretamente essas questões, ainda que já tenha dito em entrevistas diversas que nunca vai contar se alguém estava infectado ou não.

Além disso, o game de consoles The Thing (2002) que é uma continuação do filme, teve a consultoria dele na produção, bem como a primeira HQ da Dark Horse já foi considerada por ele “uma sequência digna do filme, algo que ele filmaria”, e tanto esses quadrinhos quanto o game tem uma coisa em comum: MacReady e Childs são humanos. Logo, podemos pelo menos supor que ele pensou o final dessa maneira…

 

Fatos interessantes:

O primeiro diretor cotado para Enigma foi Tobe Hooper, que tinha seu nome atrelado ao sucesso underground O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre – 1974). Hooper queria fazer uma sequência do Monstro do Ártico, na qual um sobrevivente da estação partiria em caçada ao alien pelas geleiras antarcticas.

O roteiro apresentado era uma comédia de horror ao estilo do que A Volta dos Mortos-Vivos (The Return of the Living Dead – 1986) faria anos depois, mas a ideia foi rechaçada pela cúpula da produção e Carpenter foi chamado para substituir Hooper, que ironicamente acabou dirigindo Poltergeist – O Fenômeno (Poltergeist – 1982), que foi um tremendo sucesso no mesmo ano em que Enigma de Outro Mundo naufragou (lembrando que há dúvidas até hoje sobre quem dirigiu Poltergeist, com direito a investigação da Directors Guild of America para ver se não foi Spielberg o diretor de fato, impedido por contrato de dirigir o filme enquanto E. T. era lançado).

A trilha sonora, apesar de creditada ao mestre Ennio Morricone, tem quase tanta mão de Carpenter nela quanto dele. Só que o arranjo final saiu mais no estilo de Carpenter, de modo que muitos – e o próprio Morricone – consideram que o verdadeiro autor da trilha foi o diretor, até porque grande parte das músicas do mestre ficou de fora do corte final do filme, que agregou poucas variações de poucas das músicas compostas.

Anos depois, Morricone usou o material descartado por Carpenter na trilha do faroeste Os 8 Odiados (The Hateful Eight – 2015), de Quentin Tarantino, que – sendo Enigma de Outro Mundo um dos filmes prediletos dele – conta com uma sequência inteira que homenageia o terror de 1982.

Outro fato curioso sobre o assunto é que Morricone foi indicado ao Framboesa de Ouro por Enigma… e ao Oscar por 8 Odiados – pelo qual acabou finalmente recebendo uma estatueta dourada, fato nunca ocorrido antes, a despeito de sua carreira brilhante.

Por fim, nunca é demais lembrar que Enigma de Outro mundo foi incorporado à cultura da pesquisa científica na Antarctica. Virou tradição em algumas das estações de pesquisa localizadas no continente gelado (independente de seus países de origem) que uma sessão do filme seja uma espécie de “cerimônia” que inaugura o inverno antarctico, iniciado em 21 de Junho e com duração de 6 meses.

A tradição se iniciou nos anos 90 na estação americana Amundsen-Scott e não só persiste até hoje como cada vez abrange mais estações.

 

Conclusão:

Enigma do Outro Mundo é um filme fantástico, que extrapola o gênero e pode ser facilmente considerado um dos melhores longa-metragens já feitos na História do cinema. Sua influência na cultura pop transpassa as telas e justifica toda reverência a ele dedicada, seja pelos fãs, seja pelos cineastas e outros artistas que, continuamente, referenciam o filme ou demonstram em suas obras toda a influência que dele receberam.

 


Extra: dois bons artigos sobre Enigma de Outro Mundo para complementar a leitura:

https://destrutor.com.br/enigma-de-outro-mundo-a-coisa-que-e-o-melhor-filme-do-cinema/

http://blackzombie.blogspot.com/2006/05/operao-resgate-na-antrtida-ningum-vai.html

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Ralph Luiz Solera

Escritor e quadrinhista, pai de uma linda padawan, aprecia tanto Marvel quanto DC, tanto Star Wars quanto Star Trek, tanto o Coyote quanto o Papaléguas. Tem fé na escrita, pois a considera a maior invenção do Homem... depois do hot roll e do Van Halen, claro.

11 thoughts on “Análise: a obra máxima do terror é The Thing?

  1. isso que eu chamo de dissecar um filme cult e mostrar pros leitores tudo relativo a ele meus parabens, sensacional

  2. Grande Ralph, parabéns pelo lindo texto de Enigma do Outro Mundo, nada como um fã que conhece e ama o filme para escrever um artigo desta magnitude. Abraços.

  3. esse filme é uma obra prima mesmo parabens pela pesquisa e que bom ver gente que ama esse filme e se empenha em divulgar as qualidades dele

  4. Assisti depois de comprar o jogo de tabuleiro The Thing! Impressionante para sua época! Ainda prefiro Exorcista, mas esse já entrou no meu top3 de terror ao lado da Bruxa.

  5. Parabéns pela análise! Bastante completa e contextualizando para a época inclusive! Trabalho digno de grandes sites!

  6. Espetacular review desse filme pelo qual tenho tanto carinho! Amava assistir ele nas madrugadas da Globo kkkkkkkk

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