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Star Wars é ficção científica – Parte III – Desmistificando argumentos contrários

Considerando que este artigo foi publicado por conta da insistência de alguns leitores do Maxiverso que pediram uma posição a respeito do assunto, e que muitos deles – via Facebook – linkaram outros posts que tratam do tema, mas que chegam a uma conclusão contrária, então se fazem necessários alguns comentários sobre os argumentos que afirmam que Star Wars não é ficção científica, principalmente os que mais se popularizaram na Internet nos últimos anos. Importante, antes de seguir na leitura, ver a parte I e a parte II do artigo, que definem ficção científica e analisam a saga sob o prisma dessa definição.

Entretanto, é importante mencionar aqui, antes, que as citações não têm absolutamente o intento de menosprezar ninguém nem nenhum argumento ou raciocínio divulgado, nem tampouco criar algum tipo de polêmica, mas apenas e tão somente contra-argumentar sobre o que foi explanado e demonstrar de forma fundamentada que os motivos alegados para não classificar Star Wars como ficção científica são improcedentes. Ao invés desses contra-argumentos serem postados nas respectivas páginas na forma de ‘comentários’, eles foram reunidos aqui nesse capítulo, centralizando a análise de todos eles.

a) Dois pesos e duas medidas:

Por exemplo, podemos começar falando a respeito desses comentários sobre o tema, postados por uma blogueira bastante conhecida (e admirada pela equipe do Maxiverso), mas cuja opinião, desta vez, discordamos:

O que dizer de Star Wars, por exemplo? Aos meus olhos, é uma obra de fantasia passada no espaço, pois tem todo um enredo medieval com a princesa, o reino perdido, o filho sumido, o pai malévolo, a magia da Força […]”

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1: “Isso” é ficção científica…

Apesar de afirmar em outros pontos do artigo que “um gênero depende do outro em certo enredos” e que “ambos convivem lado a lado“, vemos como houve uma certa diferenciação de critérios na categorização de Avatar (Avatar – 2009) e de Star Wars.

Ela considerou Avatar uma “ficção científica, com toda a exploração espacial, a manipulação genética, mas também a fantasia do ambiente de Pandora com seus personagens surreais e todo um enredo que parece meio mágico“, e afirmou que o filme foi “classificado como ficção científica, pois se passa em uma exolua, é preciso viajar anos em crio-sono para se chegar lá, onde acontecem operações de mineração e engenharia genética“.

Sobre Star Wars e sua ambientação cósmica, as viagens interestelares em naves espaciais e todos os outros elementos sci-fi citados no Capítulo 2 desse artigo, nada disso foi o suficiente para garantir o acesso ao gênero ficção científica.

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2: “Isso” não é ficção científica?

Ora se Avatar é uma ficção ‘apesar’ da fantasia do ambiente de Pandora, dos personagens surreais e do enredo mágico, por que Star Wars também não recebe essa benesse? Se os fatores tecnológicos de Avatar (como a ambientação em uma lua distante, a necessidade da viagem longa e dos preceitos de engenharia genética) são preponderantes para caracterizá-lo como um sci-fi, por que o mesmo não ocorre com Star Wars (cuja ambientação no espaço, a existência de robôs avançados, o uso constante de naves e equipamentos futuristas e a onipresença de tecnologia mais avançada são parte preponderante da obra)?

Também cabe o questionamento de por que os elementos fantasiosos de Avatar são relegados na hora de classificar o filme como ficção científica (mesmo ele se passando quase todo em uma tribo localizada no meio de uma floresta, que interage ‘magicamente’ com a natureza local) enquanto que os elementos fantasiosos de Star Wars (muito menos numerosos e tendo apenas a Força para se salientar) sobrepujaram todo o fator tecnológico da saga dos Jedi, muito mais presente que em Avatar?

Além disso ela incorreu no erro de confundir gênero com enredo, quando falou “tem todo um enredo medieval com a princesa, o reino perdido, o filho sumido, o pai malévolo, a magia da Força”. Trata-se de um erro comum, conforme explicado no final do capítulo anterior (e duplicado no final desta página, para quem ainda não leu)².

b) Premissas ambíguas ou incorretas:

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Explicando a engenharia de uma nave

Outro artigo interessanteque nos foi indicado é o escrito por outro renomado blogueiro, que postou um texto de mais de mil palavras sobre o tema, com um postulado muito bem fundamentado afirmando que Star Wars não é ficção científica.

Em que pese a reputação do blogueiro em questão, tivemos a ousadia de discordar de seus argumentos… e respondê-los.

Ele começa conceituando o sci-fi e já de cara invocando a comparação clássica com Star Trek:

Ficção científica, em seu âmago, é baseada em plausibilidade. E pra estabelecer essa plausibilidade, são oferecidos argumentos (pseudo)científicos pra explicar como os personagens ou o maquinário na história está fazendo o que faz. Star Trek é um excelente exemplo disso. Quem assistia as séries e/ou qualquer um dos filmes deve lembrar que uma boa parte da trama se dava a explicar como exatamente os cristais de dilítio ou o alumínio transparente ou amortecedores de inércia afetavam o decorrer da história. Eles eram explicações necessárias pra justificar as peripécias da USS Enterprise.

Em primeiro lugar, já vimos no Capítulo 1 como essa definição conceitual de ficção científica está incorreta, ou incompleta. Existem diversos subgêneros de sci-fi e nem todos primam pela plausibilidade ou pelas explicações dadas ao funcionamento da tecnologia. O blogueiro pode dizer que ele gosta e prefere a ficção hard, que atende esses preceitos, mas não que a ficção científica como gênero só aceita obras com essas características.

Sobre Star Trek, no final deste capítulo temos um subtópico específico para falar dela e sua suposta fidelidade-modelo à física e às ciências de um modo geral.

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Rascunho da Estrela da Morte

Quanto à Star Wars alegadamente não explicar cientificamente sua tecnologia, trata-se de uma meia verdade. A maioria das tecnologias mostradas têm explicações para seu funcionamento, ainda que muitos não saibam, ou – apenas assistindo os filmes – não conseguiram entender… mas isso ocorre com basicamente qualquer obra cinematográfica do gênero, incluindo Star Trek, onde só após uma pesquisa pela Internet alguém que não é fã consegue descobrir como é que as naves da Federação passam por cima das leis da inércia e não deixam suas tripulações virarem mingau.

À seguir, ele afirma:

“[…] você poderia substituir a Millenium Falcon por um navio, e os Star Destroyers por navios maiores, com a história inteira se passando durante o período colonial, e a trama permaneceria praticamente a mesma […] todos os elementos de Star Wars podem ser submetidos à mesma metodologia. Obi Wan Kenobi é senão um mago espacial. A Força, uma religião/magia sem qualquer fundamento científico. Luke Skywalker, o herói profético. Darth Vader é o arquétipo do Cavaleiro Negro. Leia, a princesa indefesa. A Estrela da Morte é o castelo sombrio do vilão. O sabre de luz é […] uma espada.”

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Coruscant: cenário altamente sci-fi

Sobre o afirmado, de fato, até podemos realmente substituir alguns elementos de Star Wars por outros de gêneros diferentes, e ainda assim manter as características da trama. Mas isso, além de não ser nenhum demérito, ainda por cima ocorre com basicamente a maioria das obras de ficção científica passadas no espaço, já que a ambientação desse gênero é, evidentemente, impossível de se realizar com nosso nível tecnológico real, o que significam que são transposições de situações e ambientações terráqueas.

Por exemplo, podemos substituir a Enterprise de Star Trek por uma caravana, seus tripulantes por soldados americanos e a história se passaria no Velho Oeste (já falamos sobre essa metáfora na série de Gene Roddenberry). Capitão Kirk é o líder inspirador, o herói cool, o capitão. Spock é o britânico formal que se torna seu homem de confiança, seu tenente. McCoy é o médico do destacamento e faz a mediação da relação entre o capitão e o tenente. Scott é o hábil cabo que é ferreiro e faz a manutenção das carroças e armas. Uhura é a mestiça que se juntou ao exército e serve de tradutora entre os brancos e os ‘pele-vermelhas’, que são os klingons, com os quais se vive uma relação de paz e conflito, mas cuja paz duradoura é o desejo dos americanos. Os planetas visitados e suas civilizações são vilas, tribos ou fortes encontrados pelo caminho, onde a caravana vive incontáveis problemas em sua missão.

Outro exemplo dessa premissa é ambientar Alien e toda sua tripulação em um navio cargueiro. Faça o teste e confira: a trama se mantém inalterada. Mas nem por isso o filme de Scott deixa de ser um dos mais aclamados filmes sci-fi já feitos.

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Jornada do Herói

E qual o problema com os arquétipos? Eles são usados por autores de basicamente todas as obras literárias ou cinematográficas para a definição de seus personagens. Em Hollywood existem consultores pagos para adequar roteiros à Jornada do Herói (Monomito ou Mito Único) e melhorar os personagens dos filmes conforme os arquétipos definidos por Joseph Campbell em seu livro O Herói de Mil Faces (The Hero with a Thousand Faces – 1949).

Aqui, vamos usar Alien novamente na comparação: a protagonista Ellen Ripley, por exemplo, é o arquétipo da heroína Guerreira, conforme podemos ver nesse artigo de Valéria Olivetti. Novamente questiono: Alien deixa de ser sci-fi por conta disso?

Mas continuemos com o artigo citado, onde, no mesmo tópico, o blogueiro completa sua análise de Star Wars:

Todos esses elementos parecem vir de outro gênero (fantasia/conto de fadas), e isso não é coincidência. Isso acontece porque Star War é fantasia. As pitadinhas de ficção científica — naves espaciais, robôs — são apenas pano de fundo, completamente marginais ao âmago da história: um garoto, aliado a um grupo de subversivos, derrotando um império maligno que tem em seu centro um feiticeiro comandando um cavaleiro negro.

Impossível não discordar do termo “pitadinhas de ficção científica” usado por ele.

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batalhas espaciais constantes

Como vimos no Capítulo 2, existe uma quantidade enorme de preceitos sci-fi em Star Wars, e além disso, a saga é ambientada no espaço, está repleta de alienígenas, e toda tecnologia apresentada interage com a história de forma predominante, ainda que não seja a protagonista (como ocorre nas ficções hard), bastando lembrar que o cerne do Episódio IV é a corrida para a destruição da Estrela da Morte antes que ela acabe com o planeta onde fica a base da Aliança Rebelde. E o que é a Estrela da Morte? Um “terror tecnológico” capaz de destruir um planeta inteiro.

E como já vimos exaustivamente, estes são elementos clássicos de ficção científica. Não se tratam de “pitadinhas”.

Quanto a ser fantasia por conta de “um garoto, aliado a um grupo de subversivos, derrotando um império maligno com um feiticeiro e um cavaleiro negro”, vemos aqui mais uma vez o equívoco na confusão entre gênero e enredo, já esclarecida no Capítulo 2 e cuja explicação foi reproduzido no final desta página, além de também já termos visto que a existência de arquétipos de personalidade não tem absolutamente nenhuma implicação em definição de gênero cinematográfico ou literário.

Depois, em seu post, ele afirma não haver uma lição de moral em Star Wars, e que isso seria um fator imprescindível para categorizar o filme como ficção científica:

“[…] ficção científica, em sua origem, era quase sempre um cautionary tale, ou trazia algum tipo de lição de moral. [..] Qual a lição de moral ou alerta de Star Wars, por outro lado? Não tem. É uma historinha de fantasia que, por total acaso, se passa no espaço, com robôs e armas laser […]”

Novamente aqui a ficção científica foi conceituada de forma restrita e reduzida, o que causaria a exclusão de Star Wars do gênero. Mas como já vimos no Capítulo 1, nem todos os subgêneros sci-fi precisam obrigatoriamente incorporar todos os elementos inerentes ao gênero ‘mãe’.

Muito pelo contrário: são as ausências de alguns e o acréscimo de outros elementos que diferenciam os subgêneros. Assim, se supostamente não há lição de moral em Star Wars, isso não seria motivo para barrar sua carteirinha no clube da ficção científica.

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a redenção de Anakin

O problema é que essa afirmação não é verdadeira: há muita mensagem de moral em Star Wars, e a principal pode ser a inerente à Jornada do Herói, que trata da redenção do protagonista. Além disso temos a mensagem de que o poder corrompe se usado de forma indevida, ou seja, a Força pode ser usada para o bem ou para o mal, dependendo de seus ideais. E a saga trata de vários outros dilemas morais…

Por fim vemos os exemplos do blogueiro quando cita a categorização equivocada de uma obra por conta de um elemento específico:

Star Wars não é ficção científica só porque tem nave e lasers no background, da mesma forma que Forrest Gump não é um filme sobre ping pong só porque ele aparece jogando na China. Ou ainda: Star Wars é ficção científica porque tem nave espacial da mesma forma que True Lies é um filme sobre biologia equestre porque tem uma cena com um cavalo.

A estrutura do argumento é verdadeira, mas as premissas utilizadas não. Assim, as afirmações, descontextualizadas, ficaram ambíguas e podem ser usadas no contraditório, pois os elementos citados são meramente circunstanciais para definição de gênero.

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a futurística Cidade das Nuvens

Por exemplo, vejamos como fica o contraditório: “Star Wars não é fantasia apenas porque tem a Força (e suas interações)”. O mesmo vale para outros filmes: “Alien não é terror apenas porque tem uma criatura que mata todos os tripulantes” e “Blade Runner não é um filme policial apenas porque Deckard está caçando alguns ‘criminosos’ importantes”. Nesses três casos, os elementos evocados também são circunstanciais, em se tratando de gênero.

Agora, usamos a ambiguidade de modo inverso: “Forrest Gump não é uma comédia, apesar de várias sequências engraçadas”, do mesmo modo como “True Lies não é um filme de espionagem mesmo com o protagonista sendo um espião”.

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“não é só pelos 20 centavos”… não é só um pano de fundo…

No caso, Star Wars é ficção científica por uma série de fatores (Conclusão), e não “só porque tem nave e lasers“, se bem que pelo que vimos de definições do gênero e seus subgêneros, e esclarecendo a diferença entre gênero e enredo, podemos dizer que mesmo se fosse apenas pelas naves e pelos lasers, já daria para enquadrar a saga dessa maneira.

As cenas do tênis de mesa e do cavalo evocadas por ele são circunstanciais nos respectivos filmes. Elas fazem parte da narrativa, mas não são importantes a ponto de definirem os filmes. Em Star Wars, as naves, os robôs, os lasers e todos os outros elementos sci-fi fazem parte do cerne do desenrolar do filme e desempenham papéis importantes na trama. São parte preponderante do cenário onde a história é ambientada. Dão o tom do universo na qual a narrativa corre. Não são elementos circunstanciais.

Considerando elementos circunstanciais, a análise correta seria, por exemplo: “Star Wars não é um filme sobre jawas traficando robôs apenas porque R2-D2 e C-3PO foram capturados por eles”. Aqui sim temos um elemento circunstancial que não define o gênero, mas ‘apenas’ consta na narrativa.

Se quisermos extrapolar o exemplo, como o blogueiro fez, podemos usar o seguinte: “Star Wars não é um filme sobre uma fazenda no deserto apenas porque tem uma ou duas cenas onde é mostrada uma fazenda”.

c) A declaração de George Lucas em “Império dos Sonhos”

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Gary Kurtz

Um dos poucos fatos concretos – e não subjetivos ou fundamentados em opiniões pessoais – que pode deixar dúvidas quanto à classificação do gênero de Star Wars vêm de uma fala curta do criador da saga, George Lucas, no documentário Império dos Sonhos, publicado originalmente no box da Trilogia Clássica de Star Wars. A fala de Lucas, levada ao pé da letra e considerada sem o contexto nerd do cineasta, pode mesmo levar à conclusões errôneas.

Mas a verdade é que ele, assim como todo nerd dos Estados Unidos daquela época, se refere àquela ficção científica como o subgênero hardcore, que hoje chamamos de hard science fiction, ou seja, as ficções científicas que são fielmente calcadas em ciência. Resumindo: ele se referiu ao subgênero hard science fiction, que na época não tinha o ‘hard’ no nome, e que foi acrescentado em tempos posteriores justamente para evitar essa confusão, e não à ficção científica como um todo, como gênero principal.

Como temos certeza disso? Primeiro, pelo contexto histórico citado, e segundo, pelas definições dadas por ele mesmo em outros vídeos, entrevistas e documentários, na qual afirma que Star Wars é um space opera, que é outro subgênero de… ficção científica! O mesmo subgênero que abrange as duas maiores inspirações de Lucas para criar a saga: Buck Rogers e Flash Gordon.

StarWarsSciFi3 Star Wars é ficção científica - Parte III - Desmistificando argumentos contráriosPara não deixar dúvida quanto ao contexto citado anteriormente, basta vermos como os jornais, revistas e periódicos mainstream da época – ou seja, que não sabem diferenciar os subgêneros sci-fi – se referem a Star Wars apenas como ‘ficção científica’, sem classificá-lo como space opera, exatamente da mesma maneira como Gary Kurtz, produtor original da saga e ‘não nerd‘, faz sempre que se refere a Star Wars, como podemos ver no filme I Am Your Father (imagem acima) e em diversas entrevistas dadas desde os anos 70. Como alguém não afeito às subdivisões do gênero-mãe sci-fi, Kurtz faz o que toda pessoa “normal” faz nessa situação, define a saga como ficção científica.

Endossando essa informação, é bom lembrar que jornalistas, críticos e periodistas de cinema, desde os anos 70, classificam Star Wars como um filme sci-fi, como já dito, e Samuel Delany é um deles. Não sabe quem é? Segue parte do currículo do crítico: escritor de ficção científica vencedor de seis prêmios do quilate de Hugo e Nebula (os maiores do gênero), professor de escrita criativa por quase quinze anos na Universidade de Temple, Filadélfia, e renomado acadêmico de literatura. Em 1977, como colaborador da revista Cosmos, publicou sua crítica de Uma Nova Esperança com o título de “Star Wars: Considerações sobre o novo grande filme de ficção científica“, categorização que ele repete ao longo do texto.

Delany não está sozinho. Basicamente todo crítico que falou de Star Wars até a trilogia prequela se refere à saga como uma obra sci-fi. Claro que na última década, com a polarização de tudo que existe, trazida pela Internet e suas redes ‘anti-sociais’, palco de mais brigas do que debates, na qual são proferidos achismos ao invés de fatos, a polêmica foi ganhando corpo e, de fato, hoje existem pessoas que acreditam piamente nessa história, e encampam uma campanha nesse sentido. Mais ou menos como os terraplanistas, extintos séculos atrás, e trazidos à vida novamente nesses últimos anos em uma situação que nos permite questionar até onde a imbecilidade humana pode ir, na qual a ciência é relevada em função deles, os tais achismos, que ignoram não só física, gravidade e outros elementos que requerem conhecimento científico, mas também fatos visuais, como o eclipse lunar (inexplicável, perante a teoria terraplanista).

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Reportagem dos anos 70

Seja como for, tanto na classificação de Star Wars como na forma da Terra, se os fatos forem pesados, e as opiniões pessoais forem forçadas à se adequarem a esses fatos, não há dúvida que persista. Também por isso lá nos anos 70 e 80 toda matéria de televisão que tratou de Star Wars também classificou a saga como ficção científica, como podemos ver em uma reportagem, mostrada em I Am Your Father (ao lado), que abordou o lançamento de O Império Contra-Ataca, com a locução contendo “Existia um estúdio, e eles decidiram fazer um filme de ficção científica…“.

Uma rápida pesquisa no Google traz diversas outras reportagens televisivas e/ou impressas dos anos 70 e 80, sempre se referindo à saga como ficção científica, obviamente. Também traz publicações especializadas em sci-fi tratando de Star Wars, bem como anúncios de convenções, encontros e festivais de ficção científica cujo tema eram Star Wars. Sim, mesmo dentre os fãs harcore, Star Wars sempre foi tratado como ficção científica, com a única diferença de ser um sci-fi soft, um space opera. Ainda assim, ficção científica.

d) Vídeo de conversa sobre o assunto

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1: “Isso” não é ficção científica?

Outro debate bastante famoso sobre o tema é um videocast que tem justamente o título “Star Wars é ficção científica?” e mostra a conversa de três pessoas debatendo a o gênero de Star Wars no cinema.

Na conversa exibida, um deles defende que não, Star Wars não é ficção. Outro defende o contrário. E o terceiro se mantém a maior parte do tempo intermediando ambos, apesar de concordar que sim, Star Wars é ficção científica.

Logo no começo, o primeiro afirma que “Em Star Wars você não precisa de embasamento científico para explicar as coisas sobrenaturais“, e por isso a saga seria uma fantasia.

Ele está se referindo à Força, evidentemente, e quer dizer que os elementos sobrenaturais presentes em Star Wars – e que não possuem explicação científica – são suficientes para que a saga não se enquadre em ficção científica.

Esse argumento já foi deveras derrubado no presente artigo, seja pela quantidade de fatores ‘sobrenaturais’ em comparação com os fatores sci-fi, seja porquanto, conforme vimos no Capítulo 1, não há problema em termos elementos fantasiosos em ficção científica, já que existem subgêneros que os comportam.

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2: Mas “isso” é ficção científica…

Mas o interessante é que no meio da conversa eles citam Duna (Dune – 1984) e até John Carter – Entre Dois Mundos (John Carter – 2012), filmes que todos os três concordaram ser de ficção científica e que têm uma pegada muito parecida com Star Wars (afinal, também são space operas).

Ambos os filmes, inclusive, também têm elementos fantasiosos, porém – como tem se mostrado comum – isso não parece ser empecilho para sua alcunha sci-fi.

Aqui vale a mesma pergunta relativa a Avatar: por que os elementos fantásticos de Duna e John Carter não descaracterizam as obras como ficção científica, enquanto que para Star Wars, parecem ser suficientes para obliterar todo o contexto sci-fi da saga?

e) Star Wars é basicamente cientificamente plausível como a média das sci-fi:

hiperespaco-300x212 Star Wars é ficção científica - Parte III - Desmistificando argumentos contráriosEm outro blog, em uma postagem sobre o mesmo assunto, o autor critica também a ciência de Star Wars, assim como muitos dos que a enquadram como fantasia e não como ficção científica.

Em uma parte de seu artigo, ele comenta que  “a Millenium Falcon, entra e sai de viagens acima da velocidade da luz porque sim e pronto“, referindo-se ao respeito às leis da física, que não seriam seguidas na saga da Força de forma tão fiel como em Star Trek.

Na verdade, nem a Falcon nem nenhuma nave de Star Wars viaja à velocidade da luz ou acima dela. O termo “velocidade da luz” é usado por alguns personagens como uma gíria para os saltos no hiperespaço que essas naus realizam para cruzar a galáxia. Para tanto, as naves são equipadas com hiperpropulsores e, inclusive, um dos motes mais lembrados pelos fãs da saga é o dos constantes problemas com o hyperdrive da Falcon.

Quando não estão no hiperespaço, as naves de Star Wars usam propulsores iônicos (que na época da criação da saga, ainda não existiam) e se diz que estão em velocidade sub-luz. O interessante disso é que o mesmo ocorre em Star Trek: quando as naves não estão em velocidade de dobra, também se diz que elas estão viajando em ‘sub-luz’. 🙂

Mas é evidente que, por não se tratar de uma ficção hard, Star Wars não será absolutamente fiel à ciência em diversos pontos. Ocorre que isso não impede a saga de ser uma ficção científica, como já vimos no Capítulo 1. Se assim o fosse, Star Trek – o alegado contraponto hard de Star Wars e usado como exemplo de ficção científica – também não seria sci-fi, conforme podemos ver no tópico abaixo.

Aliás, a maioria dos filmes de ficção científica, em algum ou vários momentos, deixa a ciência de lado em favor da narrativa, usando de fantasia, technobabble³, licenças poéticas e outros artifícios para que determinada lei da física, por exemplo, possa ser usurpada (mas de forma crível, com ajuda da nossa suspensão da descrença), e a história possa ser contada.

f) Star Trek não é um modelo de comparação tão perfeito quanto pensam:

startrek-300x169 Star Wars é ficção científica - Parte III - Desmistificando argumentos contráriosEste tópico visa demonstrar que, se Star Trek é uma ficção hard mais apoiada em ciência nas suas narrativas, ela ainda assim tem diversos erros e falhas nesse sentido, além de também fazer uso de explicações fantasiosas ou de simplesmente usar de licença poética ou technobabble³ para várias de suas tecnologias, como não poderia deixar de acontecer, apensar de muitos fãs não saberem – ou não aceitarem.

f.1) Gravidade zero

Nas naves de Star Trek não há geração de gravidade artificial, e ainda assim os tripulantes conseguem andar normalmente pelos corredores e sentam-se tranquilamente em suas cadeiras (que, apesar das inúmeras batalhas espaciais travadas, nunca têm cintos de segurança para impedir os tripulantes de serem atirados ao chão).

f.2) Evolução convergente

Por motivos de orçamento, todos os planetas visitados pela Enterprise na série clássica eram “Classe M”, quase idênticos à Terra em tamanho, gravidade e atmosfera, e mostravam seres idênticos aos humanos. Além da improbabilidade matemática de existirem tantos planetas Classe M, é impossível que eles tivessem história evolutiva idêntica à Terra, para terem criaturas idênticas aos humanos, no mesmo estágio evolutivo, ao mesmo tempo.

f.3) Bypass na inércia 

Quando as naves aceleram à velocidade de dobra de forma quase instantânea, a física diz que a nave e a tripulação deveriam virar pó, devido às implicações da inércia (1ª Lei de Newton). Para ‘resolver’ esse problema, os criadores da série inventaram um dispositivo fantasioso chamado “Amortecedor de Inércia”. Como ele funciona? Ninguém sabe, pois trata-se de um technobabble³. Algo similar ocorre com o teletransporte.

f.4) Disparos visíveis

Quando armas são disparadas em Star Trek, podemos acompanhar o percurso dos tiros, sejam dos phasers de mão da tripulação, sejam das naves (que inclusive disparam torpedos “fotônicos”). A física diz que não conseguiríamos acompanhar visualmente os ‘projéteis’ luminosos.

f.5) Sons no espaço

Quando as naves de Star Trek se movimentam pelo espaço, ouvimos o som gerado por seus motores, o que contradiz o fato de que o som não se propaga no vácuo. O mesmo corre com as explosões, tiros, etc.

Além desses erros, podemos citar diversos outros problemas relativos à ciência usada em Star Trek, ainda que a série e os filmes sejam bastante fiéis aos preceitos científicos de uma forma geral.

Mas, como vimos, Star Trek também está recheada de explicações fantasiosas, erros científicos e licenças poéticas que são necessários para permitir o andamento da narrativa. Assim como a maioria dos outros filmes do gênero. Alguns dos problemas elencados aqui, ocorrem também com Star Wars, por exemplo.

Até Interestelar (Interstellar – 2014) que contou com a consultoria do renomado físico teórico Kip Thorne em sua concepção, possui erros científicos que foram necessários para que a história fosse contada. Não há como fugir disso.

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Veja aqui todos os capítulos do artigo:

Parte I – Definindo o “que é ficção científica”

Parte II – Analisando a saga de forma criteriosa

Parte III – Desmistificando argumentos contrários (você está lendo esse capítulo)

Parte IV – Conclusão

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²: Enredo é o desenrolar das linhas de ação de uma narrativa, seja ela de que gênero for. Ou seja, o gênero ficção científica, por exemplo, pode ter obras com qualquer tipo de enredo, dentre os quais A Jornada (que é o caso de Star Wars), mas também poderia ser O Resgate, A Vingança, e outros. O clássico absoluto do ficção científica, 2001 – Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey – 1968), de Stanley Kubrick, possui o enredo do tipo O Isolado (saiba mais sobre os tipos de enredos cinematográficos nesse excelente artigo de Sandro Massarani). O mesmo vale para os outros gêneros… podemos ter uma comédia com enredo A Aventura, ou um drama com o enredo A Busca, e etc.

³: Technobabble (“baboseira tecnológica”, em tradução livre) é um recurso narrativo que significa inventar uma explicação técnica que pareça verossímil, usando palavras que façam sentido. O autor aplica quando precisa explicar algum funcionamento tecnológico que não tem fundamentação científica. No caso citado, precisavam explicar como os tripulantes da Enterprise não viram paçoca quando se entra e sai de velocidade de dobra espacial. Solução? Dizer que existem Amortecedores de Inércia. Como eles funcionam? Não importa. O nome é legal e diz que eles amortecem os efeitos da inércia. Já é o suficiente, e todos vão acreditar que assim, atingir velocidade de dobra é factível, bem como sair dela.

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Ralph Luiz Solera

Escritor e quadrinhista, pai de uma linda padawan, aprecia tanto Marvel quanto DC, tanto Star Wars quanto Star Trek, tanto o Coyote quanto o Papaléguas. Tem fé na escrita, pois a considera a maior invenção do Homem... depois do hot roll e do Van Halen, claro.

13 comments

  • Avatar
    Cabaninha:

    não tem o que contestar… a menos que seja um ba ba ca hater que não aceita “derrota”, quem pensa que é fantasia tem que admitir que é ficção científica… e não, não vale inventar regrinha própria pra classificar o filme “ah, mas PRA MIM, FC é isso isso e isso e SW não tem isso”…

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    Lourdes:

    pouta queoo pareooo fantástico esse artigo, pra quem leu até o fim (poucos, suponho kkk)… parabens, derruba todos os mitos sobre esse assunto

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    Lindomar Costa:

    Eu identifiquei os blogs que vc citou hahaha eu ja tinha lido os textos deles, um eh da Lady Sibilla (se acha a ultima bolacha do pacote), que se diz escritora e tal e comete uns erros inacreditaveis, tipo esse de confundir genero e enredo e dizer que Avatar é ficcao pq “tem um enredo meio magico” enquanto SW ela diz que eh fantasia kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk totalmente incoerente!!! Parabens pelo artigo, muio bom e derruba TUDO que dizem contrario. Ponto final nesse assunto.

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    Eliane Franco:

    Me sinto enganada… a vida toda eu acreditei que SW não era ficção científica, me baseando em alguns textos (bons) que tinha lido sobre o assunto… inclusive um desses textos vc mesmo mencionou nessa parte 2 do artigo, e o legal é que vc contestou todas aquelas ideias que eu tinha como certas, e derrubou uma a uma, com argumentos, nao ofendeu ninguem, nao se colocou como sendo acima de ninguem, nao se gabou, nao desmereceu quem pensa o contrário – mas respondeu e mostrou que os fatos eram equivocadamente analisados por eles! Obrigado por jogar luz de um jeito tão definitivo nesse assunto, e por ter sido tão competente em abordar um assunto que é bastante controverso, mas que vc mostrou que tem sim uma interpretação correta e outra equivocada.

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    Erika Moura:

    é… eu vim babando pra durrubar vc e me danei kkkkkkkkkkkk admito que ficou difícil contestar isso

    • Ralph Luiz Solera
      Ralph Luiz Solera:

      hahahaha ainda bem, Erika!!!

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    Jackson:

    Esse artigo é uma verdadeira aula… só não muda de idéia a esse respeito, depois de ler ele, quem não quer por picuinha mesmo…

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    José Marques:

    Poucas vezes na Internet eu vi um texto como esse… contesta mitos sobre o assunto de forma quase científica de tão bem fundamentada, sem ofender o autor da falácia (pelo contrário, mostrando para com ele o máximo respeito), e colocando seu ponto de vista de forma que fica impossível alguém contrariar, goste ou não. Parabéns! Quem dera todos os artigos que tratam de assuntos tão apaixonantes fossem tão bons e de nível tão elevado como esse… a Internet seria muito melhor do que essa coisa cheia de “achismos” e ódios com opiniões contrárias como vemos hoje em dia.

  • Ralph Luiz Solera
    Ralph Solera:

    Sim, pessoal, quando me referi ao teletransporte no artigo, estava justamente falando desse technobabble dos tais “Compensadores de Heisenberg”. 🙂

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    Rodrigo Magalhães:

    O teleporte é outra falha de Star Trek…
    Para coisas complexas pode ser impraticável
    O conceito seria usar o entrelaçamento quântico
    Ou seja vc desconstrói num lugar e constrói em outro
    Basicamente ao usar teleporte vc vai ser sempre uma cópia do original
    Os problemas inerentes São imensos… impossíveis, na verdade…
    Desde a quantidade de data para armazenamento da informação pra cada átomo do corpo
    Quanto ao efeito xerox (o resultado não é mais o ser humano original)
    Possíveis perdas minúsculas nas cópias e quando vc tira copia da cópia da cópia uma hora não se reconhece mais
    Ou seja
    O teleporte é menos viável que a Starkiller
    Cara o compensador eh mágico
    O que ele se propõe a fazer eh impossível
    Até a Força é mais aceitavel

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    GGM:

    Como disse o Chakotay (que se distingue dos demais tripulantes de Star Trek por sua cosmovisão MÍSTICA, como aborígine), nem tudo pode medido com um tricorder!

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    Lidinha:

    E qual a explicação para um bem-sucedido filho híbrido da união entre um vulcano e uma humana (que até Carl Sagan ironizou, dizendo que as chances seriam as mesmas de uma “cruza” entre um humano e uma rosa ou uma petúnia)?

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    Carlos Carraca:

    Pra justificar o teletransporte inventaram depois, na NG, o tal Compensador Heisemberg… tb ninguem sabe como funciona kkkkkkkkkk pior que ele é impossivel cientificamente… vc devia colocar isso

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